Salvador perdeu, na segunda-feira (19), Regina dos Santos Conceição, a Regina do Acarajé. Tinha 74 anos e 54 de tabuleiro. Com ela se vai a última da “Santíssima Trindade do Acarajé”, o trio que ela formava com Dinha e Cira e que fez do Rio Vermelho um território sagrado para quem ama o quitute. Dinha partiu em 2008; Cira, em 2020. Fecha-se, agora, uma geração inteira.
Escrevo como amigo, um entre os muitos que pararam diante do seu tabuleiro não apenas para comer o melhor acarajé da cidade, mas para receber um sorriso e uma palavra de afeto, distribuídos com a mesma generosidade com que ela servia o vatapá e o camarão.
Regina nasceu em 7 de setembro de 1952, neta de uma baiana de Pituaçu. Contava, rindo, que na juventude sonhava casar com um homem rico para nunca mais trabalhar. O destino tinha outro plano: foi a primeira entre as irmãs a aprender o ofício e, aos 19 anos, já era baiana na praia de Patamares. Um cliente lhe falou de um ponto vago na Graça, na Avenida Euclides da Cunha. Ali ficou treze anos, e ali o bairro a adotou. Depois vieram a Rua da Graça, o Largo da Vitória e, em 1998, o Rio Vermelho, onde seu nome passou a ser dito na mesma frase que os de Dinha e de Cira.
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Em mais de meio século, transformou um tabuleiro em sustento de cerca de trinta pessoas, entre a produção da massa em casa e os dois pontos de venda. “Todos ganham um dinheirinho”, dizia, com orgulho de matriarca. Mesmo quando a saúde a afastou das ruas, não largou a cozinha: ficava ali, orientando, para que saísse o melhor quitute da cidade.
O ofício das baianas de acarajé é Patrimônio Cultural do Brasil desde 2005 e patrimônio imaterial de Salvador desde 2012. Mas, muito antes de qualquer registro, mulheres como Regina já eram guardiãs dessa herança afro-baiana, vinda dos terreiros para as ruas. Cada acarajé que saiu de suas mãos foi um ato de preservação. A Prefeitura disse que Salvador é grata pela honra de ter sido a casa de Regina. Eu diria que Regina foi, ela própria, uma casa: onde cabiam todos, e de onde ninguém saía sem ser alimentado no corpo e no espírito.
Guardo, em especial, as lembranças da Lavagem da 8, festa de amigos com que celebramos a cultura baiana e a abertura do nosso ciclo de festas. Todos os anos Regina comparecia com seu grupo de baianas, belamente trajadas. Bastava aquele cortejo de rendas, turbantes e contas atravessar a porta para que todos entendessem que a Bahia inteira estava ali. Neste ano, haverá uma cadeira vazia e um brinde a ela.
Caymmi cantou que todo mundo gosta de acarajé, mas poucos conhecem o trabalho que dá para fazer. Regina conheceu esse trabalho por inteiro e nunca deixou que o peso dele apagasse a leveza do seu riso. Essa é a herança que deixa aos filhos, aos netos, às baianas mais jovens e a todos nós: fazer com amor o que se faz, e fazer até o fim.
Que Iansã, senhora das baianas, e o Deus da sua fé a recebam com a mesma alegria com que ela recebia cada um de nós. Salvador não a esquecerá.
*Sérgio Novais Dias é advogado