Torcida Organizada? Vade retro

A violência recente voltou a colocar o problema no centro do futebol brasileiro: no dia 23 de agosto de 2026, um integrante da Bamor, torcida organizada do Bahia, morreu após agressões atribuídas, segundo as investigações iniciais, a envolvidos ligados à rivalidade entre organizadas; seis pessoas foram presas.

Outra morte parece estar ligada ao mesmo problema, em investigação policial. Poucos dias antes, o Ministério Público da Bahia havia aberto procedimento para apurar outro episódio violento envolvendo integrantes da Bamor e um membro dos Imbatíveis, organizada do Vitória.

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Há uma pergunta que deveria ser feita em voz alta, sem medo de desagradar ninguém: para que servem as torcidas organizadas? Não, não estou perguntando para que serve o torcedor apaixonado. Esse serve ao futebol. Esse, sim, é o torcedor de verdade.

A pergunta é outra: para que servem estruturas como a Bamor e Imbatíveis quando, repetidamente, seus nomes aparecem no noticiário policial, em inquéritos, prisões, apreensões de facas, explosivos e confrontos que transformam uma partida de futebol numa operação de guerra?

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Antes disso, em janeiro, um integrante dos Imbatíveis foi cercado e brutalmente agredido, segundo investigação posteriormente levada ao Ministério Público, por mais de 15 pessoas apontadas como integrantes da Bamor.

Houve golpes, faca, soco-inglês e até a apreensão de um artefato explosivo artesanal. O MP-BA considerou necessário abrir procedimento para apurar a reincidência e verificar se medidas anteriores haviam sido suficientes.

E então voltamos à pergunta: para que servem? Para cantar? Uma torcida comum canta. Para fazer festa? Uma família inteira pode fazer festa. Para colorir arquibancadas? Não é preciso organizar grupos que, em determinados momentos, exigem escolta policial, separação de rotas e planejamento especial de segurança para evitar que adversários se encontrem nas ruas. Para apoiar o clube? Que clube ganha quando um jogo de futebol termina em hospital, delegacia ou cemitério?

É aí que a conta não fecha. O Flamengo não ganha, nem o Palmeiras, o Atlético Mineiro, o Confiança, o Remo, o Bahia, o Vasco ou o Vitória. O futebol não ganha. O comércio ao redor dos estádios não ganha. A Polícia Militar não ganha. E, principalmente, não ganha o cidadão comum, vítima inocente. Quem ganha? Essa talvez seja a pergunta mais incômoda de todas.

Porque manter uma estrutura organizada custa dinheiro. Há camisas, sedes, caravanas, festas, contribuições, transporte, dirigentes e uma máquina de mobilização.

Como funciona exatamente esse universo? Quem administra os recursos? De onde vem o dinheiro? Quem se beneficia economicamente e politicamente do poder de mobilizar milhares de pessoas sob uma mesma bandeira?

Não basta dizer que se trata apenas de amor ao clube. Amor ao clube não deveria exigir armas, emboscadas ou territórios inimigos.

Uma pesquisa acadêmica da UNEB – Universidade Estadual da Bahia –, dedicada justamente à Bamor e aos Imbatíveis, reconhece que as duas organizações são frequentemente associadas a delitos e concluiu que as respostas adotadas pelo Estado não têm sido suficientes para impedir novos episódios de violência.

Basta chegar um clássico de alto risco para que a sociedade tenha de mobilizar policiais, inteligência, patrulhamento e operações especiais contra gente que, teoricamente, saiu de casa apenas para assistir a um jogo de futebol.

E os clubes? Os clubes deveriam fazer outra pergunta: por que temos medo dessas torcidas? Porque, muitas vezes, parece haver uma relação de dependência. Os dirigentes precisam da festa, dos cânticos, das bandeiras, da pressão organizada, dos votos. O dirigente não compra uma briga.

Se dirigentes se calam porque temem retaliações ou porque estão levando vantagens, talvez seja hora de acabar com o modelo das torcidas organizadas como o conhecemos. Quem quiser torcer, que torça. Quem quiser cantar, que cante. Quem quiser fazer festa, que faça. Mas quem quiser transformar futebol em caça ao adversário, que seja tratado como criminoso — e não como torcedor. Para que, afinal, servem as fatídicas organizadas?

*Jolivaldo Freitas é Romancista e jornalista. Autor de “Cemitério de Cães Noturnos”



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