O cansaço crônico e o “piloto automático” ganharam um adversário de peso no Brasil. O psicólogo, professor e palestrante baiano Lucas Freire acaba de firmar uma parceria histórica com o National Institute for Play (NIFPlay), instituição norte-americana que lidera as pesquisas globais sobre a importância do lúdico.
Com o movimento, Freire se tornou o primeiro profissional brasileiro formalmente associado à entidade fundada pelo Dr. Stuart Brown, pioneiro no estudo de como o “brincar” molda o cérebro humano.
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A trajetória de Lucas com o tema começou como uma busca pessoal por cura. “Eu trabalho com educação corporativa, entendendo a relação das pessoas com o mundo do trabalho. Eu comecei a estudar esse tema lá por volta de 2008, quando trabalhava no polo de Camaçari. E comecei a estudar o que a gente podia fazer, os campos que existiam e podiam nos ajudar a evitar a arma do espírito do trabalho”, revela o psicólogo, em entrevista ao portal A TARDE.
A Ciência do Play: além do brincar infantil
Embora a palavra play seja frequentemente traduzida como brincar ou jogar, a ciência por trás do termo é muito mais profunda e abrange todas as fases da vida. Para Lucas, o termo mais próximo da nossa língua seria a “ciência do lúdico”.
“A ciência do play, na verdade, é um campo amplo, porque aglutina isso tudo. O Stuart Brown já entendia isso desde o começo do trabalho dele, que o play não está só do brincar. Tem um sentido muito importante no nosso desenvolvimento ao longo de toda a vida, pro bem-estar, pra ressignificar o estresse”, explica.
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Segundo o especialista, o conceito engloba artes, esportes e contemplação, tudo o que descomprime o indivíduo. “Todo tipo de arte também tem aspecto lúdico porque, muitas vezes, na nossa cultura a gente tende a colocar o lúdico uma categoria não produtiva ou específica, mas a ficha do play se aproxima do que a gente tem como lúdico”, pontua.
Do Lego à biblioteca da Dinamarca
A especialização de Lucas passou pelo uso de metodologias como o Lego Serious Play e mergulhos teóricos profundos. Um dos momentos cruciais ocorreu na sede da LEGO, na Dinamarca.
“Encontrei uma livraria, na verdade, uma biblioteca dentro de uma sala da sede da LEGO na Dinamarca. Uma estante com vários livros e tinha um livro que era o que foi o primeiro livro do estúdio que eu devorei, que é chamado como Play Revigorar. É o que devolve, molda o cérebro, abre a imaginação e revigora a alma”, relembra.
Essa base teórica fundamenta o que Lucas chama de “psicologia do florescimento“, focada em encontrar caminhos que não respondam apenas à lógica produtivista.
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“Stuart Brown tem um papel muito importante no meu entendimento do que é uma psicologia do florescimento. Uma psicologia que que trabalha com impedimento do que nos leva a fazer coisas que não necessariamente estão respondendo a esse mundo produtivo o tempo todo”, afirma.
Impacto real: “Não é terapia, mas é terapêutico”
O trabalho de Freire, que já conta com três livros publicados, incluindo o recente “Exaustos: encontrando saídas pro cansaço diário”, tem transformado vidas. Ele relata receber feedbacks constantes de pessoas que abandonaram o modo automático após lerem suas obras.
“Me tocam muito pessoas que se permitiram descobrir coisas novas, se permitiram olhar pra aquilo, pra suas crianças interiores e dar um pouco mais ouvidos a elas e vão explorar vidas, vão descobrir caminhos”, conta Lucas.
Ele cita o exemplo de um leitor que começou a tocar bateria aos 40 anos. “Ele falou, ‘pô velho não é terapia, mas é terapêutico’. E é isso, é isso. A gente vai às vezes fazendo pouquinho em pouquinho tendo esses feedbacks de ajudar as pessoas a se reconectar com aquilo que regenera”.
Expansão e a Escola do Play
Com a chancela do NIFPlay, os próximos passos incluem o lançamento da Escola do Play no próximo semestre e a expansão para áreas onde o debate sobre saúde mental ainda é incipiente, como o futebol profissional.
“A gente está com um projeto também de expandir do universo corporativo pra alguns universos que precisam debater mais esse tema como, por exemplo, universo de esportes pois a gente está começando a trabalhar com times de futebol que são os lugares que esses assuntos ainda são muito pobres”, antecipa.
Mesmo com a expansão, o psicólogo mantém o rigor ético como prioridade. “A gente tem que tomar muito cuidado quando a gente tratar de saúde mental de saúde mental é um campo amplo, sensível. A gente não pode se tornar alguém que vai exacerbar uma condição a gente tem que tomar cuidado pra provocar uma melhora e não um inverso”.