Enquanto a investigação da Polícia Civil concentra esforços para prender o cigano apontado como mandante da morte da advogada Cláudia Félix de Oliveira, de 51 anos, a reportagem teve acesso exclusivo aos detalhes de uma ação judicial que revela, passo a passo, como Victor Oliveira da Silva, de 25 anos, sobrinho da vítima, teria aplicado um dos golpes que deram origem ao caso.
Conforme já divulgado pela Polícia Civil, Victor é apontado como responsável por um esquema envolvendo compra, locação e revenda irregular de veículos nas regiões de Itabuna e Ilhéus. O prejuízo estimado às vítimas chega a R$ 6 milhões. Entre os credores estaria um cigano morador de Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, que, segundo a investigação, teria perdido cerca de R$ 2 milhões e acabou encomendando a morte do jovem. Como ele não foi localizado, os criminosos assassinaram a advogada como forma de vingança.
Os documentos obtidos pela reportagem ajudam a entender como o esquema funcionava.
Segundo a ação, em abril deste ano, um empresário negociou com Victor a compra de uma Toyota Hilux, avaliada em R$ 220 mil.
Como parte do pagamento, entregou um Volkswagen Nivus, avaliado em R$ 146 mil, além de completar a diferença com R$ 74 mil, sendo R$ 50 mil via PIX e R$ 24 mil em dinheiro.
Troca da caminhonete deu início ao golpe
Algumas semanas depois, segundo consta no processo, o comprador decidiu devolver a Hilux por não ter se adaptado ao veículo. Em vez de devolver o dinheiro recebido ou o Nivus utilizado na negociação inicial, Victor teria proposto uma nova troca.
Ele entregou ao comprador três veículos:
- um Chevrolet Onix;
- um Volkswagen Polo;
- um Jeep Renegade.
De acordo com a ação, Victor afirmou que os automóveis eram de sua propriedade e que eles quitariam integralmente o valor da caminhonete devolvida.
Descoberta veio durante a transferência
A fraude só foi descoberta dias depois. Conforme os documentos aos quais a reportagem teve acesso, o comprador procurou um despachante para transferir os veículos para seu nome e, antes disso, chegou a pagar mais de R$ 2 mil em taxas de licenciamento.
Foi então que surgiu a surpresa. O despachante constatou que nenhum dos três veículos pertencia a Victor. Segundo o processo, o Onix era da Localiza, enquanto o Polo e o Renegade pertenciam à locadora Loque Rent a Car.
Carros eram alugados horas antes da entrega
Um dos pontos que mais chamou a atenção da investigação particular narrada na ação são os contratos de locação. Os documentos mostram que Victor teria alugado o Onix e o Polo no mesmo dia em que os entregou ao comprador, com diferença de apenas quatro minutos entre um contrato e outro. Poucas horas depois, os dois veículos já eram apresentados como se fossem bens próprios para quitar a negociação da Hilux.
O caso do Jeep Renegade, segundo o processo, seria ainda mais grave. O veículo havia sido alugado meses antes e nunca teria sido devolvido à locadora dentro do prazo contratual. Mesmo assim, foi utilizado como moeda de troca na negociação.
A ação judicial sustenta que Victor utilizava sempre o mesmo método: negociava veículos de alto valor, conquistava a confiança das vítimas e, posteriormente, substituía os bens por automóveis que pertenciam a locadoras, sem qualquer autorização para revendê-los ou repassá-los a terceiros.
Segundo a Polícia Civil, esse modelo de atuação teria sido repetido diversas vezes, provocando um prejuízo estimado em R$ 6 milhões.
A reportagem apurou que o cigano apontado como mandante do assassinato de Cláudia Félix seria um dos principais credores do esquema e teria acumulado um prejuízo próximo de R$ 2 milhões.
Golpe terminou em crime de vingança
Na última terça-feira (3), durante a Operação Vendetta, a Polícia Civil informou que a motivação do assassinato da advogada foi uma vingança contra Victor Oliveira.
Segundo o diretor da Diretoria Regional de Polícia do Interior (Dirpin/Sudoeste), delegado Roberto Júnior, os criminosos tinham como alvo o sobrinho da vítima. Como não conseguiram encontrá-lo, decidiram matar Cláudia Félix.
As investigações apontam que R$ 25 mil foram pagos para a execução. Até o momento, dois executores foram presos, sendo um policial militar e um monitor de ressocialização, enquanto outros quatro investigados, entre eles o suposto mandante e um intermediário, continuam sendo procurados pela Polícia Civil.