Por que temos tanta preguiça de pensar?

A mente humana é tão genial que está sempre procurando um barranco para ficar encostada. E já passou do tempo de a gente reclamar dessa preguiça, isso é um fato dado.

Criamos rotina, vamos regularmente na mesma padaria, pedimos sempre o mesmo café e o atendente até sabe que somos o cliente que gosta de ovo com a gema meio mole e meio dura. Em algum momento da nossa infância decidimos que nosso sorvete favorito é o de chocolate ou de morango, e isso não é só uma questão de gosto, mas uma ferramenta para quando formos numa sorveteria maior, cheia de opções: pensamos pouco, pensamos rápido, porque a escolha já foi feita há anos. Devemos ter umas dez mil escolhas pré-prontas para diversas situações, além da dureza da gema do ovo: para a nossa direção religiosa ou política, para o corte de cabelo, a vestimenta e outras situações recorrentes.

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Quem aguenta ficar decidindo sempre, pensando sempre, cada vez a partir do zero? A dificuldade de pensar, ou a preguiça de fazê-lo, é tamanha que desenvolvemos essa tecnologia chamada algoritmo, onde os aplicativos de celular entendem o que gostamos e nos empurram mais daquilo. Daí que um conhecido meu chega em casa ao fim do dia e fica horas se reconfortando com influenciadores que repetem o que ele quer ouvir. E se ele gosta dos influenciadores é porque eles lhe dão algo mais importante do que a informação: eles lhe fornecem opinião, confiança.

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Ora, o mundo da informação é esse insuportável tiroteio de dados na internet. Já o mundo da opinião é mais confortável: Na hora de comprar um carro usado, a gente chama o cunhado. Para adquirir um imóvel, tira dúvidas com o sogro, e as mulheres da família também dão seus pitacos. Nada valida os conselhos, e certos familiares erram feio, mas a parentela é confiável para quem está perdido. A opinião dos outros é o Merthiolate, o Biotônico Fontoura, a Emulsão de Scotch, o remédio caseiro e tradicional que nenhum estudo científico consegue desautorizar, nem com provas robustas.

Também é costume do cérebro recorrer a atalhos mentais mais ou menos furados: uma imagem de revólver, de um leão e de uma águia são símbolos das forças de segurança, embora esses elementos só expressem agressividade. Mas convencionamos que o revólver e os animais serão usados contra os nossos inimigos. A figura mais usada para saúde é um estetoscópio, apesar de só encontrarmos esse aparelho na hora da doença. Porém está valendo, o importante é que o ícone funciona.

Tantos comportamentos solidificados nos tranquilizam. Como a crença de tanta gente num detergente predileto e incorruptível, e nos messias dos novos tempos. O que importa não é a qualidade das coisas ou das pessoas, mas a quantidade de vezes em que elas conseguem aparecer. Porque fica fácil lembrar delas.

Seguimos apenas sinais, como os insetos seguem rastros químicos deixados pelos seus semelhantes. Insistimos em colher a opinião alheia, como sempre ocorreu no passado histórico e mítico, apesar dos desastres deste método. O próprio Adão é exemplo de quem perdeu emprego e moradia porque foi na onda dos outros.

E assim caminha a humanidade. De fato, sem a opinião alheia estamos perdidos e sozinhos. Com ela também estamos perdidos, mas, pelo menos, saímos acompanhados do paraíso.

*Franklin Carvalho é autor de Tesserato – A tempestade a caminho (Ed. Noir)

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