O cientista político Jairo Nicolau, especialista em sistemas eleitorais, resume um padrão que já observou em eleições municipais e gerais pelo país: voto branco e nulo, diz ele, são sinal de descontentamento. Já a abstenção “não necessariamente” reflete desinteresse ou protesto, porque envolve idoso e analfabeto com voto facultativo, gente sem dinheiro para o ônibus até a seção e cadastro desatualizado.
É essa distinção que ajuda a ler o que está em jogo na Bahia, que começou nesta semana as convenções que vão oficializar as candidaturas ao governo do estado. ACM Neto lança a sua em 22 de julho, Jerônimo Rodrigues confirma a dele em 1º de agosto, repetindo o duelo de 2022.
O TSE confirmou 158.745.463 brasileiros aptos a votar em 4 de outubro, 1,46% a mais que em 2022. Na Bahia são 11.321.005 eleitores, o quarto maior colégio eleitoral do país, atrás de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, embora o crescimento local, de apenas 29.477 eleitores em quatro anos, tenha ficado bem abaixo da média nacional.
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Branco e nulo contam a primeira história do nosso recorte, porque exigem que o eleitor compareça e escolha não escolher. Os números também variam: 14,26% de nulos e 3,84% de brancos em 2018; já no segundo turno de 2022, caíram para 4,05% (351.010 votos) e 1,27% (109.759 votos).
A queda tem explicação estrutural, não é só efeito de menos protesto. Em 2018, o primeiro turno teve campo maior de candidatos; em 2022, o segundo turno chegou como duelo polarizado, que naturalmente concentra o voto em dois nomes.
Para 2026, essas duas forças jogam em direções opostas. A entrada de Ronaldo Mansur (PSOL) e de outros nomes tende a puxar nulo e branco para cima, como em 2018. Mas boa parte das pesquisas aponta um cenário outra vez polarizado entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto, com chance real de decisão já no primeiro turno, o que puxa na direção contrária.
Qual efeito vai prevalecer é uma incógnita. E é justamente essa incerteza que reforça o argumento: nenhuma campanha deveria dar esse eleitor como garantido, para cima ou para baixo.
Os 460.769 votos anulados no segundo turno de 2022 representam praticamente o tamanho da margem de vitória de Jerônimo Rodrigues naquele turno. A comparação vale para um cenário de dois turnos: se a disputa se decidir já em outubro, a conta muda, mas o comportamento desse eleitor segue relevante. Ainda assim, essas pessoas se deslocaram até a seção, enfrentaram fila, e escolheram não escolher.
As pesquisas mais recentes ajudam a testar essa hipótese. Na Genial/Quaest de abril, na simulação de segundo turno, ACM Neto tinha 41% e Jerônimo Rodrigues 38%, enquanto os indecisos somavam 12% e o branco/nulo/não vai votar, 9%. Na Paraná Pesquisas de julho, com ACM Neto em 49,2% e Jerônimo em 37,5%, os indecisos caíram para 4,5% e o branco/nulo/nenhum subiu para 6,9%.
Nem todo indeciso é igual. Uma parte pode ser capturada por qualquer uma das duas campanhas até outubro, é o eleitor que ainda avalia propostas e trajetórias. Outra parte, em proporção que nenhuma pesquisa isola com precisão, tende a ser o mesmo perfil que hoje aparece como branco, nulo ou fora da urna: quem não se convence de que um nome é melhor que o outro tende a expressar isso anulando o voto, votando em branco ou nem comparecendo, por protesto ou por falta de opção.
A oscilação entre institutos importa menos como previsão e mais como sintoma. Hoje, somando indeciso e branco/nulo, entre 11% e 22% do eleitorado baiano ainda não está fechado com nenhum dos dois nomes, a depender da pesquisa. Ninguém sabe quanto desse grupo vai virar voto de campanha e quanto vai engrossar abstenção, branco ou nulo, mas é exatamente essa fronteira que separa vencer de perder, como em 2022.
A abstenção conta outra história: é o retrato mais estável da eleição baiana, girando sempre em torno de um quinto do eleitorado. Ficou em 20,76% em 2018, 21,35% no primeiro turno de 2022 e 20,39% no segundo. Boa parte dela nem depende de campanha, já que soma idoso e adolescente com voto facultativo, eleitor fora do domicílio e gente sem condução até a seção.
Ainda assim, no segundo turno de 2022, essa fatia representou cerca de 2,3 milhões de baianos aptos, quase cinco vezes os 473.441 votos que separaram Jerônimo Rodrigues de ACM Neto. Não é um número que se mobiliza com discurso de campanha, mas é grande demais para ser ignorado numa corrida apertada.
É aí que mora o desafio real das campanhas que se organizam nesta semana: construir estratégia para cativar, motivar e mobilizar o eleitor indeciso e pragmático. Sobretudo aquele descrente da política, ou cético de que qualquer um dos lados vá mudar muita coisa.
Resta saber se, entre as convenções desta semana e o dia 4 de outubro, alguma das campanhas vai conseguir a adesão de parte do eleitorado que hoje prefere não escolher. Se tiver êxito, essa pode ser a diferença entre vencer e perder o governo da Bahia.