como equilibrar união e identidade própria?

Nascer em dupla é carregar, desde o primeiro sopro de vida, a experiência de dividir tempo, espaço e até o olhar dos outros. Ser gêmeo é uma vivência singular. É crescer lado a lado, muitas vezes escolhendo caminhos em conjunto de forma muito natural, enquanto busca meios de cultivar suas próprias individualidades – algo importante sobretudo na infância, apontam especialistas. Em setembro, essa reflexão ganha força cultural e espiritual.

Entre os carurus dedicados aos ibejis nas religiões de matriz africana e as procissões em homenagem a Cosme e Damião na tradição católica, o nascimento em dupla é exaltado como símbolo de união. Nesse encontro entre a tradição e a urgência contemporânea de reconhecer cada criança como única, surge o desafio de educar gêmeos não como reflexos, mas como universos distintos que se completam.

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“Estimular a individualidade desde cedo é muito importante. Ser gêmeo é uma característica importante da história daquela criança, mas não deve ser toda a sua identidade. Estamos falando de duas pessoas diferentes, com temperamentos, necessidades, interesses e formas próprias de se relacionar com o mundo”, explica a psicóloga clínica e docente da Wyden, Tarcya Rayanne dos Santos Lima.

O objetivo não é separar os gêmeos para que desenvolvam individualidade, afirma a psicóloga, “mas ajudá-los a compreender que podem ser profundamente ligados sem precisarem ser iguais”, pois o vínculo entre gêmeos pode ser uma experiência muito rica para o desenvolvimento emocional.

“Desde muito cedo, existe a presença de alguém com quem se compartilham fases da vida, experiências familiares e, muitas vezes, afetividade. Ao mesmo tempo, é importante que esse vínculo não se transforme em uma relação na qual um irmão tenha dificuldade de existir emocionalmente sem o outro. A proximidade não precisa ser rompida para que exista autonomia”, explica Tarcya Rayanne.

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Identidades próprias

Mãe da Jhudi e da Analu (gêmeas de 9 anos), a dentista Larissa Ramos Barreto Macedo conta que as tentativas dela e do marido em individualizar as filhas começou já quando elas eram bem pequenas.

“Principalmente porque sempre ouvi que era importante que elas fossem estimuladas a construir suas próprias identidades. Uma das coisas que fizemos, por exemplo, foi evitar vesti-las com roupas iguais. Nesse sentido, acho que conseguimos. Elas têm seus próprios jeitinhos e muitos gostos diferentes, embora as pessoas ainda as generalizem. Elas, inclusive, não gostam de se vestir iguais. Elas estudam na mesma sala, mas participam de equipes diferentes, têm estratégias diferentes, gostam de comidas diferentes e têm amigas ‘preferidas’ diferentes”, conta.

Há ainda um exemplo bem recente: há algumas semanas, uma quis cortar o cabelo bem curtinho, enquanto a outra quis apenas aparar as pontinhas.

“Mas, como toda mãe, às vezes também surge aquela dúvida, ou até uma certa culpa: será que fiz certo? Elas são duas pessoas diferentes, mas será que, ao estimular tanto essa individualidade, eu também não acabei afastando um pouco aquela cumplicidade tão característica dos gêmeos, aproximando-as mais da cumplicidade que existe entre irmãos fraternos? Se é que existe essa diferença…”, reflete Larissa.

A família de Larissa é católica e as meninas fazem catequese na Paróquia Santo Amaro de Ipitanga, onde, em setembro, uma das atividades é representar os santos Cosme e Damião – celebrados no dia 26 pela tradição católica.

“É uma das missões da gincana e elas até poderiam participar, mas vão ter demandas da escola no dia”, conta a mãe. A devoção aos santos gêmeos, porém, vai além da prática comunitária e se conecta à própria história deles. O pesquisador e professor de história Murilo Mello explica que Cosme e Damião nasceram no Oriente, entre os séculos I e III, e se converteram ao cristianismo em um período em que ainda eram poucos os seguidores da nova fé.

Reconhecidos por praticar a medicina sem cobrar pela cura, conquistaram prestígio e poder, tornando-se símbolos de generosidade e fé. “Aqui no Brasil, Cosme e Damião chegam pela tradição cristã, mas logo se associam aos ibejis, filhos-crianças de Xangô. Na Bahia, eles ganham uma popularidade enorme, onde o caruru tem uma força monumental. Isso mostra que o que legitima determinadas práticas culturais é o povo. É a aceitação e o abraço coletivo que fazem a tradição atravessar o tempo”, explica Murilo Mello.

Mudança geracional

A devoção a Cosme e Damião ainda existe no século XXI, mas vem diminuindo. “Hoje, os jovens já não dialogam tanto com essa festa, que se mantém mais viva entre pessoas de 40 ou 50 anos. Infelizmente, essa relação vem se modificando ao longo do tempo”, lamenta o professor. Mas se depender das gêmeas Adail Crispiniana dos Santos e Aidil Crispina dos Santos, de 75 anos, a devoção vai continuar firme e forte.

“Frequentamos a Paróquia Santos Cosme e Damião desde crianças. Os santos gêmeos são médicos e como eu trabalho na área de saúde, procuro imitá-los, sei o bem que eles fizeram e procuro fazer o bem também”, afirma Adail Crispiniana.

E sua irmã, Aidil Crispina, não é diferente. “Procuro ver tudo que São Cosme e São Damião representam e a fé deles, assim como tudo que eles fizeram como médicos e busco fazer o mesmo: sempre ajudar o próximo. Sou ministra na igreja, então, quando vou levar a comunhão aos doentes, procuro ajudar, dar carinho e estar presente, assim como São Cosme e Damião ajudavam”, afirma Aidil.

Vínculo no esporte

Amanda e Leandra fazem ginástica rítmica juntas
Amanda e Leandra fazem ginástica rítmica juntas – Foto: Shirley Stolze | Ag. TARDE

Mãe das gêmeas Amanda e Leandra (11) – que são ginastas Cagiba, projeto social gratuito oferecido pelo Governo do Estado da Bahia em parceria com a Superintendência dos Desportos do Estado da Bahia (Sudesb) e executado pela Federação Bahiana de Ginástica (FBG) –, Sueli Santos explica que quando as filhas eram pequenas ela até as vestia igual, mas agora elas mesmas escolhem.

“E muitas vezes optam por vestir igual e também gostam muito de fazer coisas juntas e estudam na mesma sala, mas sabem muito que não há problema algum em escolherem fazer coisas diferentes”, afirma a mãe. Leandra conta que adora fazer diferentes tipos de artesanato com a irmã, assim como dividir tudo o que for possível com ela.

“A melhor parte de ser gêmea para mim é saber que não preciso me preocupar quando estou com uma dificuldade nos treinos, porque ela vai estar ali”, afirma. Já a Amanda admite, risonha, que “adora confundir os outros” por elas serem idênticas. Orientadora educacional e psicopedagoga, Solange Argollo explica que trabalhar com crianças gêmeas é desafiador e enriquecedor.

Autonomia

“Enquanto escola, buscamos promover a autonomia, garantindo que ambos desenvolvam sua própria voz e liderança”, afirma Solange, que atua no Colégio Vitória-Régia. Há um empenho também da equipe escolar no sentido de reconhecer a identidade única de cada aluno.

“É essencial também individualizar o processo pedagógico para que ritmos de aprendizagem sejam acolhidos sem gerar sentimentos de inferioridade ou rivalidade. Buscamos também a parceria com a família para avaliar e definir alguns critérios, como a separação ou manutenção na mesma sala, priorizando a maturidade e o bem-estar afeto-emocional de cada um”.

Mãe de Maria Eduarda e Carlos Eduardo – gêmeos de 9 anos –, a bancária Geisa Lima conta que os dois estudam em salas diferentes desde os 7 anos e, este ano ainda passaram a estudar em turnos diferentes.

“Depois dessa mudança, o desenvolvimento pessoal e as relações interpessoais começaram a se desenvolver de forma mais individualizada. Mas acredito que o fato de serem um casal faz com que eu já receba uma ajuda bônus da “Mãe Natureza”. Biologicamente, eles têm demandas e desenvolvimentos diferentes, tanto físicos quanto intelectuais”, explica a matriarca.

Desde que os dois são bebês, ela sempre procurou proporcionar a ambos bens materiais e experiências semelhantes, mas sem transformar tudo em regra.

“Não existe receita de bolo e há momentos para tudo. Acho que uma das coisas que mais aprendi na maternidade de gemelares foi que, embora eles tenham chegado juntos ao mundo, cada um precisa ter o seu próprio espaço para existir. É muito fácil que as pessoas enxerguem os gêmeos como uma unidade, mas, para mim, sempre foi importante lembrar que antes de serem “os gêmeos”, eles são a Duda e o Dudu, cada um com sua própria forma de se relacionar com o mundo”, afirma Geisa Lima.

Cosme e Damião e os Ibejis são celebrados

A devoção aos Santos Cosme e Damião e o culto aos Ibejis revelam um dos mais marcantes exemplos de sincretismo religioso no Brasil. Mártires cristãos do século III, venerados pela Igreja Católica como símbolos de caridade, os irmãos gêmeos foram associados pelos povos africanos escravizados aos orixás crianças da tradição iorubá, guardiões da alegria e da vitalidade.

Mais que uma coincidência de datas, a união entre Cosme e Damião e os Ibejis traduz a resistência e a criatividade de um povo que construiu uma religiosidade plural, mestiça e profundamente brasileira.

“No século III, quando os santos viveram, era imprevisível, talvez até impossível, dentro daquela mentalidade militarista e imperialista, que dois jovens fossem chamados para estudar. Mas tudo parte do encontro pessoal que tiveram com Deus e da missão que Ele lhes confiou”, conta o padre Valter Ruy, da Paróquia dos Santos Cosme e Damião, explicando que a programação voltadas aos santos gêmeos acontecem durante boa parte de setembro, com a data oficial sendo o dia 26, e o momento mais festivo no dia 27.

“Aqui na paróquia, não há manifestações públicas ou particulares de matriz africana durante o ano; tudo se concentra no dia 27, quando as pessoas vêm pagar suas promessas, cada uma à sua maneira, com comidas e balas. Infelizmente, alguns aproveitadores acabam fazendo algazarra na porta da igreja, mas o espírito da festa é voltado para a conscientização dos paroquianos”, afirma.

Ressignificações

Pós-doutor em antropologia, professor associado da UFBA e Babalorixá da Casa do Rei e Senhor das Alturas – o Ilê Obá Bá L’Okê -, Vilson Caetano aponta que a relação entre os ibejis e os santos Cosme e Damião não foi apenas uma associação, mas uma transformação. “Os santos, que eram médicos e não crianças, celebrados no dia 26 de setembro, passaram por um processo de releitura no Brasil a partir das religiões de matriz africana. O culto aos ibejis foi tão forte que influenciou o culto católico a ponto de modificar até a iconografia, a representação da imagem dos santos”, explica.

O babalorixá aponta que o culto aos gêmeos reforça valores como alegria, proteção e fertilidade dentro da tradição africana. “O culto aos ibejis tem a ver com memória, com descendência, com fertilidade e tudo isso se conecta à alegria. É justamente por isso que gira em torno de comidas servidas com o obé, que chamamos de caruru, que vem acompanhado de outras iguarias africanas e pratos brasileiros. Os ibejis são celebrados a partir da alimentação, e o significado do caruru oferecido é justamente a homenagem aos ibejis e aos santos gêmeos”, explica Vilson Caetano.



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