Celebrado em 11 de agosto, o Dia do Estudante costuma remeter às salas de aula ocupadas por crianças e adolescentes. Na Bahia, porém, a data também evidencia a trajetória de milhares de jovens, adultos e idosos que decidiram retomar os estudos após anos longe da escola.
É o caso de Adelita Almeida Fraga, de 90 anos, moradora de Brumado, no sudoeste baiano, que voltou à escola depois de mais de sete décadas. Aluna da Escola Municipal de Tempo Integral Professora Maria das Graças Assis Correia, ela interrompeu os estudos ainda na adolescência porque a cidade onde morava não oferecia continuidade ao ensino e a família não tinha condições de mantê-la estudando em outro município.
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O retorno aconteceu após a morte do marido. Sozinha em casa, ela passou a enfrentar dias marcados pelo silêncio e encontrou na escola um novo propósito para viver.
“Foi mais ou menos por causa da solidão. Eu ficava em casa sem fazer nada, dormindo na cadeira. Minha neta disse que a escola seria uma terapia para mim. Resolvi vir e hoje sou feliz. Todo mundo me dá parabéns quando sabe que estou estudando”, relatou.
A rotina de Adelita contrasta com a de Cauane Souza de Jesus, de 22 anos, estudante da Educação de Jovens e Adultos (EJA), em Salvador. Mãe e dona de casa, ela precisou interromper os estudos durante a gravidez do primeiro filho e agora divide o tempo entre os cuidados com a família e as aulas no turno da noite.
“Não é nada fácil. A demanda é grande. Muitas vezes preciso deixar o estudo de lado por causa da casa, dos filhos e do marido”, explicou Cauane.
Apesar da rotina exaustiva, Cauane não pensa em desistir. O objetivo é concluir o ensino básico para conquistar melhores oportunidades de trabalho e oferecer uma vida mais confortável à família.
“Quero terminar os estudos, melhorar minha condição financeira para proporcionar o melhor para os meus filhos e meus irmãos. Meu sonho é conseguir minha casa própria. Depois penso em fazer cursos e, mais para frente, talvez uma faculdade”, contou.
Desafios da permanência na EJA
As duas histórias ilustram a diversidade de perfis presentes nas salas da EJA. Enquanto alguns estudantes retornam para realizar um sonho interrompido na juventude, outros enxergam na escola uma oportunidade de qualificação profissional, autonomia financeira ou até de reconstrução emocional, objetivos que norteiam a proposta da modalidade.
De acordo com a Secretaria Estadual de Educação (SEC), a Bahia ocupa a segunda posição nacional em número de estudantes matriculados na modalidade, atrás apenas de São Paulo. Para o coordenador de Educação de Jovens e Adultos da SEC, Alexandro Batista, o crescimento das matrículas é resultado da combinação de diferentes políticas públicas desenvolvidas nos últimos anos.
Entre as iniciativas apontadas pelo coordenador estão:
- expansão da oferta em escolas urbanas e do campo, comunidades indígenas e quilombolas;
- unidades prisionais e socioeducativas;
- reorganização curricular, da integração com a qualificação profissional e de políticas de permanência, como transporte escolar, alimentação e programas de incentivo financeiro aos estudantes elegíveis.

A Bahia também aderiu integralmente ao Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da EJA, iniciativa do Ministério da Educação que reúne os 417 municípios baianos em ações voltadas à alfabetização, ampliação da oferta da modalidade, formação de professores e integração entre escolarização e qualificação profissional.
Apesar dos avanços, garantir que os estudantes permaneçam na escola ainda é um dos principais desafios da modalidade.
“O crescimento das matrículas na Educação de Jovens e Adultos é resultado da conjugação de políticas públicas voltadas à ampliação do acesso, da busca ativa e da valorização da modalidade. O maior desafio da EJA é garantir a permanência de estudantes que conciliam os estudos com trabalho, responsabilidades familiares e, muitas vezes, condições de vulnerabilidade social”, explicou Batista.
Para enfrentar esse cenário, a secretaria aposta no acompanhamento da frequência, em estratégias de busca ativa e na articulação com outras políticas públicas, envolvendo áreas como assistência social, saúde e qualificação profissional.
Acolhimento na prática pedagógica

Quem vivencia essa realidade diariamente é a professora Joelma Cardoso da Silva, do projeto EPJAI, em Gandu, no baixo sul baiano. Para ela, ensinar jovens, adultos e idosos exige sensibilidade para compreender trajetórias marcadas por interrupções, dificuldades e desafios muito diferentes daqueles encontrados no ensino regular.
“Os estudantes trazem uma história de vida, experiências e necessidades próprias. O professor não ensina apenas conteúdos; ele também valoriza os conhecimentos que cada aluno já construiu ao longo da vida. Muitos trabalham o dia inteiro, cuidam dos filhos ou de familiares e chegam cansados. Por isso, acolher esses estudantes é tão importante quanto ensinar”, destacou.
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Na sala de aula, ela aposta em metodologias que aproximam o conteúdo da realidade dos alunos, abordando temas como educação financeira, cidadania, saúde, tecnologia e leitura, além de reconhecer cada conquista como forma de fortalecer a confiança e evitar a evasão.
Para Adelita Almeida Fraga, esse acolhimento foi determinante para permanecer estudando. Aos 90 anos, ela diz que a escola devolveu não apenas o prazer de aprender, mas também a vontade de viver intensamente.
“A gente só para de sonhar quando morre. Antes eu ficava sozinha dentro de casa. Hoje estou sempre ocupada. Fiz amigos, gosto das aulas e até voltei a estudar matemática. Minha vida mudou”, relatou.
Em um estado onde milhares de pessoas ainda buscam recuperar o tempo perdido longe das salas de aula, histórias como as de Adelita e Cauane mostram que o Dia do Estudante também pertence àqueles que descobriram que aprender não tem idade. A cada nova matrícula, a EJA confirma que a educação continua sendo uma oportunidade de mudar trajetórias, fortalecer a cidadania e abrir caminhos para o futuro, independentemente do momento em que se decida recomeçar.