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Taxistas denunciam esquema de falsificação de documentos em Salvador

O portal A TARDE recebeu uma denúncia que aponta a existência de um esquema de falsificação de documentos envolvendo o taxista e despachante João Carlos Candeias Adorno, hoje, pré-candidato ao cargo de deputado estadual (partido ainda não confirmado).

De acordo com relatos, o esquema consistiria na emissão de documentos falsos relacionados à arrecadação e às transferências de alvarás, e já teria causado prejuízos superiores a R$ 100 mil e afetado dezenas de taxistas.

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Algumas denúncias mencionaram a possibilidade de envolvimento de pessoas com acesso interno a determinados setores administrativos da Coordenação de Táxis e Transportes Especiais (Cotae), órgão subordinado à Secretaria Municipal de Mobilidade de Salvador (Semob).

Segundo a denúncia, as fraudes já estariam acontecendo há alguns anos, mas, só vieram à tona, em junho de 2024. O A TARDE teve conhecimento deste fato em setembro de 2025 e, desde então, vem colhendo informações.

Em conversa com a reportagem, no ano passado, um dos taxistas, que preferiu não se identificar, revelou que, à época, pelo menos, 20 alvarás já haviam sido cassados em razão das irregularidades.

Ainda conforme ele, muitas das vítimas registraram queixa formal contra João Adorno nas 1ª e 6ª Delegacias Territoriais, localizadas nos bairros de Barris e Brotas, respectivamente.

“Só na 1ª Delegacia dos Barris, são 39 queixas. Os taxistas estão fazendo denúncia individual, mas a Semob já fez uma queixa coletiva”, explicou o homem.

Taxistas relatam prejuízos e boletos falsos

“Ele me deu o DUT [Documento Único de Transferência]. O dinheiro que eu paguei era para quitar as taxas da prefeitura e o DUT no Detran. Quando apresentei a documentação na prefeitura, me disseram que o DUT era falso. Foi por isso que meu alvará foi cassado”, relatou um taxista de prenome Rafael.

De acordo com ele, o prejuízo foi de R$ 40 mil, com a compra do alvará e a contratação do serviço de transferência de titularidade do documento.

No último dia 3, Rafael agrediu João Adorno e os dois foram conduzidos à 1ª DT/ Barris. Questionado sobre essa situação, ele revelou que, desde 2025, vem tentando encontrar uma solução para esse problema, mas que Adorno tem lhe enganado.

“Ele ainda fica me dizendo para comprar um carro 2021, que vai conseguir me cadastrar e arrumar outro alvará. Só que, quando vou à prefeitura, eles dizem que não posso porque meu nome está bloqueado por causa desse problema”, contou o rapaz, afirmando que recebeu de Adorno R$ 14 mil como parte do pagamento do prejuízo.

“Meu pai e meus tios são taxistas. Era um sonho meu entrar na profissão. Não é nem pelo dinheiro, porque dinheiro a gente trabalha e recupera. O problema é que agora não pode mais comprar alvará e eu não consigo um novo porque meu nome está sujo”, lamentou.

Em entrevista ao A TARDE, em setembro, o taxista Bruno Araújo, que está na profissão há 17 anos, revelou que também foi vítima do suposto esquema.

Ele afirmou ter pago R$ 1 mil a João Adorno de entrada para dar andamento à regularização de seu alvará. “Esse dinheiro foi para documentações e o serviço dele de despachante”, afirmou.

Bruno relatou ter recebido um boleto no valor de R$ 2.944,66. Mas, ao tentar efetuar o pagamento, descobriu que o documento não era aceito nem em lotérica, nem no Banco do Brasil.

E, diante da dificuldade, procurou João Adorno, que se ofereceu para realizar o pagamento.

“Eu peguei [o boleto], transferi o valor, mandei o comprovante. Ele informou que tinha pago. Fiquei tranquilo. Depois de um mês e meio, a prefeitura me liga pedindo que eu comparecesse lá para verificar uma suposta irregularidade. Foi daí que eu fiquei sabendo que ele estava enviando boletos falsos”, contou o rapaz.

Bruno revelou ainda que todo o procedimento foi realizado por um estagiário da COTAE, de prenome Carlos, e que, inclusive, pegou o boleto diretamente com ele.

“Quando me apresentei à Cotae, o funcionário informou que aquele boleto era falso. Não só eu, são dezenas de taxistas nessa mesma situação. O meu foi o DAM [Documento de Arrecadação Municipal], que estava com pagamento falso”, lembrou o rapaz, ao informar ter procurado a 6ª DT/Brotas para registrar ocorrência.

Outro taxista, Lucas Gabriel, de 30 anos, também afirmou ter sido enganado por Adorno. “Conhecemos o Adorno, que é o citado que fraudou para fazer a documentação. E aí, no final de tudo, ele nos deu um documento que a gente foi apresentar no Detran e aí foi constatado que o documento do veículo era falso”.

Lucas contou que prestou queixa no dia seguinte à descoberta, na 1ª DT/ Barris. “Foi 7 de agosto [2025] que foi constatado o documento falso. Quando a gente chegou lá, já tinha mais de 30 ocorrências dele”, explicou o rapaz.

Conforme Lucas, Adorno ainda tentou reparar os danos. “Ele acabou pedindo desculpa. Botou um advogado à disposição da gente. Só que a gente não quis. A gente estava correndo risco. Estava rodando com o carro com o documento adulterado. O risco de a gente ser preso com aquele documento foi iminente”, relembrou.

Para Lucas, o impacto da situação vai além do prejuízo financeiro. Ele revelou que ao adquirir o alvará tinha a intenção de trabalhar com o sogro

“Meu sogro já tinha 20 anos na praça. Está aqui arrasado, triste, sem comer, sem dormir. Pegou uma depressão. Porque você tem 20 anos trabalhando com aquilo e não poder exercer o que você mais gosta… É uma situação complicada”, avaliou o rapaz.

João Adorno nega esquema

Procurado pela reportagem, João Adorno negou a existência de qualquer esquema e atribuiu as denúncias a perseguição política.

“Existe uma questão política aí entre eu e Denis [Paim – Presidente da Associação Geral dos Taxistas] há muitos anos. E aí, volta e meia, quando se aproxima as eleições, ele procura um jeito, uma forma de denegrir a minha imagem [sic]”, afirmou.

“O meu principal opositor político está por trás dessa situação. “Ele está por trás de tudo isso. Tem um grupo criado para insuflar pessoas contra mim. Eu tenho prints, tenho provas”, reafirmou João Adorno ao acusar Denis Paim, que também é pré-candidato ao cargo de deputado, mas no âmbito federal.

Ainda conforme Adorno, seu ‘oponente´ é quem deveria estar sendo investigado por falsificação.

“O meu opositor, em 2022, ressuscitou um morto para assinar um documento de transferência veicular. Esse processo acabou levando à cassação do alvará e existe um julgamento sobre esse caso”, contou o homem, ao se defender das acusações.

Ainda em sua defesa, João Adorno disse que, assim como os outros taxistas, ele também foi vítima do golpe.

“Eu também fui vítima de uma situação. As pessoas me pagaram, eu repassei o serviço para uma terceira pessoa e, infelizmente, ela não fez o trabalho da maneira correta. Quem acabou assumindo o prejuízo fui eu”, defendeu-se ele.

Denis Paim rebate

O presidente da Associação Geral dos Taxistas (AGT), Denis Paim, negou veementemente as acusações feitas por Adorno e se disse à disposição das autoridades para esclarecer os fatos.

“Existem muitas pessoas que dizem ter sido prejudicadas por ele. Eu tenho boletins de ocorrência, áudios e relatos dessas pessoas. O meu papel é orientá-las a procurar a Justiça. Continuo defendendo a categoria e ajudando quem me procura. Não tenho nada pessoal contra ele”, afirmou.

Sobre as acusações relacionadas a perseguição e agressão, Denis foi direto: “eu não mandei ninguém agredir Adorno. O que aconteceu foi uma reação de pessoas que estão revoltadas com os prejuízos que dizem ter sofrido. Eu não tenho controle sobre as atitudes de terceiros”.

Já com relação a acusação de ter falsificado um documento, ele disse: “Em 2021 ou 2022, comprei um alvará de uma viúva. Um despachante me entregou uma documentação falsa, e eu não sabia. Fui ao cartório e autentiquei os documentos acreditando que eram verdadeiros. Depois a situação foi esclarecida e resolvida. Hoje meu alvará está regularizado e continuo trabalhando normalmente”.

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A Semob

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Mobilidade (Semob) se pronunciou por meio de nota e disse que suspendeu os processos com indícios de irregularidades, comunicou os autorizatários, acionou a autoridade policial e instaurou processos administrativos para apuração dos fatos, assegurando o direito de defesa.

Nota na íntegra

A Secretaria de Mobilidade (Semob) informa que realizou a suspensão imediata da tramitação dos processos com indícios de irregularidade, comunicando formalmente os autorizatários, além de registrar as ocorrências junto à autoridade policial, com total colaboração às investigações.

Também foram instaurados processos administrativos disciplinares para apuração rigorosa dos fatos, assegurando o contraditório e a ampla defesa dos envolvidos.

A Semob reforça a orientação para que os taxistas evitem recorrer a intermediários e busquem diretamente a COTAE para tratar de qualquer demanda relacionada ao SETAX, em conformidade com a legislação vigente.

Por fim, a Secretaria reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência e a integridade dos serviços públicos, adotando todas as medidas necessárias para resguardar o interesse público e a regularidade dos processos administrativos relacionados ao SETAX.

A Polícia Civil

Em setembro, quando foi procurada, a Polícia Civil afirmou que, oficialmente, na ocasião, existiam apenas nove procedimentos contra o João Adorno.

Na época, o delegado William Acham era o titular da 1ª Delegacia Territorial dos Barris. Em conversa com o A TARDE, ele esclareceu que apenas um dos registros estava sob responsabilidade da 1ª DT/ Barris.

“No PPE [Procedimentos Policiais Eletrônicos], são nove registros contra ele [João Adorno], sendo sete na 6ª [DT/Brotas] e dois na 1ª [DT/ Barris]. Um [registro] ocorreu em Brotas e não sabemos por que mandaram para cá. Outro está em andamento, sendo o acusado interrogado em agosto e o procedimento presidido pelo delegado Gabriel. Então fica 8×1″, afirmou.

Atualmente, a titular da 1ª DT é a delegada Maritta Souza. A reportagem entrou em contato com ela, mas, até a publicação dessa matéria, não havia tido retorno.

Também no segundo semestre de 2025, o delegado Marcelo Tannus, à época, titular da 6ª Delegacia Territorial de Brotas, concedeu entrevista e confirmou a existência de registros relacionados às investigações sobre fraudes envolvendo a falsificação de documentos.

Ele revelou que as vítimas já haviam sido chamadas para serem ouvidas e que os trabalhos de investigação estavam se iniciando.

“Sim, existem registros. As vítimas foram chamadas a comparecer para serem ouvidas. Está iniciando os trabalhos de investigação para posteriormente intimarmos o autor”, explicou Tannus, ao detalhar que, até aquele momento, cinco vítimas tinham comparecido à unidade policial para registrar ocorrência.

Estava previsto o comparecimento de Adorno para ser ouvido na 1ª DT, no dia 1º de outubro do ano passado.

O A TARDE entrou em contato com o delegado Sérgio Schlang, atual titular da 6ª Delegacia de Brotas, e aguarda posicionamento sobre o andamento das investigações.



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