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Da periferia à Europa: conheça histórias de pessoas que atravessaram fronteiras através da arte e da educação

“Distant and inaccessible”. Essa era a definição que, historicamente, esteve associada à Europa. Para quem vive nas periferias brasileiras – locais marcados por desigualdades sociais e econômicas -, chegar ao continente era algo quase impossível. Aqui no Brasil, sobretudo, 16,4 milhões de pessoas vivem em áreas de favelas e comunidades urbanas, conforme aponta o censo mais atual do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda que não seja fácil chegar ao outro lado do mundo, há quem encontre na arte e na educação os caminhos para chegar até lá, mostrando que certos destinos também podem pertencê-las.

Um desses exemplos é Vinícius Vidal, 40, morador de Águas Claras, bairro de Salvador, na capital da Bahia, localizado na região Nordeste do Brasil. Para o baiano, o continente existia apenas nas histórias e no imaginário construído à distância. O grafite, porém, iniciado na adolescência, foi a porta de entrada para que ele chegasse até lá.

 

Europa pelo menino de Águas Claras

Quando garoto, ele estudou em escolas municipais e estaduais e, nessa fase, teve os primeiros contatos com os muros. “Iniciei na pichação. Não entendia exatamente o que era, mas achava interessante usufruir da cidade e poder passar uma mensagem”, disse. Depois, ampliou seus conhecimentos e contatos. “Expandir o meu leque de opções, de possibilidades, conhecendo mais artistas, fazendo mais arte e indo para outros bairros”, contou.

 

A arte crescia ao mesmo tempo em que Vidal conhecia a responsabilidade do trabalho. Desde jovem, ajudava o pai em um bar e trabalhou em uma oficina mecânica para contribuir em casa. Ao concluir o ensino médio, ingressou em Design Gráfico e, já formado, passou a participar de mutirões e festivais. Foi em 2011 que teve a sua primeira viagem para fora da Bahia. “Foi um divisor de águas na minha história. Conheci muita gente do grafite, passei a frequentar muitos lugares e a receber convite para ir a outros lugares”, contou. São Paulo, Curitiba, Recife e Goiás ‘prepararam o terreno’ para a Europa.

Em 2015, finalmente, um amigo lhe contou de um festival de grafite na Alemanha. Este, havia sido selecionado e Vidal foi acompanhá-lo. “Eu fiquei inspirado. Com medo do que poderia acontecer, claro, mas com muita vontade de ir”. A viagem mudaria sua percepção de mundo. “Eu via a Europa como algo muito distante, não geograficamente, mas muito distante da minha realidade”. Lá, o baiano acabou participando e pintando também. 

Arquivo pessoal / VLT Salvador

Em terras européias

A primeira viagem passou pela Alemanha e Paris, e prevaleceu o encantamento diante de um lugar que antes parecia inacessível. “Eu pensei: ‘Caramba, isso aqui é Paris, é primeiro mundo’”, recordou. Vidal voltou à Europa nos dois anos seguintes: na segunda viagem, retornou à Alemanha como convidado do mesmo festival e passou por Milão e Roma; na terceira, esteve novamente na Alemanha e seguiu para Portugal. A experiência deixou de ser apenas sobre surpresa e passou a significar oportunidade de compreender outras culturas.

Foi em Paris que essa passagem entre o ‘’imaginado’ e o ‘vivido’ ganhou uma de suas imagens mais marcantes: no Louvre. Ele já conhecia o museu pelas aulas de História da Arte, na faculdade. “Eu via pelos livros, pela telinha do projetor. Eu consumia a arte, vislumbrava o Renascimento e via muita coisa que achava interessante”, resumiu. Diante das obras, a memória da sala de aula foi evidente. “Tanto que eu mandei uma mensagem para o meu professor dizendo: ‘Eu estou aqui no Louvre, lembrando da nossa aula’”, destacou.

“Consegui ver de perto alguns quadros, algumas esculturas, entender a fundo e ver com olhar mais crítico, não somente as artes mais famosas, mas todo tipo de arte. E foi uma experiência doida, mas maravilhosa”, descreveu, se definindo não só como turista, mas como observador. 

Ainda em Paris, após visitar o Arco do Triunfo, Vidal e o amigo seguiram em direção à Torre Eiffel por ruas e becos. Ao virar uma esquina, tomou um susto. “A Torre estava a poucos metros de mim. Só que era muito grande, vista de muito perto. Então, foi como se aparecesse um monstro ali na minha frente, só que com uma beleza incrível”, recordou. “Para mim foi um baque: ‘Caramba, ela existe, e eu estou aqui. A gente se encontrou’”, lembrou. 

Na Alemanha, onde foi três vezes, Vidal também descobriu cidades para além dos cartões-postais. Berlim, por exemplo, lhe marcou pela relação entre a história e a arte urbana. “É uma cidade bem histórica, com muito grafite, com muita intervenção urbana, com muito protesto. E a gente presenciou alguns lá, com um pessoal antinazista e antifascista”, pontuou. 

Ele, ainda, criou sua própria forma de curtir a cidade. “Eu tenho um costume de, quando eu viajo para algum lugar, tirar as sandálias ou os sapatos e andar um pouco descalço para entender a energia e refletir um pouco”. O ritual o reconecta à própria história. “Eu sempre lembro da minha infância. Passa um filme pela minha cabeça de tudo que eu passei, do preconceito por conta do grafite, e que ainda passo. Me emociona quando falo”, recordou.

Se a arte levou Vidal a atravessar fronteiras, a educação fez algo semelhante com Sílvia Barbosa. Criada em diferentes territórios periféricos de Salvador, como Cajazeiras, Águas Claras e Tancredo Neves. e vinda de uma família que enfrentava dificuldade financeira, ela viu sua trajetória ganhar novos contornos em 2009, quando ingressou no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), que estava para se tornar um Instituto Federal.

Educação que transforma

Silvia enfrentava longos deslocamentos de ônibus para poder estudar e contou, até mesmo, com assistência estudantil para permanecer na instituição. A possibilidade de conhecer outros mundos ganhou força com o início no curso de Letras com Habilitação em Língua Espanhola e suas respectivas Literaturas na Universidade do Estado da Bahia (Uneb). “Durante a adolescência, a Europa parecia muito distante da minha realidade. Foi principalmente por meio da formação em Letras, da língua espanhola e da inserção na pesquisa que a possibilidade da experiência internacional começou a fazer sentido”, descreveu.

ARQUIVO PESSOAL / Manu Dias/GOVBA

A oportunidade surgiu em 2021, durante o mestrado. Sílvia participou de um intercâmbio acadêmico, científico e cultural na Universidade da Madeira, em Portugal, em parceria com o Instituto Federal da Bahia (IFBA). “O mais marcante foi perceber que estar em outro país poderia ser também uma experiência de formação e produção científica, não apenas turismo”.

Em 2024, ela retornou a Portugal para participar do IX Simpósio Mundial de Estudos de Língua Portuguesa. Dessa vez, para apresentar o avanço de sua pesquisa de doutorado. “Retornar como pesquisadora e apresentar uma pesquisa desenvolvida na Unb (Universidade de Brasília) teve um significado muito forte. Eu estava levando comigo uma parte da ciência produzida no Brasil e colocando esse conhecimento em diálogo com uma comunidade científica internacional”, descreveu. “Foi quando ficou ainda mais claro que eu não queria apenas consumir conhecimento produzido fora, mas também contribuir para que o conhecimento produzido no Brasil circulasse internacionalmente”, acrescentou. 

Entre o nacional e o internacional

A trajetória acadêmica continuava avançando. Sílvia foi professora substituta e depois efetiva de um Instituto Federal; fez especialização e mestrado e hoje é professora efetiva do Instituto Federal Goiano e doutoranda em Linguística pela UnB. Nesse caminho, as políticas de fomento à pesquisa também tiveram papel importante, visto que, Silvia foi bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) no Brasil e, atualmente, do Programa de Doutorado-Sanduíche no Exterior (PDSE).

As experiências também mudaram a forma como ela enxerga os próprios caminhos e os próprios espaços. “A principal mudança foi perceber que eu poderia ocupar espaços que, em algum momento da minha vida, pareciam muito distantes”. A trajetória, segundo ela, não pode ser compreendida apenas como uma história individual de superação, pois “houve professores, instituições públicas, assistência estudantil, bolsas, universidades e políticas de fomento que abriram caminhos”. Ao olhar para o percurso já construído, ela resume: “Eu fui fazendo o caminho, ao caminhar. E hoje percebo que cada oportunidade foi ampliando aquilo que eu conseguia imaginar para minha própria trajetória”, ressaltou. 

Sua experiência ganhará novos contornos em breve, com a Espanha como próximo destino. Silvia foi selecionada durante o doutorado para realizar um estágio de doutorado-sanduíche no país, pelo PDSE/CAPES. “Internacionalizar não é apenas buscar conhecimento fora. É também fazer com que a ciência produzida no Brasil atravesse fronteiras”, enalteceu. 

Hoje, professora e pesquisadora, ela entende que a educação pode fazer mais do que garantir um diploma. “Pode desenvolver autonomia intelectual, ampliar repertórios, ensinar a fazer perguntas, pesquisar, produzir conhecimento e imaginar outros caminhos. A leitura, o estudo e a pesquisa ampliam aquilo que conseguimos imaginar”, recomendou.

Uma Europa mais acessível

A possibilidade de chegar à Europa também passa pelas condições concretas de acesso à viagem. Na Bahia, a ampliação das conexões aéreas e a oferta de diferentes formas de pagamento são apontadas como fatores que podem reduzir as distâncias.

“O povo baiano é um povo especial, com características únicas por conta da miscigenação de negros africanos, de povos originários, mas também de brancos europeus. E estamos ligados aos três principais hubs aéreo da Europa, que são de Lisboa, Madri e Paris. Então, um sonho que muitas vezes parecia inacessível e distante, tem conseguido cada vez mais baianos, pois quanto mais voos a gente oferece, mais aumenta a concorrência, gerando reflexo no custo das viagens e facilitando acessos”, celebrou o secretário de Turismo da Bahia, Maurício Bacelar. 

A tentativa de ampliar esse acesso chega às periferias, com estratégias voltadas à facilitação na hora do pagamento. “A gente tenta alcançar pessoas da periferia por meio da facilidade de divisão de tarifas. Por exemplo, é possível comprar passagens e parcelar em 12 ou 24 meses, e isso vai possibilitar a viagem com mais tranquilidade. E sempre vamos aos colégios, dando cursos e mostrando o pode se encontrar na Europa, mostrando ao povo que eles podem e merecem viajar e, a partir disso, enriquecerem culturalmente”, disse o vice-presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens da Bahia (ABAV-BA), Jean Paul Gonze.

As origens de Vidal e Sílvia se assemelham às de pessoas em diferentes periferias do país. Segundo o Censo 2022, há 12.348 favelas e comunidades urbanas em 656 municípios brasileiros. A Bahia, onde viveram, reúne 636 desses territórios, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco. Por outro lado, cresce o fluxo de brasileiros indo a Europa: no primeiro semestre de 2025, as idas aos destinos europeus monitorados pela European Travel Commission aumentaram, em média, 23,6% ante mesmo período do ano anterior.

Vidal já não enxerga as barreiras territoriais da mesma forma. “O grafite me fez perceber que não existe fronteira nesse cenário. Existem lugares geograficamente distantes, sim, e que são muito distantes da minha realidade, sim. Mas, eu fiz muita amizade e, às vezes, quando eu falo que eu vou lá na Itália visitar um amigo ou participar de um festival, na minha mente é como se eu estivesse indo para um lugar muito próximo. Dentro da minha cidade, talvez. Ou uma cidade dentro do meu estado”, explicou. 

“A gente precisa ter propósitos, sonhos, objetivos e metas. Se a Europa for um sonho ou uma meta, coloca isso dentro da realidade, independente das dificuldades. Eu vim de dificuldades, mas eu fui com propósito, objetivo e ousadia”, reforçou.

Ao olhar para a própria história, Sílvia prefere não reduzi-la à imagem de uma menina da periferia que chegou à Europa. “Penso que foi uma trajetória construída pela educação pública brasileira e pelas pessoas e instituições que tornaram possíveis essas oportunidades”.

“A Europa ainda está geograficamente distante do lugar de onde eu vim, mas já não está distante daquilo que consigo imaginar como possível. E chegar a outros lugares não significa deixar para trás de onde eu vim. Ao contrário: eu carrego essa trajetória comigo e procuro devolver à sociedade parte daquilo que recebi, formando também outros filhos da classe trabalhadora”, concluiu ela, orgulhosa da história em que trilhou. 

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