Segunda maior região por população no país, com mais de 54 milhões de habitantes, de acordo com o censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Nordeste carrega consigo traços culturais únicos, que misturam a fé demasiada com um histórico de pobreza e descaso, cenário que mudou ao longo das décadas recentes.
Sempre protagonista na política nacional, a região desenvolveu seu próprio modus operandi durante a República: as famílias mais poderosas consolidaram o chamado ‘coronelismo’, que usou de figuras centrais para a influência política e econômica em seus redutos, utilizando, na maioria das vezes, de métodos contraditórios.
As mudanças políticas que o Brasil atravessou, com golpes de Estado, quedas de governos, além do surgimento de novas lideranças, colaboraram para que algumas famílias conseguissem, mesmo longe do coronelismo, estabelecer as mesmas influências em seus estados, o que atravessou décadas e sobreviveu ao período da redemocratização.
O A TARDE Destaque desta semana mostra que algumas dessas famílias ainda disputam o protagonismo no Nordeste nas eleições do próximo domingo, 4, e explica o cenário eleitoral na região.
Consolidação do sobrenome
Mais que um complemento de nome, os sobrenomes se transformam em marcas de legados para muitas famílias políticas. Na Bahia, por exemplo, é impossível não conhecer os Magalhães, os Carneiros, os Magalhães de ‘Juracy’, os Bragas, entre outros grupos que se alternaram no poder, seja a nível municipal, regional ou estadual, ao longo dos dois últimos séculos.
Fora da Bahia, mas ainda no Nordeste, outras famílias se destacaram pelo mesmo motivo, atravessando gerações e ditando, de certo modo, as regras do jogo eleitoral em seus respectivos estados.
Para o cientista político João Vilas Boas, a consolidação de poder desses clãs se deu a partir do processo de estruturação política a partir da transformação do poder político individual.
“Essas famílias se consolidaram porque conseguiram transformar poder individual em estrutura política. Em geral, uma liderança constrói uma base eleitoral, estabelece alianças, ocupa espaços institucionais e cria uma rede de relações que, ao longo do tempo, ultrapassa a própria figura do líder. É desse processo que surge o chamado capital político familiar em torno de um mesmo sobrenome”, explicou o analista político ao comentar sobre o tema ao A TARDE Destaque.
Como sobreviver ao tempo?
O cientista político ainda pontua que a distribuição do capital político construído pela principal liderança de cada uma dessas famílias explica a consolidação de poder, para além do simples fato de carregar um sobrenome de peso.
Para o analista, os ‘herdeiros’ dos sobrenomes não recebem os votos de maneira automática, apesar da vantagem de carregar um nome de peso dentro da política.
O sobrenome ajuda porque carrega reconhecimento, memória e uma rede de relações já construída, mas ele não explica tudo. Essas famílias sobreviveram porque souberam distribuir seu capital político entre diferentes gerações, cargos, municípios e alianças, adaptando-se às mudanças do sistema político João Vilas Boas – Cientista político
Para conquistar esses votos, é necessário manter e expandir as redes de relações construídas pelos patriarcas dessas famílias.
“Por isso, mais do que falar simplesmente em herança de poder, é preciso falar em reprodução do poder. O filho ou o neto não recebe automaticamente os votos do pai ou do avô, por exemplo. Na verdade, ele recebe uma vantagem inicial: um sobrenome, já acompanhado de uma uma rede, relações e visibilidade e consegue transformar esse patrimônio em votos e continuidade política”, destacou.
ACM Neto assume liderança e tenta levar os Magalhães de volta ao poder
Na Bahia de 417 municípios e muitas realidades, muitas famílias se destacaram dentro do regime republicano, mas o clã dos Magalhães, sem dúvidas, se estabeleceu como protagonista no maior estado do Nordeste.
Agora, ACM Neto (União Brasil) tenta trazer o sobrenome novamente para o centro do poder em solo baiano.
ACM expande poder e consolida família Magalhães
O primeiro a entrar no mundo político foi o médico Francisco Peixoto de Magalhães (m.1969), na primeira metade do século XX, se tornando deputado federal pela Bahia por três mandatos.
Foi seu filho, Antônio Carlos Magalhães, porém, que fincou o poder da família na política, expandindo sua influência a nível nacional e passando o bastão para as gerações futuras.
Antônio Carlos Magalhães, o ACM, foi deputado federal entre 1958 e 1967. Dentro desse espaço de tempo, foi um dos apoiadores do golpe de Estado de 1964, que afastou o presidente João Goulart (PTB) do cargo, dando início a uma ditadura militar que durou até 1985.
ACM fez parte da ala civil que gozou de privilégios dentro do regime, tendo apoio do grupo para chegar ao posto de prefeito de Salvador, ocupado por ele entre 1967 e 1970.
No ano seguinte, em 1971, Antônio Carlos Magalhães se tornou, de maneira indireta, governador da Bahia. Após um curto período, ACM voltou ao Palácio de Ondina para um novo mandato, fazendo seu sucessor, João Durval, já na abertura política que o Brasil vivia nos primeiros anos da década de 1980.

Em 1990, ACM voltou ao governo da Bahia para um terceiro mandato, o primeiro pelo voto popular, após ser ministro das Comunicações do governo José Sarney (PMDB).
Para garantir a continuidade do legado da família, o ungido foi seu filho, o deputado federal Luís Eduardo Magalhães. No auge do poder da família, pai e filho estiveram ao mesmo tempo ocupando as cadeiras das presidências do Senado e Câmara Federal.
A morte precoce de Luís Eduardo, em 1998, mudou a rota da família e do seu grupo político, o chamado ‘Carlismo’. Seu neto Antônio Carlos Magalhães Neto, popularmente conhecido como ACM Neto, assumiu, ainda jovem, a missão de manter a família nos espaços de disputa de poder.
ACM Neto constrói trajetória própria e mantém legado
Em 2002, ACM Neto, na época filiado ao extinto Partido da Frente Liberal (PFL), viveu seu primeiro teste nas urnas, sendo eleito deputado federal com votação recorde para a época. Quatro anos depois, o parlamentar conseguiu a reeleição com nova folga.
Em 2008, em um cenário de ausência do avô, que morreu um ano antes (m.2007), ACM Neto (DEM) conheceu sua primeira derrota nas urnas, ao tentar levar a prefeitura de Salvador, amargando a terceira colocação no pleito.
Reeleito deputado em 2010, ACM Neto se tornou prefeito de Salvador em 2012, após uma dura disputa contra o petista Nelson Pelegrino, que terminou apenas no segundo turno.
Quatro anos depois, com uma gestão bem avaliada, ACM Neto se reelegeu com folga e votação recorde até então na cidade, ficando no cargo até o final de 2020.
Em 2022, apareceu como favorito na eleição para o governo da Bahia, mas o surgimento da figura do então desconhecido Jerônimo Rodrigues (PT), aposta dos petistas, mudou os rumos do processo eleitoral.

Jerônimo Rodrigues impôs a ACM Neto e seu grupo uma derrota no segundo turno, adiando os planos do clã de voltar ao mais alto cargo do executivo na Bahia.
Para 2026, ACM Neto tem equilibrado o legado da família com a imagem de candidato que conseguirá trazer algo novo. A postura vai na contramão do que foi feito em 2022, quando utilizou a memória do seu avô como um dos pilares da sua campanha.
Família Caldas se une aos Liras para derrubar império dos Calheiros
Terra de Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito pós-redemocratização, o estado de Alagoas sempre ficou marcado pelo domínio de famílias políticas que se alternavam no poder.
Com o declínio do clã liderado por Collor, os Calheiros e os Liras cresceram e passaram a disputar o território alagoano. Foi nas asas do ex-presidente, por sinal, que Renan Calheiros (MDB) começou a construir sua trajetória e consolidar o espaço da família em Alagoas.
Calheiros crescem e tomam Alagoas
Visto por alguns como um ‘coronel’, Renan Calheiros ganhou destaque ao se tornar integrante da linha de frente do governo Collor, quando era apenas um deputado federal pelo extinto PRN.

Senador desde 1995, Calheiros expandiu sua influência para o âmbito nacional, se tornando presidente do Senado por duas vezes, conseguindo também fazer do seu filho, Renan Filho (MDB), um importante agente político local.
Ex-prefeito de Murici e ex-governador de Alagoas, Renan Filho deixou o Ministério dos Transportes no primeiro semestre deste ano para concorrer novamente ao executivo estadual, em uma estratégia que visa fortalecer a candidatura do seu pai a um novo mandato ao Senado.

JHC enfrenta Renan Filho com apoio de Lira
A disputa eleitoral em Alagoas repete, em parte, a rivalidade histórica entre as famílias Calheiros e Lira.
Ex-presidente da Câmara dos Deputados e filho do ex-senador Benedito de Lira, Arthur Lira enfrenta diretamente Renan Calheiros, seu algoz de décadas, na corrida por uma das duas vagas ao Senado.
Lira se aliou a João Henrique Caldas, o JHC (PSDB), ex-prefeito de Maceió e candidato ao governo de Alagoas contra Renan Filho com a promessa de acabar com o domínio político do clã.
Apesar do discurso, JHC também tem construído seu grupo político tendo a família como pilar. Sua mãe, Eudócia Caldas, antes suplente no Senado, acabou sendo efetivada na cadeira após uma manobra coordenada pelo próprio político.
Além disso, JHC emplacou sua esposa, Marina Antunes, conhecida como Marina JHC, como candidata ao Senado na sua chapa, junto com Arthur Lira.

A aliança entre os Caldas e os Liras coloca nas urnas, no dia 4, a expectativa sobre qual das três famílias sairá maior e menor de Alagoas. A última AtlasIntel estadual, do início de setembro, mostra um cenário apertado, mas com possibilidade de vitória de JHC ainda no primeiro turno.
Campos Arraes e Lyra disputam hegemonia em Pernambuco
Nascido em solo cearense, mas criado politicamente em Pernambuco, Miguel Arraes (m.2005) se tornou uma das grandes referências do socialismo brasileiro no século XX.
Governador de Pernambuco, o político foi derrubado do cargo com o golpe de 1964, ao se colocar como uma das lideranças da resistência. Ao voltar do exílio, no final dos anos 1970, se reorganizando politicamente e retornando ao governo em 1987 e em 1995.

Derrotado na sua tentativa de um quarto mandato, em 1998, Miguel Arraes deixou raízes a partir dos netos, Eduardo Campos (m.2014) e Marília Arraes (PDT), os mais destacados dentro da política estadual.
Eduardo seguiu os passos do avô, se tornando governador por dois mandatos, mas morreu durante a campanha presidencial de 2014, na condição de candidato ao Planalto. Seu filho mais velho, João Campos (PSB), ficou responsável pela manutenção do legado, enquanto Marília, sua prima, passou a atuar como uma segunda força da família.
João e Marília se enfrentaram nas urnas em 2020, na eleição para a prefeitura de Recife, sendo o filho de Eduardo o candidato eleito na ocasião. Após um mandato e meio à frente da gestão municipal, o prefeito deixou o posto para tentar chegar ao posto mais alto do executivo estadual, repetindo os passos do pai.
Marília Arraes, outrora adversária, reconstruiu os laços de família com o primo, compondo uma aliança com João na disputa pelo governo de Pernambuco, sendo lançada ao Senado na chapa de oposição.

A adversária de João Campos é a governadora Raquel Lyra (PSD), candidata à reeleição. Apesar de fazer parte de uma família menos poderosa no tabuleiro pernambucano, a gestora, ex-prefeita de Caruaru, também vem de uma ‘forte árvore genealógica’ do estado.
Raquel é filha de João Lyra Neto, tradicional político pernambucano e governador do estado em 2014, a partir da renúncia de Eduardo Campos, e ex-prefeita de Caruaru, cargo que ela deixou em 2022 para tentar, com sucesso, conquistar o ‘Palácio do Campos das Princesas’.

A última pesquisa AtlasIntel para governador de Pernambuco mostra que Raquel e João ainda enfrentam um cenário de incertezas, com a governadora liderando numericamente com 48.6%, contra 47.4% do ex-prefeito de Recife.
Família Brandão se une ao clã Sarney no Maranhão
Carlos Brandão (MDB), atual governador do Maranhão, chegou ao mais alto cargo do estado com a renúncia de Flávio Dino, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2022. Na época, ele foi alçado por seu grupo político como ‘candidato natural’ à reeleição do mandato tampão, vencendo ainda no primeiro turno.
Contrariando as orientações do grupo, liderado pelo presidente Lula (PT), Brandão, que vem de uma família já tradicional do estado, resolveu expandir a influência do seu clã ao lançar a candidatura de seu sobrinho, o ex-secretário Orleans Brandão.

Parte do seu projeto passa pela aliança com a família Sarney, que historicamente dominou o Maranhão, tendo no ex-presidente José Sarney, hoje com 96 anos, o patriarca.
A deputada federal e ex-governadora Roseana Sarney, filha do ex-presidente, é a candidata ao Senado que consolida a aliança entre as duas famílias no estado. A expectativa é de que os dois blocos possam triunfar nas eleições do próximo domingo, 4.

Família Ferreira Gomes fica dividida no Ceará
A família Ferreira Gomes vive um cenário diferente dos demais estados, com uma divisão entre os irmãos. Candidato ao governo, Ciro Gomes (PSDB) voltou ao seu reduto eleitoral após as recentes tentativas fracassadas de chegar ao Palácio do Planalto, em 2018 e 2022.
Antes líder do grupo político que hoje governa o estado na figura de Elmano de Freitas (PT), Ciro se afastou dos antigos aliados em 2022, após um impasse local sobre a sucessão estadual, deixando para trás até mesmo o seu irmão, o senador Cid Gomes.

Cid não apoia a candidatura de Ciro, compondo a chapa de Elmano. Os dois evitam falar sobre o afastamento pessoal e político, embora sejam frequentemente questionados acerca do assunto.
Derrotas podem enfraquecer famílias políticas?
Na avaliação do cientista político João Vilas Boas, uma derrota nas urnas este ano não significa o fim do domínio de uma determinada família. Segundo o analista, a “capacidade de recuperação” dos grupos está ligada ao tamanho da rede de influência que fica após o pleito.
“Uma derrota pode enfraquecer um grupo, mas não significa necessariamente o fim de uma família política. O que determina sua capacidade de recuperação é o tamanho da rede que permanece depois da eleição: prefeitos, vereadores, deputados, alianças, estrutura partidária e, principalmente, a capacidade de formar uma nova geração de lideranças. Na política, perder uma eleição pode ser apenas um recuo”, explicou Vilas Boas.
A dificuldade de renovação dos quadros, no entanto, pode enfraquecer os clãs, cenário que é visto como distante pelo analista, segundo avaliação feita para o A TARDE Destaque.
“O declínio mais profundo acontece quando o grupo perde a capacidade de renovar seus quadros e de transformar o capital político de uma geração em força eleitoral para a seguinte, o que é algo difícil de acontecer dentro desses clãs”, pontuou.
O primeiro turno das eleições ocorre no próximo domingo, 4 de outubro. Em cenário de segundo turno, o novo pleito ocorrerá no dia 25 do mesmo mês.