A estética, as músicas e as memórias de uma das décadas mais vibrantes do século passado viraram febre. A trend dos anos 80 está dominando as redes sociais e os aplicativos de vídeos curtos, provocando uma intensa onda de nostalgia até mesmo em quem não viveu a época.
Os penteados exagerados, as roupas coloridas e os clássicos da música voltaram com tudo, despertando a curiosidade sobre como era o cenário cultural e o entretenimento nas grandes capitais.
O que as pessoas ouviam em Salvador nos anos 80?
Em meio a essa febre digital, é fundamental resgatar a memória de quem vivenciou essa efervescência de perto. Antônio Pitta, radialista da A TARDE FM e voz inconfundível do programa Conversa Brasileira, sempre recheado de entrevistas exclusivas e um repertório que mescla clássicos e lançamentos, relembra a década como um verdadeiro rito de passagem.
Segundo Pitta, a década de 1980 foi um período de libertação. “Primeiro, a gente ficava muito na saia da mãe, na calça do pai, e aí começamos a montar o próprio repertório que gostávamos de ouvir. E, naturalmente, quando você começa a ouvir um determinado tipo de música, você acompanha outros elementos daquele movimento”, relata o radialista.
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Ele ressalta que o new wave estava muito presente e que Salvador possuía uma cena plural: “O rock era muito legal, tinha o punk, tudo junto e misturado, como é a nossa cidade. De repente, você ia para um show punk e tocava Iron Maiden. Ninguém achava ruim”.
A moda acompanhava as picapes. Pitta recorda com bom humor o estilo da juventude soteropolitana: “A gente usava aquele gel que tinha glitter no cabelo, gravata de crochê… A camisa era de manga longa, bem folgadona, calça também muito folgada, e o tênis, claro, tinha que ser aquele da marca famosa”. Em meio a essa mistura de new wave, rock nacional e a música independente que vinha da Inglaterra, os jovens traçavam seus caminhos e decidiam suas profissões.
Espaços culturais e danceterias que deixaram saudade
Naquela época, como destaca Antônio Pitta, a palavra “boate” muitas vezes dava lugar ao termo “danceteria”. Ele cita casas que fizeram história na cidade: Hippopotamus, Le Zodiaque, Maria Fumaça, Boa Lamur (Bual’Amour) e a inesquecível Close Up. Abaixo, detalhamos a localização e o perfil de cada um desses clássicos, a partir de registros da época:
Hippopotamus (ou “Hippo”)
Esta clássica casa noturna ficava localizada no Bahia Othon Palace, no bairro de Ondina. Conhecida pelo seu enorme glamour, era uma boate privê altamente concorrida. O figurino era rigoroso: o público não entrava vestindo calça jeans ou roupas informais; as mulheres costumavam usar vestidos elegantes com salto alto e os homens trajavam sapato social, frequentemente de terno e gravata. A trilha sonora dispensava bandas ao vivo e focava totalmente no DJ, que tocava lançamentos e sucessos internacionais de artistas como Madonna, Tears for Fears e A-ha. Além disso, os frequentadores das danceterias da época costumavam beber Cuba Libre e comer um famoso petisco chamado “sacanagem”, feito com azeitona, salsicha e queijo no palito.
Le Zodiaque (antiga Regine’s)
O clube ficava abrigado no hotel Le Méridien (prédio que mais tarde abrigou o Pestana), no Rio Vermelho. Tratava-se de um espaço muito chique e privê, que exigia a apresentação de uma carteirinha de sócio para entrar. Em sua fase inicial, sob o comando da belga Régine Choukroun, o espaço chegou a receber estrelas internacionais, como o ator francês Alain Delon. O som garantia a elegância da noite, embalando os presentes com Frank Sinatra sob o comando de profissionais como o DJ Carlinhos Muriçoca. No final dos anos 90, a casa se adaptaria às novidades e ajudaria a popularizar as cervejas long neck na capital.
Maria Fumaça
Localizada no bairro da Barra, esta boate tinha uma característica cenográfica marcante: funcionava dentro de uma cabine de trem instalada em pleno Farol da Barra. Era um dos programas favoritos da juventude de 18 e 19 anos. Como o local costumava limitar a entrada apenas para casais, o público frequentemente formava “casais falsos” ainda do lado de fora, fazendo com que a paquera já começasse na própria fila.
Bual’Amour
A danceteria ficava situada na Praia dos Corsários, na Avenida Otávio Mangabeira. Embora tivesse o mesmo nível de sofisticação, pompa e exigência visual das casas mais requintadas, ela se diferenciava por não funcionar como um clube privado, permitindo que qualquer pessoa disposta a se produzir pudesse entrar e aproveitar a festa.
Close Up
Também localizada na Barra, a boate é lembrada por Antônio Pitta como “a inesquecível, a que marcou a vida da galerinha da época”. O grande diferencial apontado pelo radialista era a Matinê, que permitia a entrada de menores de idade, oferecendo um ambiente saudável para os adolescentes dançarem e paquerarem. Consolidada como um ponto de encontro obrigatório nos anos 80, a casa contava com o DJ Wilson nas picapes, que “tocava de tudo” para manter a pista sempre cheia, segundo o relato de Pitta.