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Casal transforma luta contra infertilidade em projeto social que já ajudou 150 famílias a engravidar


O projeto é um dos braços do Instituto Maragata, organização criada em 2011 para desenvolver ações sociais voltadas à infância e às famílias

A dor de enfrentar a infertilidade durante sete anos e passar por nove tratamentos de fertilização levou Nathália Ottoni Bastos e o marido, João Gaspar, a transformar a própria história em uma iniciativa capaz de mudar a vida de outras famílias. Em 2016, nasceu o N.Tentativas, projeto social vinculado ao Instituto Maragata que busca viabilizar tratamentos de reprodução assistida para casais de baixa renda que não têm condições de arcar com os custos dos procedimentos.

Desde a criação, a iniciativa já atendeu quase 150 casais. O número, no entanto, ainda está distante da demanda: a lista de espera se aproxima de 900, segundo Nathália. Para a fundadora, o maior obstáculo é conseguir recursos suficientes para ampliar o atendimento e permitir que mais famílias tenham a oportunidade de tentar engravidar.

“Todo projeto social nasce de uma dor. E o projeto N.Tentativas nasceu da nossa dor e do nosso amor, que se misturam. Eu e o João enfrentamos tudo isso durante esses sete anos, todos esses medos e angústias. Depois que a gente passa por isso, sabe como é doloroso e como é difícil continuar”, contou Nathália ao explicar como a experiência pessoal deu origem à iniciativa.

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A trajetória do casal também fez com que a fundadora enxergasse uma dificuldade que vai além dos desafios físicos e emocionais da infertilidade: o custo dos tratamentos. Além de lidar com a expectativa e as incertezas de cada tentativa, muitos pacientes precisam enfrentar uma barreira financeira que impede a continuidade da busca pela gravidez.

“Os tratamentos são muito caros, os medicamentos são caros. Não basta o casal já ter dificuldades naturais de engravidar, ainda encontra essa questão financeira que realmente pesa demais. A infertilidade é uma doença que pesa no emocional, no social, no relacionamento e pesa no bolso muito”, afirmou.

Antes de transformar a experiência em um projeto social, Nathália já compartilhava nas redes sociais informações sobre infertilidade e doenças relacionadas, como a endometriose. O objetivo era dividir o que havia aprendido ao longo da própria jornada, oferecer informação e incentivar outras pessoas a não desistirem. Com o tempo, porém, ela sentiu que poderia fazer mais do que acolher quem passava pela mesma situação.

“Eu comecei a compartilhar no meu Instagram sobre a infertilidade, sobre doenças relacionadas, endometriose, sempre buscando trazer informação, sempre buscando trazer esperança. […] A gente pensou: vamos ajudar mais, mais do que um colo, mais do que as pessoas lerem e escutarem. Vamos ir além, fazer ações, mobilizar mais gente para conseguir arrecadar dinheiro e pagar o tratamento desses casais”, explicou.

Como funciona o N.Tentativas

O projeto é um dos braços do Instituto Maragata, organização criada em 2011 para desenvolver ações sociais voltadas à infância e às famílias. Ao longo dos anos, a instituição também passou a atuar em outras frentes, entre elas o apoio à Santa Casa de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e iniciativas relacionadas às enchentes que atingiram o estado.

No caso do N.Tentativas, os interessados podem preencher um formulário disponibilizado no link da bio do Instagram de Nathália. O cadastro reúne informações sobre a história do casal, há quanto tempo tenta engravidar e a cidade onde mora. A partir desses dados, o projeto organiza a demanda e procura clínicas e profissionais parceiros que possam realizar o atendimento.

A rede de parceiros está distribuída por diferentes regiões do Brasil, uma estratégia que permite encaminhar os pacientes para serviços mais próximos de suas casas, sem exigir que todos se desloquem até São Paulo. O projeto também busca profissionais dispostos a contribuir com o trabalho social, seja por meio da doação de procedimentos, seja com a redução dos custos.

“Qualquer casal pode se inscrever no link da minha bio do Instagram. Ali tem um formulário para saber um pouco da história, quanto tempo estão tentando e de onde é esse casal. Eu recebo todos esses formulários, e aí tem uma lista que é gigantesca, que não para de crescer”, explicou Nathália.

Ela ressaltou que a fila avança conforme o projeto consegue arrecadar recursos. “Vou pegando quando chega a hora, a lista vai andando, eu vou chamando e busco uma clínica parceira ali na região do casal. Então, a gente tem clínicas parceiras no Brasil todo. O casal não precisa se deslocar até São Paulo. Eu procuro uma clínica de referência, uma clínica em que eu confiaria para fazer o tratamento, e busco médicos e clínicas que entendam também o valor social, que possam ajudar e doar ou diminuir um pouco o preço”, disse.

A definição do tratamento, entretanto, depende de uma avaliação médica individualizada. Nem todos os casais precisam necessariamente passar por uma fertilização in vitro. Após a seleção social realizada pelo Instituto Maragata, os pacientes são encaminhados aos profissionais parceiros, que avaliam o histórico, os exames e as necessidades clínicas para indicar a conduta adequada.

Um dos médicos que participa da iniciativa é Matheus Roque, especialista em reprodução assistida, que contribui por meio da doação de tratamentos. Para ele, a atuação do projeto ajuda a aproximar os avanços da medicina de pessoas que, de outra forma, poderiam não ter acesso a esses recursos.

“O Projeto N.Tentativas, por meio do Instituto Maragata, realiza um trabalho muito bonito, permitindo que pessoas que não têm condições financeiras de custear tratamentos de reprodução assistida possam ter acesso a eles. O Instituto é responsável pela captação de recursos e pela seleção dos pacientes, que posteriormente são encaminhados para médicos e clínicas parceiras”, explicou.

O especialista afirma que, após o encaminhamento, cada caso é analisado de forma individual. “Avaliamos o histórico de infertilidade, a idade, os exames já realizados, os tratamentos anteriores e, quando necessário, solicitamos exames complementares. O objetivo é identificar a causa da infertilidade e definir qual é a melhor conduta para aquele casal”, afirmou.

Matheus também destaca que procurar um especialista não significa, necessariamente, iniciar um tratamento de alta complexidade. “Nem todos os pacientes com dificuldade para engravidar precisam necessariamente de uma fertilização in vitro. Nossa responsabilidade é oferecer a melhor orientação médica, com base nas evidências científicas, e indicar o tratamento quando ele realmente for necessário e adequado”, disse.

Tratamentos podem custar até R$ 40 mil por tentativa

O valor de um tratamento varia conforme a região, a clínica e as necessidades de cada paciente. De acordo com Matheus, um ciclo de fertilização in vitro na rede particular pode custar entre R$ 20 mil e R$ 40 mil, incluindo os medicamentos. Além disso, nem sempre uma única tentativa resulta em gravidez, o que pode aumentar ainda mais os gastos de quem precisa recorrer ao procedimento.

A fertilização in vitro envolve diferentes etapas. O processo geralmente começa com a estimulação dos ovários por medicamentos hormonais, seguida da coleta dos óvulos, realizada sob sedação e guiada por ultrassom. Em laboratório, os óvulos são fertilizados com os espermatozoides e os embriões passam por um período de desenvolvimento antes de serem transferidos para o útero. O procedimento amplia as possibilidades de gravidez em determinados casos, mas não oferece garantia de sucesso.

O especialista lembra ainda que a infertilidade pode ter causas femininas, masculinas, combinadas ou, em algumas situações, não identificadas mesmo após a investigação. Entre os fatores que podem afetar a fertilidade feminina estão alterações na ovulação, obstruções das trompas, endometriose e questões relacionadas à idade. Nos homens, as alterações podem envolver a produção, a quantidade, a mobilidade e a qualidade dos espermatozoides.

Segundo Matheus, o fator masculino participa de uma parcela significativa dos casos, isoladamente ou em conjunto com fatores femininos. Por isso, a investigação deve envolver os dois integrantes do casal.

A recomendação é que mulheres com menos de 35 anos procurem avaliação após 12 meses de tentativas regulares sem contraceptivos. A partir dos 35 anos, o prazo cai para seis meses. Para mulheres acima dos 40 anos, a orientação é buscar avaliação sem demora. Em situações como ciclos menstruais muito irregulares, endometriose, histórico de cirurgias ovarianas ou suspeita de alterações nas trompas ou na fertilidade masculina, a investigação pode ser indicada antes desses períodos.

“A infertilidade não escolhe classe social. Ela pode atingir qualquer pessoa, independentemente da sua condição financeira. A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente uma em cada seis pessoas enfrentará a infertilidade ao longo da vida”, afirmou o médico.

Para Matheus, o custo dos procedimentos evidencia a importância de iniciativas que ampliem o acesso aos tratamentos. “Para muitas famílias, o custo de uma fertilização in vitro representa uma barreira praticamente impossível de superar. Por isso, considero o trabalho realizado pelo Instituto Maragata e pelo Projeto N.Tentativas tão importante. O Instituto mobiliza pessoas, doadores e profissionais para transformar recursos e solidariedade em oportunidades reais de tratamento”, disse.

Ele acrescentou: “A medicina evoluiu muito nas últimas décadas. Mas de pouco adianta termos tanta tecnologia se ela não consegue chegar às pessoas que precisam dela. É muito gratificante saber que podemos contribuir para mudar essa realidade”.

Doações são o principal desafio

Para manter o atendimento, o N.Tentativas depende de doações espontâneas e de um evento beneficente realizado anualmente. A iniciativa reúne itens e experiências oferecidos por parceiros, como joias, obras de arte, fotografias e viagens, que são arrematados em um leilão. A arrecadação é destinada ao projeto.

Segundo Nathália, o custo de cada atendimento varia porque depende do procedimento indicado e dos acordos estabelecidos com médicos e clínicas. Alguns parceiros doam parte dos serviços ou oferecem condições reduzidas, o que ajuda a ampliar o alcance dos recursos disponíveis. Ainda assim, a procura cresce em um ritmo que torna a arrecadação um desafio constante.

“O principal desafio do projeto é receber doação, é fazer com que as pessoas doem, porque a fila de pessoas que precisam do tratamento é gigantesca, não para de crescer. Infelizmente, cada vez mais a infertilidade está na nossa sociedade, só que, na contramão disso, as doações não ocorrem”, afirmou.

A fundadora conta que recebe centenas de mensagens de pessoas interessadas em participar, buscando informações sobre inscrições e sobre o andamento da fila. No entanto, o projeto só consegue chamar novos casais quando há dinheiro disponível para custear os tratamentos.

“É assim que a gente consegue: só se a gente arrecada, consegue chamar mais casais. O maior desafio é que mais pessoas saibam do projeto e mais pessoas doem, porque só assim a fila consegue andar”, explicou.

Além de contribuir financeiramente, as pessoas podem ajudar divulgando a iniciativa e apresentando o projeto a profissionais de saúde que tenham interesse em participar. Doações de objetos e serviços que possam ser destinados ao leilão também são bem-vindas.

“As pessoas podem contribuir por meio de doação ou doando alguma coisa que possa ser vendida e revertida para o projeto N.Tentativas. Qualquer doação é bem-vinda, qualquer valor faz a diferença. Outra forma também é falar do projeto, falar para os seus médicos e mostrar para esses médicos que existe um projeto dessa forma, que ele é sério, que acontece e que as pessoas podem transformar uma vida inteira”, disse Nathália.

Sonho é ampliar o atendimento

Apesar dos desafios, a fundadora afirma que acompanhar a trajetória dos casais é o que dá sentido ao trabalho. O contato não termina com o encaminhamento para a clínica: ela conta que continua acompanhando as famílias ao longo do processo, das consultas aos resultados dos tratamentos e, quando acontece, à chegada dos bebês.

“Eu fico muito realizada em ver cada positivo, cada casal que vai para uma nova consulta, cada barriga crescendo, cada criança que nasce. Eu continuo em contato, vou acompanhando esse casal o tempo todo, então é uma alegria tremenda”, relatou.

Para Nathália, a expectativa é que o projeto permaneça ativo por muitos anos e consiga reduzir a espera de quem ainda não teve acesso ao tratamento. Mais do que ampliar os números, ela deseja que outras famílias possam viver a experiência que marcou sua própria história.

“O nosso sonho é que essa fila ande mais rápido, que mais casais sintam o que a gente sente olhando para os nossos filhos, que mais casais possam sonhar e tentar. É um trabalho que me dá muito orgulho. Eu quero que esse projeto dure muitos e muitos anos, que muitas crianças venham e que as famílias se sintam mais coloridas e sintam todo esse amor”, afirmou.

Ela concluiu destacando que a rede de apoio pode começar antes mesmo de uma criança nascer. “Eu falo bastante que dizem que precisa de uma aldeia para criar uma criança. Na verdade, muitas vezes essa aldeia precisa começar a agir antes dessa criança vir realmente ao mundo. Esse é o projeto N.Tentativas.”



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