Aos 40 anos, Leidy Jane dos Santos Figueiredo começa o dia antes do amanhecer. Às 5h30, enquanto boa parte dos moradores de Plataforma, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, ainda dorme, ela já prepara café, organiza a casa, separa roupas e acompanha a rotina dos filhos antes de subir para a laje, onde funciona o pequeno ateliê improvisado.
O que você vai ler nesta reportagem
- A Feira das Mães Atípicas apoia mulheres com filhos neurodivergentes, proporcionando um espaço de acolhimento e troca de experiências.
- Empreender é uma necessidade para essas mães, que enfrentam desafios financeiros e emocionais ao conciliar cuidados e trabalho.
- A pesquisa do Sebrae Bahia revela que 700 mil mulheres, muitas mães, lideram negócios no estado, apesar de desafios como gestão financeira e preconceito.
- O custo emocional do empreendedorismo é alto; mães vivem entre a culpa e a necessidade de apoio, destacando a importância de redes como a Feira das Mães Atípicas.
Entre o tanque, a máquina de lavar e as roupas estendidas no varal, produz os laços artesanais que ajudam a sustentar a casa. “Meu dia começa às 5h30, e, geralmente, termina 1h, 2h da madrugada. Quando eu tenho produção, eu estendo até terminar”, conta.
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Leidy é dona da marca de acessórios infantis Layla Laços, criada dentro de casa enquanto conciliava maternidade atípica, trabalho doméstico e dificuldades financeiras.
Mãe de Ravi Lucca, de 9 anos, autista nível 1 de suporte, com TDAH e TOD, de Layla, de 4 anos, e de uma jovem de 22 anos diagnosticada com transtorno de personalidade, ela conhece de perto a dificuldade de empreender quando o cuidado ocupa praticamente todas as horas do dia.

Entre uma atividade e outra, Leidy constrói parte das renda da família | Foto: .José Simões / Ag. A TARDE
A rotina de Leidy se repete na vida de dezenas de mulheres que integram a Feira das Mães Atípicas, rede formada por mães, avós e cuidadoras de pessoas neurodivergentes que transformaram o artesanato e pequenos negócios em alternativa de renda – e, muitas vezes, na única possibilidade de continuar trabalhando.
Mais do que espaço de vendas, a feira se consolidou como rede de acolhimento, fortalecimento emocional e sobrevivência coletiva.
Empreender porque não existe alternativa
Leidy costuma dizer que empreender nunca foi exatamente uma escolha, mas uma necessidade. “Antes de ser mãe atípica, eu era filha atípica. Empreender para mim, veio desde criança”.
Filha de uma mulher diagnosticada com esquizofrenia, ela cresceu ajudando a complementar a renda da casa vendendo acarajé, doces e bolos pelas ruas do Subúrbio.
Antes dos laços, trabalhou como doméstica, babá e cuidadora de idosos. O artesanato surgiu durante a gravidez de Ravi. Convencida de que esperava uma menina, começou a produzir peças para o enxoval. Depois descobriu que teria um menino. “Uma colega falou: ‘Bota para vender’. E aí nasceu [Layla Laços]”.
O pequeno negócio ganhou força justamente quando as demandas com os filhos aumentaram e o trabalho formal deixou de ser possível.
A maternidade atípica impõe uma rotina incompatível com grande parte dos empregos tradicionais.
Hoje eu tenho que ser mãe, filha, dona de casa e empreendedora
O negócio de laços de Leidy não garante renda fixa e depende de períodos sazonais e das feiras para complementar a renda. “Varia de época, porque eu falo que o meu ramo que é laços é sazonal. Em dezembro, eu consigo tirar uns R$ 2 mil, em junho, uns R$ 1 mil, R$ 1,5 mil”, explica.
Ela relata que, fora desses períodos, a renda é instável e depende das vendas pontuais. “Em uma feira, por exemplo, na última que eu fui, eu vendi R$ 200, se chegar muito é R$ 500, R$ 600.”
“Não posso dizer que vivo do laço”, conclui a empreendedora, que trabalha na informalidade por medo de perder o Benefício de Prestação Continuada (BPC) que Ravi tem direito.
O peso invisível do cuidado
Enquanto organizam encomendas, participam de feiras e tentam manter pequenos negócios funcionando, muitas dessas mulheres conciliam terapias, consultas médicas, medicações, escola, crises emocionais e trabalho doméstico – quase sempre sem apoio.
Para Jaqueline Santos, 31 anos, presidente da Associação de Jovens Empreendedores da Bahia (AJE-BA) e mãe de Anthony, de 8 anos, autista nível 1 de suporte, o empreendedorismo entre mães atípicas nasce muito mais da necessidade do que da oportunidade.
“O empreendedorismo vem como solução para complementar a renda, para poder manter o mínimo de dignidade, assim como para garantir a nossa presença e o acompanhamento do dia a dia da criança”, pontua.
Ela explica que muitas mulheres entram na informalidade tentando construir uma renda compatível com a rotina intensa de cuidados. Nesse contexto, empreender vai muito além de vender produtos ou abrir um CNPJ.
Quando o assunto é maternidade atípica na periferia, o trabalho deixa de ser apenas alternativa financeira e passa a funcionar também como espaço de resistência e acolhimento.
“Ser empreendedora é uma busca por sobrevivência minimamente digna, mas quando encontramos força em outras iguais a nós, isso se torna uma rede de apoio para continuarmos a jornada múltipla que vivemos”, acrescenta.
Jaqueline destaca ainda que mães atípicas desenvolvem múltiplas competências ao longo da jornada: produzem, vendem, divulgam, administram redes sociais, negociam com fornecedores e constroem estratégias de sobrevivência quase sempre sem apoio financeiro.
A feira que virou rede de acolhimento
A Feira das Mães Atípicas surgiu justamente dessa dificuldade compartilhada entre mulheres que, em sua maioria, são mães solo.
Idealizadora do projeto, Nadja Barreto Teles, 47 anos, mãe de Kahaled, adolescente autista nível 3 de suporte, percebeu que muitas mulheres abandonavam o mercado formal após o diagnóstico dos filhos. “Empreender deixou de ser uma escolha para passar a ser a nossa única opção”, afirma.

Nadja é a idealizadora da Feira das Mães Atípicas | Foto: .José Simões / Ag. A TARDE
Publicitária de formação e artesã desde a adolescência, Nadja deixou o trabalho formal há 12 anos para se dedicar integralmente ao filho. Hoje, empreende em uma loja de artigos para festas e brindes.
“Quando empreender é hobby, é lindo. Mas quando é a única alternativa de sobrevivência, é cruel”, desabafa.
Empreender deixou de ser uma escolha para passar a ser a nossa única opção.
Ela conta que a ideia da rede nasceu após uma feira beneficente, quando percebeu algo em comum entre as expositoras: mães exaustas tentando manter pequenos negócios enquanto enfrentavam jornadas intensas de cuidado.
“A gente começou a perceber a dificuldade dessas mulheres estarem naquele espaço e, ao mesmo tempo, a felicidade de expor os produtos”, relembra.

Feira das Mães Atípicas | Foto: Arquivo pessoal
Atualmente, a Feira das Mães Atípicas reúne 189 mulheres de Salvador, Região Metropolitana, Recôncavo Baiano e Litoral Norte.
Segundo Nadja, embora o grupo tenha surgido para fortalecer empreendedoras, ele funciona muito além das vendas: virou espaço de troca de informações sobre terapias, médicos, direitos sociais e apoio emocional.
“O nosso principal objetivo é cuidar de quem cuida. Por trás de um neurodivergente que consegue caminhar bem, existe uma cuidadora que normalmente está destruída”, afirma.
A Feira das Mães Atípicas surgiu como um refúgio e uma rede de apoio para muitas mães que, como Leidy, encontram no artesanato uma alternativa de renda em meio às dificuldades do dia a dia.
O empreendedorismo como possibilidade de permanência
Foi dentro dessa rede que Juliana Fernandes dos Santos, 39 anos, voltou a se reconhecer profissionalmente.
Mãe solo de Gustavo, de 18 anos, autista nível 2 de suporte, ela trabalhava como operadora de caixa quando decidiu deixar o emprego para acompanhar o filho nas terapias. “Eu larguei tudo e dediquei minha vida a ele”, conta, emocionada.

Foi em um aprendizado da infância, que Juliana encontrou a saída para empreender e cuidar dos filhos | Foto: .José Simões / Ag. A TARDE
Durante anos, viveu exclusivamente em função da maternidade e do cuidado. Na pandemia, retomou uma habilidade aprendida ainda na adolescência: o crochê.
“Eu comecei a fazer para ocupar a cabeça. As peças começaram a chamar atenção nas redes sociais e os pedidos apareceram. Foi assim que o crochê virou renda”, lembra.
Hoje, vende os artesanatos pela internet e participa das feiras organizadas pela rede.
Ainda assim, a instabilidade financeira atravessa a rotina de quem empreende na maternidade atípica. Como acontece com muitas mulheres do grupo, a informalidade acaba sendo o único caminho possível.
Juliana evita formalizar o negócio por medo de perder benefícios sociais que ajudam a sustentar a casa e garantir os cuidados do filho.
“Eu sustento uma casa sozinha, cuido de dois filhos e ainda tenho que investir nos materiais. A gente vive tentando multiplicar o dinheiro do benefício”.
A avó que encontrou respostas na rede
Para Simone Canuto dos Santos, 53 anos, avó de Isaque Felipe, de 5 anos, ainda em investigação diagnóstica, a Feira das Mães Atípicas foi a primeira rede de orientação que encontrou depois de anos de incerteza.
Foi ali que transformou o crochê – antes passatempo -, em complemento de renda e também em ferramenta para reconstruir a própria confiança.

Mais do que a oportunidade de fazer uma renda extra, Simone encontrou na Feira de Mães Atípicas, o acolhimento para aprender a cuidar do neto autista | Foto: .José Simões / Ag. A TARDE
“A gente ganha nosso dinheirinho e mostra nossa arte. Mas, aqui uma também vai aprendendo com a outra. Se não fossem as Mães Atípicas, eu não saberia como agir com ele”, afirma Simone.
Criando o neto desde os primeiros dias de vida, ela conta que foi ouvindo outras mulheres da rede que começou a compreender os sinais do menino e construir estratégias de cuidado enquanto aguardava atendimento especializado.
“Antes, eu não sabia se era birra ou crise. Hoje, eu já sei”, relata, em meio ao alívio de poder cuidar do neto com mais dignidade.
Empreendedorismo feminino na Bahia
A Pesquisa Desafios e Oportunidades do Empreendedorismo Feminino na Bahia, divulgada em março deste ano pelo Sebrae Bahia, mostra que cerca de 700 mil mulheres comandam negócios no estado.
O levantamento aponta crescimento de 6% entre empreendedoras que deixaram de ser MEI para se tornarem microempresárias. No Brasil, mais de 10 milhões de mulheres lideram empresas.
Apesar do avanço, os desafios permanecem. Na Bahia, 51% apontam a gestão financeira como principal dificuldade, 33% relatam problemas com tecnologias digitais, 31%, gestão do tempo, e 26%, acesso a crédito.
O estudo revela ainda que 41% são chefes de família, 65% são mães, 39% não têm apoio para cuidar da casa ou dos filhos e 50% já sofreram preconceito por serem mulheres e empreendedoras.
Os dados mostram atambém que 33% atuam como MEI, 26% possuem microempresa e 12% seguem na informalidade. Mulheres negras representam mais de 70% das empreendedoras baianas.
O custo emocional da sobrevivência
A psicóloga organizacional Laura Almeida, especialista em saúde mental no trabalho e riscos psicossociais, afirma que a sobrecarga enfrentada por essas mulheres não é apenas financeira, mas também é emocional e estrutural.
Segundo ela, um dos primeiros sentimentos que atravessam mães atípicas empreendedoras é a culpa.
“Essa culpa está inserida numa estrutura que aponta a mulher como única responsável pela parentalidade. Elas estão trabalhando no negócio pensando no filho e cuidando do filho pensando no negócio. São duas responsabilidades infinitas”, explica.
Laura afirma ainda que o empreendedorismo feminino, especialmente entre mães atípicas, acontece em um contexto de exaustão permanente, ausência de políticas públicas e isolamento emocional.
“Essas mulheres, muitas vezes, precisam tomar decisões sozinhas. Isso é muito solitário. Abrir mão do tempo, dos sonhos e das oportunidades é um processo de luto legítimo”, aponta.
Para a psicóloga, redes como a Feira das Mães Atípicas cumprem papel essencial de proteção emocional.
“A rede de apoio é um fator de saúde mental importantíssimo. Essa ideia de que você não precisa de ninguém é uma armadilha. Buscar grupos de mães atípicas e comunidades de apoio é uma forma de fortalecimento”, finaliza.
Muito além da venda
Na Feira das Mães Atípicas, empreendedorismo não aparece como discurso motivacional nem promessa rápida de independência financeira.
Para essas mulheres, empreender significa criar uma forma possível de continuar existindo economicamente sem abandonar o cuidado integral dos filhos.
Significa adaptar horários de produção entre terapias, consultas e crises emocionais. Transformar cozinhas, quartos e lajes em pequenos ateliês improvisados. Vender artesanato para pagar remédios. Encontrar apoio onde antes existia apenas solidão. “A conta não fecha, mas desistir não é opção”, resume Nadja.
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Todos os meses, essas mulheres ocupam feiras, corredores de shopping centers e espaços coletivos para expor os próprios trabalhos. Entre laços, crochês e peças artesanais, construíram também uma rede onde acolhimento e sobrevivência caminham juntos.
Serviço:
- Empreendedora: Leidy Jane
Empresa: Layla Laços – @laylalaços
- Empreendedora: Juliana Fernandes
Empresa: Juliana Fernandes Crochê – @julianafernandescroche
- Empreendedora: Nadja Teles
Empresa: Khamary Brindes- @khamarybrindes
- Empreendedora: Simone Canuto
Empresa: Simone Crochê- @siicroche_21