Dirigir por aplicativo tem exigido jornadas cada vez mais longas para quem depende da atividade como principal fonte de renda. Um levantamento da GigU, em parceria com a Jangada Consultoria de Comunicação, revela que apenas 7,2% dos motoristas conseguem atingir suas metas diárias dentro da jornada de trabalho que consideram ideal.
Entre os entrevistados, 44,8% afirmam que precisam trabalhar além do tempo desejado sempre que buscam alcançar seus objetivos financeiros, enquanto 24,8% dizem enfrentar essa situação na maior parte das semanas.
A realidade retratada pela pesquisa se reflete na rotina de motoristas em Salvador. Há dez anos na profissão, Bruno Chagas, de 44 anos, afirma que hoje depende exclusivamente dos aplicativos para sustentar a família e viu a jornada aumentar ao longo dos anos.
“É minha principal fonte de renda. Já estou há 10 anos na profissão. Antes, uns cinco anos atrás, eu trabalhava oito horas. Hoje são 12 horas e, às vezes, não consigo bater a meta”, relata em entrevista ao portal A TARDE.
Custos elevados reduzem ganhos
Na avaliação do motorista, o principal problema não é apenas o preço dos combustíveis, mas o conjunto de despesas para manter o veículo em funcionamento.
“A margem de lucro da Uber é muito alta. O motorista entra com tudo: pacote de dados, celular, tempo, carro, manutenção, emplacamento, combustível, seguro, alimentação. A Uber só faz a ponte e fica com 45% de cada corrida do motorista, chegando às vezes até 50%, dependendo da corrida”, afirma.
Bruno explica que sua meta diária é faturar R$ 300. Desse total, cerca de R$ 100 são destinados apenas ao combustível. O restante precisa cobrir a parcela do veículo, seguro, manutenção, alimentação e demais despesas da casa.
Para ele, o custo mais alto da profissão nem sempre é percebido pelos passageiros.
“Eu costumo dizer que o combustível é barato, o caro é você dar manutenção no veículo. O carro é um instrumento de trabalho muito caro”, diz.

Impactos na saúde
Além da pressão financeira, a rotina extensa tem reflexos na saúde física e mental dos motoristas.
“Na saúde impacta muito. No ano de 2025 eu fiz três cirurgias de cálculo renal, pois não temos um local para urinar. Muitas vezes perdemos a urina para não perder uma corrida boa quando aparece, problema de coluna, fora a ansiedade. A qualidade de vida é zero. Convivência com a família é quase nenhuma. É bom dia e boa noite”, afirma.
Segundo Bruno, alguns colegas chegam a ultrapassar as 12 horas permitidas por uma plataforma utilizando outros aplicativos de transporte.
“Tem muitos colegas aí que não têm vida social, não têm família, não têm mais nada”, relata.
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Sindicato critica modelo
A presidente do Sindicato de Condutores Autônomos de Aplicativos da Bahia (Sincaap Bahia), Kátia Silene, afirma que o cenário se agravou nos últimos anos porque o valor mínimo das corridas não acompanhou o aumento dos custos da atividade.
Segundo ela, hoje a tarifa-base nas principais plataformas permanece abaixo de R$ 6, enquanto despesas como combustível e manutenção aumentaram significativamente. A dirigente também afirma que o grande número de motoristas cadastrados reduziu a renda média da categoria e obrigou muitos profissionais a ampliar a jornada de trabalho.
Para Kátia, a situação atual caracteriza um modelo de trabalho extremamente prejudicial aos profissionais.

“Hoje o motorista por aplicativo vive no escravismo moderno. As plataformas estão escravizando esse profissional, então ela só está visando lucro e esse profissional fica cada vez sendo mais lesado.O motorista que roda uma quantidade de tempo dessa, tantas horas trabalhada, vai trazer prejuízos absurdos, tanto para saúde física, mental, financeira”.
Regulamentação da atividade
Para a presidente do sindicato, a regulamentação da atividade é fundamental para garantir direitos à categoria.
“A regulamentação hoje é essencial para que a gente possa organizar essa categoria e não só a regulamentação municipal, principalmente a regulamentação federal, que não consegue se chegar a um acordo”, afirma.
A reportagem entrou em contato com a Uber e a 99, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.