Em entrevista ao portal LeoDias, o médico endocrinologista Dr. James Barbosa explicou os riscos do uso de insulina para fins estéticos em pessoas sem diabetes e os perigos da hipoglicemia
A morte do fisiculturista e influenciador fitness Gabriel Ganley, de 22 anos, segue cercada de dúvidas. O jovem foi encontrado sem vida no apartamento onde morava, na Mooca, Zona Leste de São Paulo. Uma mensagem de voz atribuída a um amigo próximo de Gabriel, que passou a circular nas redes sociais, levantou a hipótese de que o atleta teria sofrido um quadro de hipoglicemia após aplicar insulina na noite anterior à morte. Em entrevista ao portal LeoDias, o médico endocrinologista Dr. James Barbosa explicou os riscos do uso de insulina para fins estéticos em pessoas sem diabetes e os perigos da hipoglicemia.
“O Ganley aplicou insulina ontem à noite e ele começou a ter hipoglicemia e, nessa, ele dormiu. E não pode, tá ligado? Ele dormiu, não acordou mais. Bizarro”, diz o homem no áudio que viralizou nas redes sociais após a morte do influenciador.
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Gabriel GanleyFoto: Reprodução

Gabriel Ganley faleceu neste sábado (23/5), aos 22 anos.Reprodução/@ganleygabriel

Com mais de 2 milhões de seguidores, Gabriel Ganley era um dos nomes mais conhecidos no cenário de fisiculturismo nacional.Reprodução/@ @ganleygabriel

Gabriel GanleyFoto: Reprodução/Instagram @ganleygabriel

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Gabriel Ganley morreu neste sábado (23/5).Reprodução/@ganleygabriel

Insulina para fins estéticosFoto: Divulgação
Ao portal LeoDias, o médico especialista explicou que a insulina passou a ser utilizada no fisiculturismo por conta do forte potencial anabólico do hormônio.
“A fama da insulina no fisiculturismo vem do fato de ela ser um dos hormônios mais anabólicos (construtores de tecido) do corpo humano, superando até mesmo a testosterona em alguns aspectos metabólicos”, afirmou.
O endocrinologista explica que alguns atletas usam a substância para aumentar a entrada de nutrientes nas células musculares e acelerar o crescimento muscular.
“Alguns atletas a utilizam porque ela atua como um supercondutor de nutrientes. Ela maximiza a entrada de glicose e aminoácidos nas células musculares, o que acelera a síntese proteica, melhora a recuperação pós-treino e superpovoa os estoques de glicogênio (a energia guardada no músculo), dando aquele aspecto de músculo “cheio” e denso”, disse.
Apesar disso, o médico faz um alerta sobre os riscos extremos da prática.
“O grande problema é que esse ganho estético flerta diretamente com o risco de morte”, destacou.
O que acontece quando uma pessoa sem diabetes usa insulina?
De acordo com Dr. James Barbosa, o organismo de uma pessoa saudável possui um mecanismo natural de controle da glicose, que é rompido quando há aplicação de insulina sem necessidade médica.
“Quando alguém sem diabetes injeta insulina sintética, esse sistema é totalmente burlado. O corpo recebe uma ordem artificial e massiva para retirar a glicose de circulação”, explicou.
Segundo ele, como pessoas sem diabetes não possuem resistência natural ao hormônio, a retirada de açúcar do sangue acontece de forma extremamente rápida.
“Como não há uma resistência natural à insulina (comum em diabéticos tipo 2), as células limpam a glicose do sangue de forma extremamente rápida e violenta”, afirmou.
O endocrinologista acrescenta que o fígado tenta compensar a queda glicêmica, mas muitas vezes não consegue responder na mesma velocidade.
“O fígado tenta compensar ativando a glicogenólise (quebra do estoque de glicose) e a gliconeogênese (produção de nova glicose), mas a quantidade injetada geralmente supera a capacidade de resposta do fígado, jogando o corpo em um estado de colapso energético”, pontuou.
O que é hipoglicemia?
O médico explica que a hipoglicemia ocorre quando os níveis de açúcar no sangue ficam abaixo do normal e podem evoluir rapidamente para uma emergência médica.
“Clinicamente, a hipoglicemia em adultos é definida por níveis de glicose no sangue abaixo de 70 mg/dL, tornando-se grave abaixo de 54 mg/dL”, disse.
Segundo o endocrinologista, o cérebro depende continuamente da glicose para funcionar e não possui reserva própria de energia.
“O cérebro é um órgão metabolicamente caro: ele consome cerca de 20% da energia do corpo, mas não consegue armazenar glicose. Ele depende de um fluxo contínuo vindo do sangue”, explicou.
Ele alerta que a queda severa da glicose pode provocar danos irreversíveis em poucos minutos.
“Quando os níveis caem abaixo do limiar crítico, os neurônios começam a falhar por falta de ATP (energia celular). Se o quadro não for revertido rapidamente com glicose injetável, ocorre a morte de células cerebrais (necrose neuronal). O desfecho pode ser o coma prolongado ou a morte cerebral em questão de minutos”, afirmou.
Quais são os sintomas?
Segundo Dr. James Barbosa, os sintomas costumam evoluir em duas fases. A primeira é uma resposta do organismo tentando reagir à queda de glicose.
“Ocorrem quando o organismo percebe a queda e libera uma descarga de adrenalina e noradrenalina para tentar forçar o fígado a liberar açúcar”, explicou.
Entre os principais sinais estão suor frio, tremores, taquicardia, ansiedade súbita e fome intensa.
Na fase mais grave, o cérebro começa a sofrer diretamente os efeitos da falta de energia.
“Se a glicose continua caindo, a falta de energia afeta diretamente as funções corticais”, disse.
Nessa etapa, podem surgir visão embaçada, fala arrastada, confusão mental, desorientação, perda de coordenação motora, sonolência intensa e perda de consciência.
Hipoglicemia pode matar durante o sono?
O endocrinologista afirma que sim e cita um fenômeno conhecido informalmente na medicina como “Dead in Bed”, expressão traduzida como “Morto na Cama”.
“Quando o atleta aplica insulina (especialmente as de ação lenta ou intermediária) antes de dormir, ou erra o cálculo de carboidratos da última refeição, a hipoglicemia pode se desenvolver na madrugada”, explicou.
Segundo ele, durante o sono profundo, os sinais de alerta podem não ser suficientes para despertar a pessoa.
“Durante o sono profundo, os sintomas adrenérgicos de alerta (como a ansiedade e os tremores) muitas vezes não são fortes o suficiente para acordar o indivíduo”, afirmou.
O médico alerta que o quadro pode evoluir silenciosamente até um estágio fatal.
“A glicemia continua caindo silenciosamente até atingir níveis neuroglicopênicos críticos, desencadeando convulsões na cama, coma e parada cardíaca sem que a pessoa tenha a chance de reagir ou pedir ajuda”, concluiu.