Que Shakira tem CPF brasileiro, disso todo mundo já sabe. Figurinha carimbada em programas de auditório desde o início da carreira e fã declarada do país, a colombiana levou cerca de 2 milhões de pessoas às areias da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, na noite deste sábado, 2, segundo a Riotur. No entanto, com tanta baianidade transbordando no palco, o ‘Lobacabana’ estava mais para um ‘Sotero ou Bahialoba’, coroado por Caetano, Bethânia e Ivete, provando que, quando a realeza da nossa música sobe ao palco, até a Cidade Maravilhosa muda de sotaque.
Durante o evento, a Loba apresentou seus novos hits, claro, mas o êxtase do público bateu mesmo quando ela cantou seus maiores sucessos. Essas canções ganharam novas roupagens, um pouco mais tecnológicas, conversando diretamente com a arte do palco, que trouxe várias imagens (ainda que controversas) geradas por Inteligência Artificial.
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A maratona musical entregou tudo o que se esperava: teve Girl Like Me, Te Felicito e La Tortura. Em Estoy Aqui, o clima ferveu quando ela gritou “estoy aqui, Brasil” por cima de um arranjo meio tec, flertando abertamente com a música eletrônica. O caldeirão seguiu fervendo com Loca, Soltera, e Chantaje, que ganhou um delicioso arranjo de salsa.
Para os amantes da dança, a típica sequência arrebatadora de Hips Don’t Lie marcou presença, assim como Can’t Remember to Forget You. Mas um dos grandes ápices visuais foi Ojos Asi, que surgiu com um novo arranjo mais lento, sexy e tecnológico, servindo de cama para a icônica sequência de dança do ventre que conquistou fãs ao redor do mundo inteiro. A nostalgia bateu forte com Antologia e com Whenever, Wherever, que também apresentou uma introdução repaginada.
Tivemos até Anitta, chamada de “rainha” pela colombiana, dividindo os vocais na nova Choka Choka. E, para consagrar nosso ano de Copa do Mundo, Waka Waka se transformou em um número muito bonito nas cores canarinho, com Shakira praticamente abençoando a Seleção Brasileira.
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Uma loba no mar de Iemanjá
Com a lua cheia iluminando a noite, a loba até uivou para a sua alcateia ali no Rio de Janeiro. Mas parece mesmo é que a colombiana queria estar na Bahia. E faz todo o sentido: nascida em 2 de fevereiro – dia de Iemanjá, uma data poderosíssima e popular no nosso estado -, a conexão de Shakira com as águas e a cultura baiana foi o fio condutor das participações especiais: Caetano, Bethânia e Ivete.
O primeiro a subir ao palco foi Caetano Veloso. Emocionada, ela disparou: “um dos primeiros artistas que eu conheci. Tenho que confessar que me apaixonei pela sua música, sua voz, sua poesia […] Que honra, obrigada, Caetano, não posso acreditar”. Juntos, performaram a doce O Leãozinho, canção que ela revelou cantar sempre para o seu filho Milan.
Caetano Veloso e Shakira cantaram ‘O Leãozinho’! #ShakiraNaGlobo pic.twitter.com/6x5ZnhKnr5
— TV Globo 📺 (@tvglobo) May 3, 2026
Na sequência, veio a irmã, Maria Bethânia. Shakira lembrou que a voz da baiana atravessa gerações: “poucas vozes são como a dela”. Gentilmente, ajudou Bethânia a subir no palco e declarou: “muito obrigada por fazer essa música comigo, significa muito para mim”. O dueto em O Que É O Que É?, no entanto, resultou em um encontro meio desencontrado, e repleto de erros de execução.
Fechando a trindade baiana, Shakira repetiu o Rock in Rio de 2011 e chamou Ivete Sangalo: “minha amiga que eu amo”. Veveta, com sua irreverência habitual arrancou risadas soltas da anfitriã antes de cantarem País Tropical. Veja o registro:
Shakira; “Quero convidar ao palco uma mulher que carrega a alma do Brasil, uma mulher que tem uma atitude com a vida que quero imitar. ELA É MINHA AMIGA QUE EU AMO. IVETE SANGALO!!!!!!!!!!!”
“SHAKI, CHEGUEEEEI!!!!!!!!!!!”#ShakiranaGlobo pic.twitter.com/fwSutGYutr
— Sérgio Santos (@ZAMENZA) May 3, 2026
As mulheres já não choram
| Foto: AFP
As escolhas de Shakira exaltaram o Brasil, mas o palco também foi um palanque de desabafo e empoderamento. Ela conversou com seu público sobre feminismo, abordou de peito aberto a traição do ex-marido e fez jus ao nome da turnê, ‘Las Mujeres Ya No Lloran World Tour’.
“É um sonho para mim estar vivendo isso com vocês, definitivamente. Eu acho que a vida tem formas de recompensar a gente, né? E essa é uma delas! Vocês sabem que a minha vida não tem sido a mais fácil ultimamente, nos últimos anos, mas das quedas ninguém se salva. Nós, as mulheres, cada vez que caímos, nos levantamos um pouco mais sábias, um pouco mais fortes, um pouco mais resilientes. Porque as mulheres já não choram e, por isso, esse show vai ser dedicado para todas nós, afirmou.
E o recado tinha um endereço claro. Quando TQG tocou – faixa que se tornou um hino após a polêmica separação -, parte do público puxou em coro ofensas pesadas direcionadas ao ex-jogador Gerard Piqué, ex-companheiro da cantora e pai de seus filhos.
O discurso de Shakira ainda mergulhou na realidade social: “Sabe que o Brasil tem mais de 20 milhões de mulheres solteiras sem ajuda, que tem que lutar a cada dia para ajudar a sua família? Eu sou uma delas. Então esse show é dedicado para todas nós”. O contato foi tão direto que ela desceu para o meio do público, um momento que beirou o hilário devido ao desespero nítido dos seguranças.
Atrasos, telões e comparações
Shakira comprovou que segue sendo uma show woman: tocou violão, guitarra, dançou exaustivamente e, nos telões, passeou por sua carreira com vídeos antigos da juventude. Como a apresentação faz parte do projeto Todo Mundo no Rio, que trouxe Madonna (2024) e Lady Gaga (2025), o público das redes sociais não tardou a tecer comparações. Uma injustiça, diga-se. São artistas de perfis completamente diferentes. Madonna e Gaga têm uma forte inclinação às artes cênicas e ao cinema, enquanto Shakira sempre priorizou a essência latina da dança. Além disso, nenhuma das duas norte-americanas se arriscou em clássicos da música brasileira tão intensamente como a colombiana fez.
Mas o olhar crítico também é necessário. Houve transições meio abruptas entre uma música e outra, e as artes em IA exibidas nos telões eram, francamente, feias. Faltou um pouco de ensaio geral, e repito: ela deveria ter escolhido uma música mais fácil para cantar com Bethânia. Mesmo simbolicamente bonito – até mesmo pela música escolhida -, o encontro das duas foi marcado por um completo desalinhamento.
É preciso admitir que algumas mudanças nos arranjos de certos hits não caíram tão bem. A nova versão de Ojos Asi, por exemplo, fez o clássico terminar rápido demais, cortando o clímax e deixando o público com um gosto de frustração.
Muitos notaram uma Shaira meio apática e menos enérgica do que o habitual, mas há uma justificativa dura por trás disso. O show, marcado para as 21h45, começou oficialmente apenas às 23h05 (após um espetáculo de drones). Durante a transmissão, a Globo citou um “problema pessoal”. Contudo, segundo uma fonte do Correio Braziliense, o pai da cantora teve um mal-estar pouco antes de ela entrar no palco, forçando-a a pedir um tempo para se recuperar nos bastidores.
Diante desse cenário emocional, muitos reclamaram da falta de um corpo de balé no palco. Particularmente, acho que Shakira funciona incrivelmente bem sozinha, mas, com esse problema familiar de última hora, talvez tivesse sido melhor chamar o reforço dos dançarinos para dividir o peso da apresentação.
Por fim, a transmissão da emissora não ajudou. A captação reduziu muito o som do público, dando a falsa impressão de que a cantora estava sozinha na praia, e o diretor de imagem pecou em vários cortes, fazendo quem estava em casa perder momentos importantes do show.
Apesar dos defeitos técnicos e dos contratempos, a colombiana entregou um show gigante que valorizou o Brasil como poucas estrelas pop fazem. Mas o recado está dado: se ela tem 2 de fevereiro na certidão de nascimento e canta com a santíssima trindade baiana, a próxima parada é inevitável. Como decretou Ivete Sangalo em pleno palco carioca, fica aqui o convite para Salvador: “é carnaval de Shakira”. E por que não?