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Corrida contra o tempo: Saiba como a vacinação ajuda a proteger gestantes e bebês prematuros

Gravidez é o sonho de muitas mulheres. Gerar uma criança por nove meses, acompanhar o desenvolvimento e esperar para tê-la nos braços fazem parte dessa expectativa. No entanto, nem sempre o bebê espera esse tempo para nascer, interferindo em etapas importantes do desenvolvimento e reduzindo o tempo para a transferência de anticorpos da mãe para o filho.

A cuidadora de idosos Lely Rodrigues, 37, moradora do bairro de Águas Claras, na periferia de Salvador, viveu essa realidade de perto. Ela não imaginava que teria uma filha prematura, pois, durante a gestação, o acompanhamento profissional indicava normalidade. A mudança aconteceu de forma repentina. “Segundo o médico, estava tudo normal. Ele disse que eu podia até jogar capoeira. Mas, um dia depois, fui para a maternidade com 10 centímetros de dilatação do colo do útero”. 

Antes do tempo

Elisa Lindhuê, nasceu em 27 de agosto de 2014, com apenas 250 gramas e 4,5 meses de gestação na maternidade Albert Sabin, em Fazenda Grande II, em Salvador. Dois dias depois, precisou ser transferida para a Maternidade Professor José Maria de Magalhães Netto, no bairro do Pau Miúdo, por contar com recursos adequados às necessidades da bebê. Lá, ela foi para uma semi-UTI e permaneceu internada por três meses em uma incubadora. 

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“Ela veio muito nova. As orelhas não eram formadas, as partes íntimas também não, só tinha uma pele bem fininha que cobria os órgãos. Então, não podia carregar ela. E a saída aconteceria quando ela tivesse, supostamente, sete meses na barriga”, lembra, ressaltando que foi orientada a restringir as visitas à filha. 

A experiência de Lely, porém, não foi um caso isolado. A garçonete Bianca Santos, 32, moradora de Fazenda Grande IV, em Cajazeiras, região de periferia, também viu a sua gestação mudar de forma inesperada para ter a sua filha antes do tempo. 

Aos seis meses, ela deu à luz a Eloah Pereira, filha única, que nasceu prematura e precisou de cuidados intensivos. A bebê ficou internada por 73 dias – desde quando nasceu, de 29 de dezembro de 2024 a 10 de março de 2025 – também na maternidade Albert Sabin.

Desafios da prematuridade

A gestação de Bianca ocorria tranquilamente e sem alterações nos exames, até o dia 26 de dezembro de 2024, quando a bolsa se rompeu. Ela foi internada de imediato e passou por uma série de cuidados. “Eu não sabia o perigo que era ter um filho prematuro, eu não sabia dos riscos que minha filha corria. Naquele momento, meu mundo desabou, pois era tudo muito incerto. O medo foi constante, porque eu não queria perder a criança”, recordou, emocionada.

Eloah chegou ao mundo com 28 semanas e 1,8 kg e, logo, precisou ser encaminhada para a incubadora. Nos primeiros dias, enfrentou dificuldades respiratórias, quedas frequentes de saturação e episódios de apneia, sendo necessário o uso de CPAP, aparelho não-invasivo que fornece fluxo de ar e oxigênio pelo nariz para ajudar o bebê a manter os pulmões abertos. 

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Ela também apresentou anemia em duas ocasiões e precisou de transfusão de sangue e cafeína, além de passar por exames e procedimentos, como o teste de triagem neonatal. Ainda, precisou fazer o Tandem, procedimento realizado a partir de uma coleta no calcanhar, que buscou investigar a possibilidade de alguma doença imunológica ou neurológica. Segundo Bianca, como ela e o pai são primos de primeiro grau, a equipe solicitou a investigação. “A maternidade toda se sensibilizou em fazer esse exame para mim, porque esse exame só se faz na rede particular, mas, graças a Deus, eu consegui pelo SUS”, lembrou. 

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O Brasil, vale destacar, está entre os países com maior número absoluto de nascimentos prematuros no mundo. De acordo com dados do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), foram registrados 193.281 nascimentos prematuros entre janeiro e setembro de 2025, reforçando a dimensão do problema, em que cerca de 11% a 12% dos nascimentos ocorrem antes de 37 semanas de gestação, percentual superior à média mundial – entre 9% e 10%.

Altos índices de prematuridade

A médica pediatra Naiara Jorge, que atua no hospital Martagão Gesteira, no bairro do Tororó, relaciona esse déficit às limitações de acesso ao sistema de saúde, especialmente entre populações periféricas. “Nós somos um país com muita vulnerabilidade socioeconômica, e eu trabalho em um hospital que atende públicos vulneráveis. Percebo que falta um planejamento familiar, pois conheço pessoas desnutridas, gerando bebês desnutridos; conheço casos de gravidez na adolescência, com mães com 12 e 13 anos; mas, essa população, muitas vezes, não tem condições de chegar no posto de saúde, pois enfrentam muitas nuances que não é só culpa materna, mas que considero culpa de um sistema”, criticou.

“Esses fatores favorecem o parto prematuro e o aborto. A grande maioria das mães chegam nas maternidades de referência sem terem feito o pré-natal ou qualquer outro acompanhamento. E não tem como eu falar: ‘Ah, é culpa da mãe não se vacinar’. Às vezes não tem um posto de saúde dentro da comunidade dela, ou quando tem, não tem vacina. E a mãe pode não ter R$ 20 para poder pegar um transporte e ir a outro local”, continuou.

Em meio aos desafios, Bianca afirma que tomou a vacina contra a gripe durante a gestação e que recebeu as vacinas indicadas no período, embora não se recorde de todas. Em documento enviado por ela após o nascimento, a imunização de Eloah incluiu a vacina contra a Hepatite B aplicada em 02/01, além do Palivizumabe, com a primeira dose em 05/02, a segunda dose em 05/03, além de outras vacinas solicitadas no calendário infantil.

“A gestação traz a necessidade de uma proteção completa e a vacina é a forma que a mãe tem de se proteger e proteger o bebê antes mesmo dele nascer, criando anticorpos que passam pelo cordão umbilical e protege-o de sintomas graves”, evidenciou a pediatra.

“Vacinas são muito importantes para que seu bebê continue seguro e venha nascer sem complicação”, alertou Lely, sobre o impacto no processo de recuperação da filha prematura.

Vacina como proteção

A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) recomenda, durante a gestação, as vacinas contra VSR, coqueluche, difteria e tétano (dTpa), influenza e Covid-19. Além disso, há contra hepatite B para gestantes não vacinadas ou com esquema incompleto. Outras podem ser indicadas conforme avaliação médica e o histórico vacinal da gestante.

A coordenadora de imunizações e vigilância epidemiológica das doenças imunopreveníveis do estado da Bahia, Vânia Rebouças, por sua vez, detalha: “A dTpa é recomendada a partir da 20ª semana e contribui especialmente para a proteção do recém-nascido contra a coqueluche, que pode ser muito grave nos primeiros meses de vida. Já a vacina contra o vírus sincicial respiratório, o VSR, é recomendada a partir da 28ª semana e ajuda a proteger o bebê contra bronquiolite, pneumonia e outras formas graves da infecção nos primeiros meses”.

Algumas vacinas, vale ressaltar, são contraindicadas durante a gravidez, como a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), varicela e dengue. A da febre amarela, porém, só deve ser tomada quando o risco de infecção superar o possível risco da vacinação. Os bebês prematuros devem seguir o calendário de vacinação de acordo com a idade cronológica, e não a idade corrigida, com atenção a imunizantes como hepatite B, poliomielite, rotavírus, pneumocócicas, meningocócicas e influenza. 

Um cuidado especial envolve o vírus sincicial respiratório (VSR). Para prematuros nascidos com menos de 37 semanas e com menos de 12 meses, a SBIm recomenda o nirsevimabe, um anticorpo monoclonal que oferece proteção passiva contra formas graves da doença. A indicação vale mesmo quando a mãe recebeu a vacina contra o VSR durante a gestação. 

A pediatra, Naiara, destaca, ainda, a importância do colostro, que é o primeiro leite produzido pela mãe após o nascimento, como uma importante fonte de proteção para o bebê prematuro. Segundo ela, o alimento é rico em anticorpos, especialmente a imunoglobulina A (IgA), além de glóbulos brancos, e contribui para a maturação do intestino da criança. “Ele tem proteção imunológica contra várias infecções e vírus, é rico em glóbulos brancos, tem muitos anticorpos, principalmente a IgA. Então passa tudo para o bebê”, explicou. 

Onde encontrar as vacinas?

Atualmente, a Bahia conta com quatro Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) presenciais: dois em Salvador, um em Ilhéus e um em Vitória da Conquista. Além disso, há polos de atendimento a distância em todas as macrorregiões. 

“Em qualquer um dos 417 municípios da Bahia, a população pode procurar uma sala de vacinação do SUS, dar entrada na solicitação e ter acesso ao imunobiológico especial conforme a indicação e o fluxo da rede”, afirmou Vânia. Também foram implantados Centros Intermediários de Imunobiológicos Especiais (CIIE) em maternidades e serviços estratégicos.

Em Salvador, as vacinas estão disponíveis na rede SUS. Nas periferias, as doses podem ser encontradas em unidades de saúde com sala de vacinação, conforme pontua a coordenadora. “A orientação é procurar a unidade mais próxima, levando a caderneta de vacinação para avaliação e atualização do esquema conforme o Calendário Nacional de Vacinação”, disse.

“Já os imunobiológicos especiais, quando indicados, seguem o fluxo da Rede de Imunobiológicos para Pessoas em Situações Clínicas Especiais (RIE), podendo ser ofertados em CRIEs, CIIE, maternidades habilitadas ou por meio da rede vinculada aos polos de atendimentos  ‘CRIE Virtual’ nas macrorregiões de saúde”, prosseguiu Vânia. 

Por fim, ela destaca: “Nossa estratégia é levar a proteção até onde a criança está. A prematuridade não deve ser uma barreira para a vacinação; ao contrário, é uma razão a mais para garantir proteção no momento oportuno, o mais próximo possível da família e sem perder oportunidades de cuidado”.

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