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“Exaltar o 2 de Julho é exaltar o povo baiano”, diz professor e humorista Matheus Buente

Data maior da civilização baiana – quiçá da própria civilização brasileira –, o 2 de Julho, apesar de bastante celebrado por grandes nacos populares em todo o estado, ainda tem um longo caminho para ser devidamente reconhecido pelo todo da população. Humorista que é também professor de História, o soteropolitano Matheus Buente, como um aguerrido defensor da data, acredita que ainda há espaço para torna-la mais próxima dos baianos e dos brasileiros em geral – especialmente dos jovens e estudantes.

Um dos melhores “influencers” (com o perdão pela má palavra) da Bahia, Buente vem fazendo rir e pensar há mais de dez anos, tanto como humorista quanto como professor, na internet e fora dela, em seus shows de stand-up por todo o Brasil.

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Ao longo dessa década e pouca de atividade, ele vem se dedicando à divulgação da História da Bahia por meio da educação, do humor e da produção de conteúdo. Criador da série 2 de Julho, lançada em 2023 em parceria com o Grupo Metrópole, Buente utiliza uma linguagem acessível para aproximar diferentes públicos da história da Independência da Bahia e valorizar personagens que marcaram esse processo histórico.

Você defende que o 2 de Julho ainda é pouco celebrado, inclusive pelos próprios baianos, e que o humor poderia ajudar a torná-lo mais conhecido. Pode detalhar?

O humor serve para iniciar as conversas. Eu acho muito importante uma linguagem acessível, e o humor talvez seja a mais acessível de todas as artes. Todo mundo tem a capacidade de entender uma piada, de se divertir com alguma coisa. Quando você apresenta um tema de forma divertida, descontraída e bem-humorada, gera interesse. Não quer dizer que a pessoa vai entender tudo o que precisa só porque aquilo está em um formato engraçado, mas certamente desperta a curiosidade necessária para que ela procure saber mais. Foi exatamente isso que a gente tentou fazer com a série. Ela é divertida, leve, não tem a profundidade de um trabalho acadêmico, mas planta uma sementinha para que as pessoas conversem sobre o assunto e, principalmente, tenham vontade de conhecer mais a história do 2 de Julho.

De fato, o 2 de Julho, a despeito das mortes e combates acirrados, tem pelo menos dois episódios “engraçados”: o do Corneteiro Lopes e a suposta surra de cansanção aplicada por Maria Felipa e suas companheiras nos portugueses que estavam na Ilha. Como vê essas histórias? Conhece outras anedotas acerca do 2 de Julho?

O episódio do Corneteiro Lopes é realmente uma coisa surreal. Já a famosa surra de cansanção atribuída a Maria Felipa é um episódio extremamente contestado do ponto de vista histórico. Mesmo assim, essa narrativa entrou de forma muito forte no imaginário baiano e muita gente se recusa a acreditar que existam questionamentos sobre ela. Mas, para mim, a história mais divertida de todas é a das Caretas do Mingau. Eram mulheres que levavam alimentos para os combatentes baianos durante o cerco e, para conseguir passar pelos portugueses, se cobriam com roupas brancas, usavam chapéus de palha, carregavam panelas de mingau e sopa e faziam barulho pelo caminho. Existem cartas da época relatando que alguns soldados portugueses chegaram a acreditar que estavam enfrentando uma batalha espiritual. Acho essa história fantástica.

Como professor, como você vê o ensino do 2 de Julho nas escolas baianas? Há alguma diferença entre o que é passado aos alunos de escolas públicas e particulares?

O ensino do 2 de Julho melhorou bastante nos últimos anos. Muitos livros de História, quando chegam ao capítulo da Independência do Brasil, já citam as lutas travadas no Nordeste e dão mais destaque ao que aconteceu na Bahia. Isso é um avanço importante. Mas eu ainda vejo a escola pública muito à frente da escola particular nesse aspecto. O professor da rede pública costuma ter mais autonomia e muitos colegas fazem questão de construir essa memória positiva do 2 de Julho. Até porque exaltar o 2 de Julho é exaltar o povo baiano. Já nas escolas particulares existe um déficit muito grande de história local. Muitos estudantes conhecem conteúdos importantes para o Enem, mas não conhecem a história de Salvador ou da Bahia. Isso acontece porque as escolas acabam direcionando o ensino para os vestibulares, que cobram pouco conteúdo regional. Só que, do ponto de vista da formação cidadã, conhecer a história local é fundamental.

Além da Bahia, o resto do Brasil pouco ou nada conhece sobre o 2 de Julho. Muitos historiadores, inclusive de outras regiões, vêm chamando atenção para isso, ano após ano. Será que já não estava na hora de tornar o 2 de Julho uma data nacional?

Eu defendo fortemente que a verdadeira Independência do Brasil deveria ser comemorada em 2 de Julho e que, um dia, até o Hino Nacional pudesse ser substituído pelo Hino ao 2 de Julho. Isso porque o 2 de Julho representa o povo brasileiro. Mas, para que essa discussão amadureça, primeiro é preciso massificar essa informação. Ainda enfrentamos muitas barreiras históricas, inclusive de xenofobia e racismo, que dificultam deslocar o protagonismo da narrativa construída no Sudeste para reconhecer o papel do Nordeste na consolidação da Independência. Quando deixamos de olhar apenas para um herói branco montado em um cavalo e passamos a reconhecer trabalhadores, mulheres negras, indígenas, pessoas escravizadas e tantos outros personagens que participaram dessa luta, mudamos completamente a forma de contar a história do Brasil. O 2 de Julho já é reconhecido como o Dia Nacional da Consolidação da Independência do Brasil, o que representa um avanço importante. Quem sabe, no futuro, a gente consiga consolidá-lo também como a verdadeira data da Independência do país.

No 7 de Setembro, um nobre gritou em um local ermo e considerou o Brasil independente. Na Bahia, o povo e as forças locais derramaram sangue, foram para combate físico, declarado, para expulsar os portugueses colonizadores. Como pode esta primeira data ter mais “valor” no resto do país do que a data em que realmente alcançamos a vitória de forma prática, em uma luta popular? O que isso nos diz sobre o Brasil?

O 7 de Setembro foi uma data construída para exaltar Dom Pedro I e legitimar sua autoridade como imperador do Brasil. Houve um esforço político para transformá-lo no grande herói da Independência, embora a consolidação desse processo tenha acontecido meses depois, com muita luta na Bahia. Se essa história tivesse sido contada a partir do 2 de Julho, talvez nossos heróis nacionais fossem Maria Felipa, Maria Quitéria, Joana Angélica, o Corneteiro Lopes, João das Botas, Tambor Soledade, os encourados de Pedrão, além de cidades como Cachoeira, Santo Amaro e Itaparica. Isso diz muito sobre o Brasil. Durante muito tempo, nossa narrativa nacional demorou a reconhecer o protagonismo de negros, indígenas, mulheres e das camadas populares na construção da nossa história. Valorizar o 2 de Julho também significa ampliar esse olhar sobre quem, de fato, consolidou a Independência.

Assim como no fato histórico, o desfile do 2 de Julho tem muito mais participação popular do que o 7 de Setembro. Como você vê a forma espontânea que o povo baiano abraçou a data? O baiano é mais politicamente consciente do que imaginamos?

O baiano gosta de se ver, gosta de celebrar a própria história. Acho que essa é uma das grandes diferenças entre o 2 de Julho e o 7 de Setembro. O desfile de 7 de Setembro acabou se tornando, ao longo do tempo, uma grande parada militar. Já o 2 de Julho é uma festa popular. É o povo celebrando o próprio povo. Tem fanfarra, movimentos sociais, manifestações culturais, protestos e uma ocupação espontânea das ruas. É justamente isso que torna o 2 de Julho tão bonito. O povo baiano se reconhece como protagonista dessa história e celebra essa identidade. É uma festa construída pelo povo e para o povo.

Como você vai passar o 2 de Julho deste ano? Você costuma ir ao desfile?

Vou fazer o que faço todos os anos. Às 7h30 já estarei na Lapinha esperando a saída dos Caboclos para acompanhar o cortejo até a Praça Municipal. Depois volto para a região do Santo Antônio para encontrar os amigos, comer um feijão, tomar uma cervejinha e celebrar. O 2 de Julho é um dia de festa. Gosto especialmente da passagem pelo Santo Antônio, da parada em frente à Igreja do Rosário dos Pretos, das fanfarras, das manifestações populares e dessa liberdade que o povo tem de ocupar as ruas e celebrar a própria história. E faço um convite para quem ainda não conhece a Volta da Cabocla. No dia 5 de julho, no fim da tarde, os carros do Caboclo e da Cabocla retornam do Campo Grande para a Lapinha, acompanhados pela Orquestra do maestro Reginaldo Xangô. É uma programação linda e um momento muito especial das comemorações. Só fico curioso para saber como vai ficar este ano com o jogo do Brasil no mesmo horário, mas tenho certeza de que os Caboclos vão dar um jeito.



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