Mais de uma década após o lançamento do álbum Alma Lírica Brasileira, Mônica Salmaso segue encontrando novos caminhos para um espetáculo que nunca deixou de se transformar.
Sexta, 31, e sábado, 1º, às 20h, a cantora paulistana sobe ao palco da Estação Rubi, no Palacete Tirachapéu, com um concerto que parte do repertório do disco indicado ao Grammy Latino em 2011, mas incorpora novas leituras e homenagens construídas ao longo dos anos.
No palco, Mônica percorre diferentes momentos da música brasileira ao reunir obras que transitam entre o samba, a valsa e a canção popular. O repertório aproxima compositores como Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Paulo Vanzolini, Edu Lobo e Chico Buarque, desenhando um panorama em que referências populares e eruditas se encontram.
Ao lado do pianista Nelson Ayres e do multi-instrumentista Teco Cardoso, a cantora apresenta um concerto intimista que revisita clássicos do cancioneiro nacional, como Melodia Sentimental, Ciranda da Bailarina, Samba Erudito, Lábios que Beijei, Loucura Mortal e Derradeira Primavera.
“A gente nunca parou. Quem conhece esse trabalho vai ouvir coisas que não estão no disco, mas que seguem a felicidade que é o encontro desse trio, dessa forma de fazer música junto, da sonoridade de cada um e do encontro que acontece resultante dos três”, afirma a intérprete.
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Identidade própria
Embora tenha nascido a partir de um álbum, Mônica explica que o espetáculo ganhou identidade própria à medida que amadureceu nos palcos. Segundo ela, o trabalho deixou de ser apenas um projeto assinado por sua voz para se tornar resultado da convivência artística com Nelson Ayres e Teco Cardoso. A cantora afirma que hoje enxerga Alma Lírica Brasileira como uma criação coletiva.
“É um trabalho que eu assinei, mas fui entendendo como um trio. A linguagem que construímos é resultado dos três, e Alma Lírica Brasileira nasceu muito por conta desse repertório que passeia por diferentes lugares da música brasileira”, comenta Salmaso.
O repertório também cresceu com o tempo. Além das canções do disco original, o show passou a incorporar músicas apresentadas em projetos dedicados a artistas como Elis Regina, Vinicius de Moraes e, especialmente, Dorival Caymmi, compositor por quem a intérprete diz nutrir profunda admiração desde o início da sua formação musical.
Em Salvador, o público ainda conhecerá uma novidade: “Estamos preparando uma estreia: uma música da Sueli Costa gravada por Nana Caymmi. Também vamos levar as homenagens a Dorival Caymmi que temos feito nos últimos anos”, explica Mônica.
Bagagem musical
O espetáculo utiliza o nome Alma Lírica Brasileira justamente por propor um percurso por diferentes tradições da música nacional. No repertório, convivem Villa-Lobos, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Paulo Vanzolini e outros compositores que, na visão da artista, demonstram que as fronteiras entre música popular e erudita são muito mais fluidas do que costumam parecer.
Ela cita Dorival Caymmi como um exemplo desse encontro. “A música dele é muito trabalhada, levou anos para ser construída, mas soa como se sempre tivesse existido, de tão bem acabada”, afirma.
Na mesma direção, lembra que Villa-Lobos, um dos principais nomes da música erudita brasileira, tinha profundo interesse pelo choro, pelas cirandas e pelas manifestações populares, enquanto Tom Jobim, embora identificado com a música popular, buscava inspiração na obra de Villa-Lobos e de outros compositores eruditos.
Para a artista, essas aproximações mostram que as divisões entre os gêneros são mais conceituais do que artísticas. “Essas gavetas são meio imaginárias, servem só para catalogar. Para mim, não tem muito isso”.
É justamente nesse encontro que ela identifica a essência do espetáculo. “A alma lírica do Brasil seria esse lugar onde a melodia e a poesia encostam, numa música que é essencialmente popular, mas que também tem um coração erudito”, ressalta a artista.
Essa construção também passa pela parceria com Ayres e Cardoso. De acordo com a cantora, mais importante do que os instrumentos que cada um deles toca é a bagagem musical que carrega.
Ela explica que a identidade sonora do espetáculo nasce justamente da criação coletiva entre músicos com formações diversas, fazendo com que cada apresentação seja resultado desse encontro.
Reencontro com Salvador
Depois de passagens marcantes pela capital baiana, entre elas a turnê Que Tal Um Samba?, ao lado de Chico Buarque, e o espetáculo Minha Casa, Mônica retorna agora para conhecer um novo palco: o do Palacete Tirachapéu, sede da Estação Rubi.
A artista lembra com emoção da apresentação na Concha Acústica durante a despedida da turnê com Chico. Segundo ela, aquele momento foi tão intenso que não conseguiu conter as lágrimas em cena.
Também recorda com carinho o reencontro posterior com o público baiano em seu próprio espetáculo. “Salvador tem esse negócio, a Bahia…eu digo a Bahia porque veio gente de outras cidades para ver o show”.
“Vocês têm uma forma muito amorosa de receber as pessoas. Isso aparece em tudo, no trato, na forma como a gente conversa. É um jeito muito amoroso e orgulhoso de si, mas também muito acolhedor com quem vem de fora. Isso é tão bonito”, acrescenta.
Agora, a expectativa da cantora é conhecer o Palacete Tirachapéu, onde funciona a Estação Rubi. “Eu não conheço o Tirachapéu e já estou com muitas expectativas sobre esse lugar, porque já me falaram que é um lugar lindo. Estou muito animada para chegar aí, rever as pessoas que vão assistir ao show e conhecer esse teatro, esse lugar novo, esse lugar que tem esse nome lindo”.