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Memória, ausência e mergulho marcam romance de estreia de Esther Faingold

Para a medicina, apneia é um distúrbio comum caracterizado por paradas repetidas da respiração durante o sono, mas para a artista visual e poeta brasiliense Esther Faingold é um mergulho sem cilindro em que o silêncio adquire profundidade.

E foi justamente este nome que ela escolheu para título de seu romance de estreia, cujo lançamento acontece neste sábado, 13, às 11h, na Galeria Paulo Darzé (Corredor da Vitória), e vai contar com a participação da escritora Mariana Paiva e da psicanalista Malu Moraes em um bate-papo com a autora.

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Apneia (Cosac) é sobre uma mulher diagnosticada com depressão refratária e prestes a se submeter a um tratamento que pode lhe arrancar as lembranças. A partir desta questão, e através de uma narrativa fragmentada, a protagonista revisita a própria história com lucidez febril.

Esther acredita que falar em propósito da obra é domesticar o livro, pô-lo a serviço de algo. “Roland Barthes lembrava que a escrita tem o poder de dar corpo a uma sensação, de convertê-la em carne. James Baldwin, por sua vez, via na escrita um gesto de desafio: não se escreve apenas para explicar o mundo, mas para se recusar a desaparecer dele”.

Em Apneia, a narrativa não segue a ideia de confissão íntima como espetáculo ou um ato de coragem, mas opera como lâmina cirúrgica, de acordo com a autora.

“Não é tampouco um pedido de piedade. Não me interessa a questão factual – isto aconteceu? – e mais a pergunta: isto corta? Se a frase fere, se a imagem desloca, a escrita atingiu seu fim”, anota.

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Reordenar a alma

Enquanto aguarda o procedimento que poderá resetar sua mente, a personagem principal, que leva o nome da autora, decide escrever uma carta-testamento para a filha adolescente. O que nasce desse gesto é um desmonte da própria vida. “Sim, a narradora tem meu nome; não, ela não é meu reflexo”, esclarece Faingold.

“Ela é uma mãe, em Manhattan, cujo desabamento foi lento – acumulado ao longo de uma vida que contrariou ordens da família, da religião, das expectativas de gênero. A carta tenta transmitir memória sem transmitir veneno. Não é despedida nem perdão. Toda herança é também contágio, e a carta é o esforço de legar à única pessoa capaz de lembrar por ela”, complementa a autora.

Órfã de pai aos seis anos, criada no sul do Brasil por avós e por uma tia-avó, Esther carrega na carne séculos de traumas e travessias: Bessarábia, Líbano, Pampas, Israel, Estados Unidos.

“Ela não é vítima. É lúcida o bastante para conduzir, em vida, a própria autópsia – com a observação seca de quem anota o desmoronamento. Nessa frieza diante do desastre, há uma honestidade bastante singular de quem não tem mais nada a perder ou ocultar”, acrescenta Esther.

Imagem ilustrativa da imagem Memória, ausência e mergulho marcam romance de estreia de Esther Faingold
Foto: Divulgação

O que vai se revelando em Apneia, com o passar das páginas, são anos de adolescência vividos em um Brasil opressivo em que a terra prometida revela-se um pesadelo. O texto entrelaça passado e presente com o intuito de denotar uma trajetória marcada pela busca da emancipação.

Procurar uma única causa para justificar a depressão da narradora é buscar um réu que responda por tudo, encerrando a história com uma explicação simplista, segundo Faingold, que também é autora de Ethers (Cosac Naify, 2011).

“O livro recusa esse consolo. Aqui, a depressão tem genealogia: chega como herança. Um médico do romance resume: ela não tem depressão; a depressão a tem. Inverta o sujeito e o romance se abre”, resume a escritora.

“Simone Weil distingue o sofrimento que passa da aflição, que se instala e reordena a alma; é dessa aflição que falo. Talvez Salvador perceba isso sem recorrer à teoria: cidade de ritos, orixás e memória pública, onde os mortos permanecem presentes nas ruas, nas festas e nos nomes, continuando a moldar as escolhas dos vivos”, arremata.

Memória e exílio

Um dos objetivos da obra é contar a história da narradora para preservar seu passado de uma possível ameaça do esquecimento. A publicação é predefinida, na verdade, como um romance sobre maternidade, saúde mental e sexualidade feminina, mas também sobre arte e reinventar-se das cinzas.

Esther informa que Apneia é povoado sobretudo pelos mortos: o pai perdido cedo, a mãe ausente, os avós, a tia-avó, o amante e a vida fantasmal das bonecas antigas. E confessa que escreve para não desaparecer.

Ela admite ainda que sua arte quer despossuir: arrancar da boneca a lição de menina obediente e arrancar da memória a versão amaciada.

“Quer arrancar de mim a mulher que a família encomendou. Decapito bonecas com o mesmo gesto com que escrevo para desfazer o que fizeram de nós sem o nosso consentimento”, diz.

“Não separo escrita do meu trabalho como artista visual: são estados de uma mesma matéria, e Apneia é apenas o estado mais falante de um corpo de obra que já costuro, em silêncio, há mais de 20 anos. Se desejo algo, é o avesso da posse: despir-me do que me sobra”, arremata.

Por fim, Esther avisa que este romance submerge sem explicar e convida o leitor a descer junto, até onde a luz já não chega. “Há um fio que atravessa o livro: água, mergulho, diáspora. O gesto íntimo de prender o fôlego ecoa as grandes travessias do Atlântico – entre a boca que se fecha e o mar que conserva os seus mortos abre-se uma geografia feita de memória e exílio”.

Lançamento do livro apneia / 13 de junho / 11h / Galeria Paulo Darzé, Corredor da Vitória

Apneia / Esther Faingold / Editora Cosac / 144 páginas / R$ 81,00



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