Antes mesmo do nascer do sol sobre a Baía de Todos-os-Santos, o profissional de Relações
Públicas, Gustavo Oliveira, já está de pé. Com a roupa separada, a marmita pronta e a
mochila organizada na noite anterior, ele adianta os últimos afazeres pela manhã e sai de casa
antes das 6hrs, em direção ao Terminal de Bom Despacho, na Ilha de Itaparica, para iniciar a
travessia para Salvador, rotina que faz parte de seu dia a dia há anos.
Formado pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Gustavo trabalha no Tribunal
Regional Eleitoral (TRE-BA), localizado no Centro Administrativo da Bahia (CAB), em
Salvador. Para chegar ao local, ele depende de quatro meios de transporte: ferry-Boat, ônibus,
metrô e outro ônibus.
Ao final do expediente, o percurso é repetido no sentido contrário. O
deslocamento de ida e volta leva, em média, de duas horas a duas horas e meia cada,
podendo, assim, ultrapassar quatro horas, conforme o trânsito e a espera.
A rotina, no entanto, começou muito antes da carreira no serviço público. Gustavo utilizou o
sistema de transporte aquático para fazer a graduação, além de utilizar para acessar serviços
de saúde e demais compromissos na capital.
“O Ferry-Boat é o principal meio de transporte entre a Ilha de Itaparica e Salvador, quando se fala de transporte hidroviário na Bahia, sendo fundamental para quem vem do Baixo Sul da Bahia, atendendo cidades como Santo Antônio de Jesus, Nazaré e Valença, além de facilitar o acesso a destinos turísticos muito conhecidos, como Morro de São Paulo e Boipeba. Sem o Ferry-Boat, seria necessário fazer um grande
desvio pela BR-324, aumentando a viagem em cerca de três a quatro horas”, pontuou.
Outras rotas e rumos
Se para Gustavo, o Ferry-Boat continua sendo parte indispensável da rotina, para a
videomaker Caroline Santana o deslocamento diário acabou motivando uma mudança de
vida. Durante anos, a estudante teve acesso ao transporte para cursar Música na Escola de
Música da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), e também para fazer uso de
serviços de saúde, órgãos públicos, oportunidades de trabalho e opções de lazer.
“Só de viagem do ferry, é uma hora. E ainda eu tinha que sair sempre meia hora antes, ou
seja, no mínimo três horas de antecedência do compromisso que teria em Salvador para
chegar a tempo. Isso porque moro em Bom Despacho e o tempo só aumenta para quem vive
em outras localidades”, descreveu.
Ao perceber, no entanto, que os gastos com o transporte superavam o valor de um aluguel na
capital, ela decidiu se mudar para ficar mais próxima de onde estudava.
“Na ilha, as vagas de emprego são escassas, e quando você encontra, são muito mal remuneradas, com cargas
horárias excessivas e a desculpa de que lá não tem movimento”, criticou. “E quando tem
qualquer atividade de formação cultural e entretenimento, é complicado ir porque não tem
transporte público e o transporte de cooperativas é muito caro”, continuou.
Embora tenha optado por morar em Salvador, Carol considera o sistema Ferry-Boat como um
serviço essencial para quem vive na Ilha de Itaparica e depende da ligação com a capital. Na
avaliação dela, o sistema tem potencial para ser mais eficiente, principalmente com a oferta
de embarcações menores, destinadas ao transporte de passageiros e maior frequência de
viagens, reduzindo o tempo de espera e os custos enfrentados pelos usuários, sobretudo nos
períodos de maior movimento. O sistema, porém, não afeta apenas quem vive do lado da ilha.
Do outro lado da travessia
Saindo da capital, em direção à Ilha de Itaparica, o nutricionista Antônio Rafael Lima Santos
também organiza a rotina em função do Ferry-Boat. A cada dois dias, ele embarca no
primeiro horário da manhã para cumprir plantão no Hospital Geral de Itaparica.
“O meu tempo de deslocamento segue de acordo com os horários que eles (responsáveis pelo
ferry-boat) muitas vezes determinam, mediante as condições climáticas. Normalmente é uma
hora de travessia em dias normais. E caso não existisse esse serviço, possivelmente eu teria
que fazer por meio de estrada”, contou ele.
Para o profissional, o ferry-boat desempenha um papel essencial para quem depende da
ligação entre Salvador e a Ilha de Itaparica, especialmente para profissionais que realizam o
deslocamento frequente por motivos de trabalho. Apesar disso, ele avalia que o serviço ainda
pode evoluir para oferecer melhores condições aos usuários.
Sistema de ferry-boat
O primeiro serviço regular de ferry-boat conhecido no Brasil foi implantado em 1960, na
Baía de Guaratuba, no Paraná, ligando Guaratuba ao litoral do estado. A travessia foi criada
para resolver o isolamento da região, que antes dependia de caminhos terrestres precários ou
pequenas embarcações.
A primeira embarcação conseguiu transportar cerca de 12 veículos e
100 passageiros. Depois, outros sistemas importantes foram implantados.
Ao longo da década de 1960, outras travessias por balsas passaram a ganhar importância em
diferentes regiões, principalmente em áreas costeiras e fluviais onde a construção de pontes
ainda era inviável.
Esses serviços ajudaram a integrar comunidades, facilitar o transporte de
cargas e aproximar regiões separadas por rios, baías e canais. As balsas, vale ressaltar no
entanto, existem no Brasil desde o período colonial.
Na década seguinte, o modelo ganhou maior escala com a implantação de grandes sistemas,
como o Ferry-Boat Salvador–Ilha de Itaparica, na Bahia, inaugurado em 1970, e que passou a
transportar não apenas passageiros, mas também veículos, ônibus e caminhões, tornando-se
uma das principais ligações aquaviárias do país.
“Entender esse contexto é destacar os desafios que sempre envolveram a travessia entre
Salvador e Itaparica. Salvador sempre foi dependente da navegação. Por isso, os saveiros, os
barcos, os vapores e outras embarcações tiveram um papel fundamental. Havia, por exemplo,
o vapor que fazia a ligação entre Salvador e Cachoeira (cidade do Recôncavo Baiano). E o
surgimento do ferry-boat teve justamente o objetivo de dar mais dinamismo a esse fluxo entre
Salvador, a Ilha de Itaparica e as demais ilhas”, recordou o historiador Rafael Dantas.
Segundo ele, esse processo está inserido em um momento em que a cidade, juntamente com
seus caminhos turísticos e, principalmente, de conexão com Itaparica, buscava resolver um
problema histórico de mobilidade.
“Do ponto de vista da cultura e das tradições, a criação do
ferry-boat, somada às rodovias implantadas décadas antes, acabou contribuindo para o fim,
ou pelo menos para a redução, de uma importante tradição náutica da região, representada
pelos saveiros, barcos à vela e outras embarcações que realizavam essas travessias”, disse.
No Brasil, o serviço de ferry-boat está presente em diversos estados, principalmente em
regiões com rios, baías e ilhas que exigem travessias por embarcações. Os principais sistemas
estão em São Paulo, por meio do Aquático-SP, com travessias como Santos–Guarujá; no
Maranhão, com os ferries da Baía de São Marcos; além de estados da região amazônica,
como Pará, Amazonas, Amapá, Rondônia, Acre e Rio de Janeiro.
Na Bahia, o sistema conta com sete embarcações — Dorival Caymmi, Zumbi dos Palmares,
Maria Bethânia, Rio Paraguaçu, Pinheiro, Anna Nery e Ivete Sangalo. Diariamente, entre
cinco e sete ferries entram em operação, a depender da demanda e de operações especiais. O
serviço funciona de segunda a sábado, das 5h às 23h30, e aos domingos e feriados, das 6h às
23h30, garantindo a ligação entre Salvador e a Ilha de Itaparica, travessia que pode entrar em
uma nova fase com a construção da Ponte Salvador-Itaparica.
Ponte Salvador-Itaparica
Anunciada como a maior ponte da América Latina sobre lâmina d’água, a Ponte
Salvador-Itaparica promete transformar a mobilidade e a integração regional da Bahia. Ao
falar sobre o futuro da mobilidade na região, Gustavo vê a obra com otimismo. Na avaliação
dele, o resultado vai ampliar o acesso ao trabalho, à educação, aos serviços de saúde e
fortalecendo o desenvolvimento econômico do estado.
“Quando se fala nesse projeto, fala-se em uma obra que tende a trazer muitos benefícios. Um
deles é a redução do tempo de deslocamento, que leva cerca de uma hora. Com a ponte, esse
percurso poderá ser feito em aproximadamente 15 a 20 minutos, dependendo das condições
do trânsito. Isso representa um ganho significativo de tempo para quem faz o trajeto
diariamente”, comentou o servidor público.
Ele ressalta que a tendência é que haja um crescimento populacional ainda maior na Ilha de
Itaparica, um movimento que já vem acontecendo há alguns anos, com muitas pessoas que
trabalham em Salvador optando por morar em Itaparica em busca de uma melhor qualidade
de vida. Ainda, destacou que houve um aumento na construção de condomínios, loteamentos
e novos empreendimentos imobiliários, acompanhando essa demanda.
“E o serviço se mostra bastante necessário, principalmente nos períodos de alta estação, como
primavera, verão, final e início de ano, além do Carnaval, quando há um grande fluxo de
turistas baianos e de outros estados que visitam o litoral e o interior da Bahia”, apontou.
Já Rafael, o nutricionista, acredita que a obra deve facilitar o deslocamento, além de
impulsionar o desenvolvimento econômico da região. “A ponte irá contribuir na facilidade
em deslocamento e, consequentemente, irá despertar o olhar de investidores para a ilha, com
oportunidades de expansão de negócios”, afirmou.
Durante a cerimônia de cravação da primeira estaca e marco oficial do início das obras da
Ponte Salvador-Ilha de Itaparica, que aconteceu no início do mês de julho e contou com a
presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o secretário extraordinário do Sistema
Viário Oeste (Seponte), Mateus Dias, destacou o impacto econômico das obras para a Bahia.
“A ponte deve gerar entre seis e sete mil empregos diretos apenas durante a fase de
construção. Mas os impactos sobre a economia do Estado serão muito maiores,
principalmente nas regiões do Baixo Sul, do Recôncavo e na própria Ilha de Itaparica, que
deve se tornar um novo eixo de expansão urbana da Região Metropolitana de Salvador”,
pontuou. “Além disso, estimamos que cerca de 250 municípios terão redução no tempo de
deslocamento entre a Região Metropolitana de Salvador e o interior. Isso deve beneficiar
aproximadamente 10 milhões de pessoas”, concluiu.