‘Corrida dos Bichos’, filme que estreou nesta sexta-feira, 7, no Prime Video, apresenta ao público um futuro distópico, no qual o Rio de Janeiro vive em ruínas e se tornou palco de uma disputa mortal inspirada no jogo do bicho, que evoluiu para uma competição entre corredores com cada um representando um animal.
O longa funciona como uma alegoria assustadora do presente e propõe discussões pertinentes a respeito da desigualdade social e de gênero, espetacularização da violência, entre outros. Os paralelos entre o Brasil do filme e o da vida real foram alguns dos pontos abordados pela equipe da produção em entrevista exclusiva ao Cineinsite A TARDE.
“É assustador”, exclamou Bruno Gagliasso, que interpreta o vilão Leon, um dos Jogadores que controlam os Bichos e tem ambição de fazer parte da Cúpula, o grupo da elite que toma as decisões sobre as competições.
“O meu personagem é fruto dessa distopia onde poder, dinheiro e controle são a bússola moral dele e de uma sociedade. É assustador pensar que a gente está em um futuro próximo”, disse o ator.

João Guilherme integra o elenco dando vida a Jonas, um personagem que tem o desejo de mudar de vida através da corrida, que dentro da história funciona como uma possibilidade de ascensão.
“Ver essa dinâmica do entretenimento e do limite do entretenimento, que é pauta o tempo todo, é muito interessante. Qual o limite do entretenimento? Aquela elite do filme sente prazer na exploração e na dinâmica de poder. O meu personagem é uma vítima e é muito triste. Tem muita coisa próxima da realidade. É um filme que faz as pessoas pensarem”, afirmou.
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Ser mulher em Corrida dos Bichos é ainda mais difícil
A ambiciosa Nadine, vivida por Isis Valverde, é uma das personagens que têm a trajetória mais interessante dentro do filme. Ela consegue ascender naquele mundo, mas paga um preço alto por isso, sofrendo abusos e, no fim, ajudando a perpetuar o sistema que fez dela uma vítima.
A atriz contou que o mais interessante da história de Nadine é que ela não é uma personagem fácil de ler. “Ela faz escolhas que, muitas vezes, nascem da necessidade de sobreviver em um ambiente extremamente violento e desigual. Quando alguém passa tanto tempo sendo submetido a relações de poder e abuso, essas marcas acabam influenciando a forma como essa pessoa enxerga o mundo e as oportunidades que aparecem”, comentou.
Infelizmente, isso dialoga muito com a nossa realidade. Quantas vezes vemos pessoas reproduzindo estruturas que um dia também as machucaram? Não porque sejam más, mas porque esse sistema acaba naturalizando determinadas violências e fazendo parecer que esse é o único caminho possível para conquistar espaço. Isis Valverde – atriz

“Alegoria do presente”
Fernando Meirelles (‘Cidade de Deus’), Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento (‘Sobre Amanhã’) são os diretores do longa. Solis foi o responsável pelo conceito e tinha a visão geral, Pesavento comandou as sequências de ação e Meirelles dirigiu as cenas mais focadas no drama.
Ao Cineinsite A TARDE, Ernesto, que também é roteirista, disse que quando criou a história há quase 20 anos “não queria fazer uma previsão do futuro, queria fazer uma alegoria do nosso presente. Mas não imaginei que faria uma alegoria tão do presente 20 anos depois”.
A história funciona hoje mais do que há 20 anos. Acho que para a gente que mora no Brasil o Brasil é um país assustador, mas não só o Brasil, o mundo todo está vivendo uma distopia que a gente não previa. Fernando Meirelles – diretor
Meirelles, que revelou ser “muito pessimista”, complementou a fala do colega, “a nossa civilização está altamente ameaçada. Esse filme não fala diretamente sobre isso, mas também fala. Fala de uma sociedade que se desmonta e vira uma outra coisa que não sabemos o que vai ser”.

Divisão de trabalhos
Os diretores também abordaram como foi o trabalho em trio. No novo filme do Prime, é perceptível que existe um fio condutor guiando as decisões da equipe, seja na ação — filmada de maneira que o público entende a geografia das cenas e fica impressionado com o trabalho impecável dos dublês — ou nos momentos mais intimistas e de interação entre os personagens.
“Foi muito bom ter três diretores, porque é um projeto muito grande. A gente teve um tempo pequeno de preparação e um tempo muito pequeno para filmar. Enquanto um estava filmando, o outro podia estar preparando o dia seguinte. Se não fossem três diretores, talvez a gente não conseguisse ter cumprido o cronograma”, contou Meirelles.
Rodrigo Pesavento adicionou: “Eu estava muito focado na ação, que era quase que uma equipe à parte de dublês, corredores e atletas. Mas ação e drama andam juntos. Por isso, sempre o Fernando e o Ernesto estavam no meu set, e eu estava no set deles”.

Continuação com Salvador como cenário?
Ernesto Solis também falou sobre a possibilidade de acontecer ‘Corrida dos Bichos 2’ com cenas gravadas em Salvador. Segundo ele, ainda tem muita história para contar.
“Vontade a gente tem. Depende muito da performance desse primeiro filme. Mas tem muita história ainda para ser contada. E eu tenho muita vontade de filmar em Salvador, porque eu amo Salvador, eu tenho uma paixão. Quem sabe a gente vai ter uns Bichos correndo por Salvador?”, finalizou.
Assista ao trailer de Corrida dos Bichos: