Lorena Railanna é comunicóloga, graduanda em História, analista política e colunista desse portal
Por um tempo, realmente acreditei que Flávio Matos representava um novo momento na política de Camaçari. De fato, era o quadro mais viável da base para disputar as eleições de 2024. Reconheço que teve disciplina, soube aproveitar a estrutura que lhe foi dada para se movimentar e, como sempre digo, disciplina vence talento.
Enquanto Elinaldo e Tude, líderes naturais do grupo, afirmavam que as pesquisas definiriam o nome do candidato, Flávio e seus aliados já operavam para deslegitimar quadros históricos com trajetória significativa na cidade. Com um discurso disfarçado de opinião, tratavam Tude como um político já superado. A retórica era de respeito, mas carregada de veneno. Nesse processo, acendeu-se um alerta em mim. A campanha majoritária confirmou isso. Era visível que muitos do seu entorno já se comportavam como donos da máquina, mesmo antes de vencer qualquer eleição.
Mesmo com esses incômodos, apoiei Flávio por compromisso com o projeto liderado por Elinaldo. Preferi quebrar minha intuição a quebrar minha palavra. E, justiça seja feita, ele era um bom candidato. Mas não venceu. E, depois da derrota, o que se esperava era grandeza, humildade e espírito de grupo.
Na lavagem de Jauá, os sinais já estavam claros: um distanciamento visível, articulações paralelas, e o prenúncio do que agora se confirma com sua saída do União Brasil (UB) e migração para o Partido Liberal (PL) de Bolsonaro, liderado na Bahia por João Roma. Flávio ensaiou um movimento clássico: se posicionou como isolado dentro do grupo, alimentando a narrativa de vítima, como se estivesse sendo deixado de lado injustamente. Com isso, buscou justificar sua ruptura, como se fosse inevitável. Essa postura, no entanto, revela mais vaidade e oportunismo do que qualquer legítima queixa. Na prática, tudo aponta para uma estratégia pensada e calculada de dividir para conquistar. Em vez de somar e unir forças no momento em que o grupo mais precisava de coesão, optou por criar uma crise, se afastar e enfraquecer internamente com objetivos muito claros.
Na política, palavra vale mais do que papel assinado. Flávio sabia do pacto de grupo: ele seria o candidato a prefeito e, em 2026, apoiaria Elinaldo para deputado estadual. Manuel Rocha e Paulo Azi dividiriam os votos para federal. Isso não era apenas um acordo, era um gesto de honra. Ao romper esse pacto, Flávio desonra quem o sustentou e se mostra menor do que parecia. Flávio não chegou onde chegou sozinho. Foi Elinaldo quem apostou nele, bancou sua liderança na Câmara, sua presidência, sua candidatura. Foi Elinaldo quem segurou o rojão para lhe dar protagonismo. Mas gratidão não é discurso, é prática.
Tudo o que Elinaldo precisava era de um ombro que se colocasse ao seu lado como um verdadeiro amigo. Porque é na dificuldade que reconhecemos quem realmente está conosco. E convenhamos, o que vimos foi uma narrativa falsificada sendo construída passo a passo, com o único objetivo de tentar usurpar a liderança por meio de articulações sorrateiras. Esse gesto é de uma covardia sem precedentes, porque ele, mais do que qualquer pessoa, sabe do esforço que foi dedicado para que sentasse na cadeira de prefeito. Não se trata de impedir sonhos. Todo político tem o direito de sonhar. Mas há uma diferença entre sonhar e trair. Entre liderar e usurpar.
Para finalizar, há algo que precisa ser dito e registrado para que, lá na frente, essa conta seja cobrada: esse movimento só favorece os adversários, que assistem de camarote ao racha no time azul. Um desgaste evitável, se houvesse mais sabedoria política e respeito às alianças firmadas. Mas Flávio preferiu ser rei de si mesmo a aliado de um projeto maior, o próprio, e que chegará em 2028 fragilizado. No fim, todos saem perdendo: o grupo se enfraquece, a cidade paga o preço e ele próprio tropeça na ilusão de que se caminha longe sozinho.