O Supremo Tribunal Federal (STF) vive, nas últimas semanas, a maior crise de toda a sua história. A escalada do ‘caso Master’, que envolve Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, dois dos principais ministros da Corte, colocou a instituição e sua credibilidade em xeque.
Com os holofotes voltados para Alexandre de Moraes, parte do Senado tem discutido, nos bastidores, a possibilidade de avançar em um pedido de impeachment do ministro, embora o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), já tenha sinalizado que não deve acatar nenhum documento protocolado.
Entenda o elo entre Vorcaro e ministros do STF
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, teceu uma longa teia de influência no universo político, estabelecendo laços também com importantes nomes do Judiciário, a exemplo de Alexandre de Moraes.
A quebra de sigilo das conversas entre Vorcaro e Moraes, na última semana, comprovou a ligação dos dois principais nomes do ‘caso Master’. O elo foi firmado por meio de Viviane Barci, esposa do ministro do STF.
Contratos do Banco Master com esposa de Moraes
O escritório Barci de Moraes, de propriedade de Viviane Barci de Moraes, esposa do magistrado, firmou um contrato de R$ 131 milhões com o Banco Master.
A quebra de sigilo serviu para expor a atuação de Moraes na conexão entre Viviane e Vorcaro, tendo o ministro do Supremo atuado na edição do contrato milionário, o que foi confirmado pelo escritório em nota, negando que a intervenção tenha ocorrido na condição de membro da Corte.
Após a divulgação das mensagens, Alexandre de Moraes reagiu usando o seu poder de ministro do STF, pedindo a abertura de uma investigação contra André Mendonça, seu algoz, por abuso de poder e improbidade administrativa.
Em uma nova reação, Mendonça pediu o afastamento de Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, decisão que foi ‘revogada’ por Flávio Dino na quarta-feira, 9.
Suspeição de Dias Toffoli e Mendonça relator
Antes de Moraes se tornar centro do escândalo do Master, Dias Toffoli foi colocado na condição de ministro ligado ao banco.

Primeiro relator do caso Master no Supremo, Dias Toffoli teve exposta sua relação com Vorcaro antes mesmo de Alexandre de Moraes, segundo informações divulgadas pela Polícia Federal ao presidente do STF, Edson Fachin.
Em março deste ano, diante da posição da PF e do avanço das investigações, Dias Toffoli se declarou suspeito e entregou a relatoria do caso Master, assumida por André Mendonça.

Mendonça chegou ao STF em dezembro de 2021, por indicação do então presidente Jair Bolsonaro (PL).
STF deixa os bastidores e vira protagonista na política nacional
Ao longo dos 135 anos de existência, o Supremo Tribunal Federal saiu da condição de instituição discreta dentro do regime democrático, atuando como guardiã da Constituição, para o posto de ator principal da política nacional.
O primeiro grande ponto de destaque do STF no século XXI aconteceu com o julgamento do mensalão.
Mensalão e Joaquim Barbosa como herói nacional
O escândalo do mensalão, que revelou um esquema de pagamento a deputados federais para aprovação de pautas que interessavam ao governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2005, deu ao STF o seu primeiro grande momento político no século.
O caso foi levado ao Plenário do Supremo, que julgou os envolvidos a partir de 2012. Entre os ‘notáveis’ que passaram pelo julgamento, estavam nomes como José Dirceu (PT), José Genoíno (PT) e Valdemar Costa Neto (PL); todos foram condenados.

No processo que culminou na condenação de cerca de 25 envolvidos no mensalão, o relator do processo, Joaquim Barbosa, se destacou, virando capa de revista e sendo alçado a herói nacional por uma parcela da população e pela opinião pública.
Primeiro negro a sentar na cadeira de ministro do Supremo Tribunal, Joaquim Barbosa era de origem pobre, sendo filho de uma lavadeira analfabeta.
Sua trajetória, aliada ao papel que teve durante o julgamento, lhe colocou na condição de membro mais importante daquela configuração da Corte, em 2014.
O período coincidiu com o crescimento de uma onda de insatisfação que culminou em uma série de manifestações populares nas ruas das principais cidades do país.
Nos anos seguintes, ainda com a imagem de justiceiro da impunidade na política, Joaquim Barbosa chegou a ser colocado como opção para a disputa presidencial, ideia que não prosperou.
A visão de que o STF era um guardião contra os maus políticos, entretanto, cairia por terra nos anos subsequentes, quando os ministros da Corte passaram a ser vistos como ‘inimigos do país’.
A figura de Alexandre de Moraes foi a mais rejeitada aos olhos daqueles que passaram a ter outro entendimento sobre o papel do STF.
Alexandre de Moraes: de homem discreto a todo poderoso
Hoje o grande nome das polêmicas do STF, Alexandre de Moraes teve uma rápida ascensão nos últimos dez anos. Nome conhecido no âmbito jurídico, o agora ministro do Supremo chegou ao posto em 2017.
Alexandre de Moraes também fez parte do universo político, sendo filiado ao antigo Partido da Frente Liberal (PFL) e ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).
O advogado esteve em gestões municipais e estaduais em São Paulo, passando pela Secretaria Municipal de Transporte durante o mandato de Gilberto Kassab, e pela Secretaria de Justiça do Estado.
Moraes foi escolhido por Geraldo Alckmin (PSDB) para o cargo de secretário estadual de Segurança Pública, onde ficou até meados de 2016, quando foi escolhido para o Ministério da Justiça pelo presidente Michel Temer (MDB).
Sua passagem como ministro do governo Temer ficou marcada por posições consideradas excessivamente conservadoras e por um perfil visto como rígido, desagradando setores mais progressistas, que lhe classificavam como uma figura ‘reacionária’.
Morte de Teori Zavascki leva Moraes ao STF
Não havia, naquele momento específico da segunda metade da década de 2010, nenhuma perspectiva de abertura de vaga para ministro no Supremo.
Em janeiro de 2017, no entanto, o cenário mudou às custas de uma tragédia: a queda de uma aeronave vitimou o ministro Teori Zavascki, abrindo também uma cadeira para a Suprema Corte.
Temer então resolveu indicar Alexandre de Moraes para a vaga, sendo o ministro aprovado com 55 votos favoráveis, em fevereiro de 2017. Na época, a indicação de Moraes foi contestada pela bancada do PT no Senado, que tinha em Gleisi Hoffmann uma das suas principais referências.
Com pouco tempo de Corte, Moraes logo se tornou um dos membros mais destacados do STF, despertando sentimentos diferentes por parte dos principais setores da política brasileira.
Entre os bolsonaristas, porém, Moraes se tornou uma espécie de ‘carrasco’, assumindo de forma involuntária a imagem de vilão da toga, por tomar medidas consideradas impopulares.
Como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2022, coube a Alexandre de Moraes a missão de garantir que todos os eleitores pudessem votar nas seções eleitorais, o que esteve sob risco com a atuação de agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no dia do segundo turno.
André Mendonça: o ministro terrivelmente evangélico de Bolsonaro
Evangélico, pastor da Igreja Presbiteriana, André Mendonça se tornou a ‘pedra fundamental’ da construção definitiva da ponte entre o bolsonarismo com as religiões protestantes, iniciada durante a campanha presidencial de 2018.
Bolsonaro havia prometido, ainda durante sua campanha vitoriosa, indicar um ministro “terrivelmente evangélico” para a Suprema Corte.
A longa trajetória jurídica de Mendonça e o seu alinhamento ao bolsonarismo lhe colocaram como uma forte alternativa para o Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 2020, substituindo Sergio Moro, que havia rompido com Bolsonaro, deixando a Advocacia-Geral da União (AGU).
Ele ficou no cargo até 2021, quando assumiu novamente a AGU, deixando o posto no segundo semestre do mesmo ano para voltar ao Ministério da Justiça.
No final de 2021, André Mendonça, que contou com o ‘lobby’ de importantes lideranças evangélicas, incluindo a primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), teve a sua indicação ao Supremo aprovada pelo Senado Federal, com 47 votos favoráveis e 32 contrários.
Era um compromisso nosso de mandar para a Suprema Corte uma pessoa que tem Deus no coração – Jair Bolsonaro
STF condena Bolsonaro por liderar tentativa de golpe de Estado
Em setembro de 2025, o STF esteve novamente no centro dos debates ao julgar o núcleo central da trama que tinha como principal objetivo executar um golpe de Estado após as eleições de 2022.
Entre os nomes, estava o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), apontado como o principal líder do grupo. Alexandre de Moraes foi o relator do processo que culminou na condenação do núcleo.
Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão, colocando Moraes, mais uma vez, na posição de algoz do bolsonarismo.

Eleição pautada sobre o futuro do STF
A eleição presidencial deste ano tem o Supremo Tribunal Federal como um dos principais atores. A crise que estourou nas últimas semanas dá o tom da disputa eleitoral, tendo o futuro da Corte como uma das bandeiras.
O próximo presidente da República terá aproximadamente quatro indicações garantidas para o STF. A primeira dela deveria ter acontecido este ano, com a tentativa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de emplacar Jorge Messias, advogado-geral da União (AGU).
Messias teve seu nome reprovado pelo Senado, sendo o primeiro indicado da história a ser rejeitado pelo Congresso Nacional.
A configuração das próximas décadas do STF terá o perfil do próximo presidente da República.