Em outubro de 1977, um mar de gente enchia o auditório do Ibirapuera, em São Paulo, para assistir às sessões da primeira Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Idealizada por Leon Cakoff (morto em 2011), a Mostra passou a ser o refúgio de cinéfilos que buscavam se atualizar com os principais filmes do momento no mundo, em pleno regime ditatorial no país.
Agora, 50 anos depois, o evento comemora meio século de amor ao cinema e de difusão da cinefilia. Sob a direção geral de Renata de Almeida, companheira de Cakoff e produtora do evento desde a 13ª edição, em 1989, a Mostra oferece uma edição badalada, recheada de filmes inéditos, obras restauradas, convidados internacionais, rodadas de conversas e negociações, promovendo o encontro de cinéfilos com o mais pulsante da produção cinematográfica.
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“Conseguimos chegar aos 50 anos por conta do reconhecimento conquistado, tanto nacional como internacional. Estabelecemos nesse tempo todo uma relação de confiança com tantos parceiros, sejam produtores, diretores, patrocinadores, também com a imprensa, mas sobretudo com o público”, afirmou Renata em conversa com A TARDE.
O evento abriu, na noite de quarta-feira, 14, com a exibição de Tigre de Papel, novo filme do cineasta James Gray, exibido na competição do Festival de Cannes. A sessão foi iniciada com Sul de Teerã, curta-metragem dirigido por Kleber Mendonça Filho sobre o cineasta iraniano Jafar Panahi, que esteve presente na Mostra ano passado.
Gray e Mendonça Filho também estiveram presentes na sessão de abertura. O norte-americano participou ainda de uma conversa com o público ao lado de Walter Salles na noite de ontem. Além disso, o festival faz uma pequena retrospectiva de alguns de seus filmes anteriores.
“O Gray faz o melodrama clássico com assuntos muito atuais. Acho que tem muito de existencialismo no cinema dele, mesmo quando faz filmes de gênero. E esse é um cineasta para se ver na tela grande, e a gente queria destacar o bom cinema”, comemorou a diretora da Mostra.
Festa cinéfila
Também chamada de “monstra”, o evento paulista é conhecido pela abundância de oferta. Neste ano, serão exibidos pouco mais de 380 títulos, vindos de 93 países, além de destacar uma grande parcela da produção nacional.
Dos destaques internacionais, a Mostra apresenta filmes muito aguardados pelo público, como é o caso de Fjord, de Cristian Mungiu (Palma de Ouro no Festival de Cannes) e Mulher Desconhecida, da dinamarquesa May el-Toukhy (Leão de Ouro no Festival de Veneza).
Ambos estão cotados para o Oscar de Filme Estrangeiro, assim como Amor Possível, do sul-coreano Lee Chang-dong; A Terra do Meu Pai, do polonês Pawel Pawlikowski; e Minotauro, do cineasta russo radicado na França, Andrey Zvyagintsev. Do festival francês, também aparecem outras pérolas escondidas, como o filme francês do japonês Hyusûke Hamaguchi, O Sentido da Vida, ou a produção nigeriana Clarissa, da dupla Arie Esiri e Chuko Esiri.
Além de Gray, outros cineastas importantes estarão presentes durante o evento. O ítalo-chileno Marcho Bechis – que já filmou no Brasil o longa Terra Vermelha, de temática indígena – recebe o Prêmio Humanidades e apresenta seu novo filme, Retorno a Buenos Aires, da competição de Veneza.
Já o veterano produtor português Paulo Branco recebe o prêmio Leon Cakoff pela dedicação ao cinema, ele que produziu obras de grandes mestres, como Manoel de Oliveira, Wim Wenders, Raúl Ruiz e tantos outros diretores e filmes que ganham retrospectiva no evento.
O cinema nacional também ganha destaque dentro da programação. São mais de 100 títulos, que incluem também coproduções brasileiras com outros países. Alguns dos destaques são Feito Pipa, produção cearense de Allan Deberton, nosso represente para o próximo Oscar, e a produção mineira, financiada pela Netflix, Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins.
Formação
Este é o sexto ano que a Mostra promove o Encontro de Ideias Audiovisuais, espaço para aproximar realizadores, produtores e demais peças importantes da cadeia cinematográfica. Este ano, acontece entre os dias 20 e 23 de outubro, no Solar Fábio Prado.
“Tem sido um sucesso fazer o Encontro, tem dado muito certo. Nós vamos concentrar em quatro dias e vamos trazer gente de vários países para participar de mesas, debates e seminários. Este ano teremos o presidente de Aquisições da NEON, Jeff Deutchman”, revelou Renata.
A NEON é uma produtora e distribuidora norte-americana, responsável por levar O Agente Secreto ao Oscar, além de ter conduzido a distribuição de sete Palmas de Ouro dos últimos anos. A conversa com Deutchman abre o Encontro de Ideias que segue com uma série de atividades voltadas ao mercado audiovisual.
Uma delas é o Quase Lá, espaço dedicado a filmes em fase de finalização. O propósito é promover estratégias e caminhos para coproduções e viabilizar o término dessas obras para que elas ganhem o mundo. Entre os selecionados este ano, está a produção baiana Isso Aqui Não é uma Festa, do diretor Marcus Curvelo.
“Trata-se de um filme híbrido, entre documentário e ficção. Eu faço um personagem que perdeu o senso de nacionalidade, que esqueceu o que significa ser brasileiro, justamente no ano da comemoração do bicentenário da Independência, em 2022, e das eleições Lula-Bolsonaro. Eu parto pra rua e pergunto às pessoas o que eles acham que tinha de ser reconstruído no Brasil”, revelou o diretor, cujo filme está em processo de montagem.
A Mostra Internacional de São Paulo segue até o próximo dia 29 de outubro, exibindo e discutindo filmes, além de promover outras ações, como a 3ª Mostrinha, dedicada a formar o público infantil; o lançamento do livro de fotografias intitulado Antes que Eu Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças para os 50 Anos da Mostra, de autoria de Renata de Almeida; e a exposição Tempo em Movimento, assinada por Daniela Thomas e Felipe Tassara, sobre o cinquentenário do evento.
*O jornalista viajou a São Paulo a convite do evento