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produção recorde, mercados em expansão e um novo perfil de consumidor

Durante décadas, a cocaína esteve associada a determinados territórios, grupos criminosos e ambientes específicos de consumo. Era uma droga marcada por rotas conhecidas, mercados concentrados e uma cadeia de produção que parecia seguir um mapa previsível.

Esse cenário mudou.

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O mercado global da cocaína entrou em uma nova fase, marcada pela produção recorde, expansão internacional do tráfico e transformação no perfil de quem consome a droga. O que antes estava concentrado em grandes centros consumidores passou a alcançar novos países, novas camadas sociais e diferentes formas de uso.

O diagnóstico está no Relatório Mundial sobre Drogas 2026, do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), que aponta uma explosão na capacidade de produção da substância e uma reorganização das redes criminosas responsáveis pelo comércio ilegal.

Segundo o documento, a produção mundial de cocaína ultrapassou 4 mil toneladas em 2024, mais que quadruplicando em apenas dez anos.

O aumento não representa apenas mais droga disponível. Ele revela uma mudança na própria lógica do mercado ilegal: organizações criminosas passaram a operar como estruturas globais, buscando novos consumidores, novas rotas e novas formas de driblar as forças de segurança.

Uma indústria ilegal que se adapta ao mundo

O avanço da cocaína ocorre dentro de um cenário mais amplo analisado pela ONU: o fortalecimento das organizações criminosas diante de crises internacionais, instabilidades políticas e avanços tecnológicos.

Segundo o UNODC, traficantes passaram a utilizar novas ferramentas para esconder comunicações, testar rotas alternativas e ampliar a distribuição.

A lógica é semelhante à de qualquer mercado competitivo: quando uma rota fica mais difícil, outra é criada; quando um consumidor desaparece, outro mercado é procurado.

A diferença é que, nesse caso, a expansão acontece dentro de uma economia ilegal que movimenta centenas de bilhões de dólares por ano.

A cocaína deixou de ser apenas uma mercadoria produzida em uma região e consumida em outra. Ela passou a integrar uma cadeia internacional, com produção, transporte, distribuição e consumo espalhados por diferentes continentes.

Da América Latina para o mundo

A América Latina continua sendo o centro da produção da cocaína, mas o mercado deixou de estar restrito à região.

A ONU aponta que grupos criminosos estão direcionando volumes cada vez maiores para mercados tradicionais, como Europa Ocidental e Central, América do Norte e Oceania.

Ao mesmo tempo, novos territórios passaram a entrar no radar das organizações criminosas.

África e Ásia aparecem como exemplos dessa expansão. Mesmo com apreensões ainda menores quando comparadas aos grandes mercados consumidores, alguns países dessas regiões registraram algumas das maiores taxas de crescimento de apreensões de cocaína entre 2020 e 2024.

O movimento mostra uma tentativa das redes criminosas de ampliar sua base de consumidores antes que a oferta da droga ultrapasse a capacidade de absorção dos mercados tradicionais.

O consumidor mudou

A transformação mais silenciosa do mercado da cocaína não está apenas nas toneladas produzidas ou nas rotas internacionais. Está no perfil de quem usa.

O relatório aponta uma mudança no padrão de consumo: a droga deixou de estar limitada a determinados ambientes sociais e passou a fazer parte da rotina de diferentes grupos.

A cocaína, antes frequentemente associada à vida noturna e a momentos específicos de lazer, passou a ocupar outros espaços sociais.

Essa mudança acontece em um cenário de maior disponibilidade da substância e expansão das redes de distribuição.

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A estima é que 25 milhões de pessoas utilizaram cocaína em 2024. No mesmo período, o número total de pessoas que consumiram algum tipo de droga chegou a 331 milhões, equivalente a 6,2% da população mundial entre 15 e 64 anos.

A cannabis continua sendo a substância mais utilizada, seguida por opioides, anfetaminas, cocaína e ecstasy.

Mas, entre essas drogas, a cocaína chama atenção pela velocidade de crescimento do mercado, principalmente pela combinação entre aumento da produção e expansão das redes de distribuição.

Mais oferta, maior risco

A expansão do mercado também trouxe impactos para a saúde pública.

No Brasil, os dados apresentados pela ONU mostram uma mudança preocupante a partir de 2020, com aumento das mortes relacionadas a transtornos pelo uso de cocaína.

O crescimento acompanha a alta das apreensões da droga na América do Sul.

O relatório aponta crescimento considerável das mortes relacionadas a transtornos pelo uso de cocaína a partir de 2020, em paralelo ao aumento das apreensões da droga na América do Sul.

Entre 2018 e 2023, o período aparece como o mais crítico: as apreensões no continente chegaram próximas de 1.300 toneladas, enquanto o Brasil registrou números recordes de mortalidade associada ao consumo, aproximando-se de 270 mortes em um único ano.

Pureza, adulteração e os riscos ao usuário

No Brasil, estudos do UNODC em parceria com instituições nacionais mostram que entender a composição química da cocaína é fundamental para compreender esse mercado.

A pureza da droga influencia seu valor e sua circulação. Organizações criminosas costumam adicionar substâncias adulterantes para aumentar o volume comercializado ou modificar seus efeitos.

Análises identificaram compostos como cafeína, lidocaína, fenacetina, aminopirina e levamisol em amostras estudadas.

Para especialistas, compreender essa composição ajuda não apenas a investigar redes criminosas, mas também a avaliar riscos associados ao consumo.

O mercado que nunca para de mudar

Nesse sentido, o mercado mundial das drogas está em constante adaptação.

Enquanto novas substâncias sintéticas surgem para ocupar espaços deixados por outros produtos, drogas tradicionais como a cocaína encontram novas rotas e novos consumidores.

O resultado é uma economia ilegal cada vez mais complexa, capaz de se reorganizar diante de operações policiais, mudanças políticas e transformações sociais.

A cocaína que circula hoje pelo mundo não é apenas a mesma droga em maior quantidade.

É um mercado diferente: maior, mais internacionalizado e com um perfil de consumo que continua mudando.

O avanço do crack e a vulnerabilidade social

Outro ponto destacado é a mudança no consumo dos derivados da cocaína.

O relatório aponta crescimento do uso de crack entre populações socioeconomicamente vulneráveis, com registros de aumento contínuo desde 2015 em centros de tratamento da Europa Ocidental e Central.

A organização ressalta que os impactos do consumo não podem ser analisados apenas pela presença da droga. Questões como pobreza, situação de rua, problemas de saúde mental e dificuldade de acesso a serviços sociais e tratamento influenciam diretamente os padrões de uso.

Mercado que cresce mais rápido do que a capacidade de resposta

O cenário descrito pela ONU mostra que a cocaína deixou de ser um fenômeno concentrado em determinadas regiões e passou a integrar uma rede global.

A combinação entre produção recorde, novas rotas de tráfico e mudança no perfil dos usuários criou um dos mercados ilegais mais dinâmicos do mundo.

O desafio, segundo o relatório, passa por interromper as estruturas criminosas, mas também compreender os fatores sociais que levam pessoas ao consumo e ampliar ações de prevenção e tratamento.



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