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Por que temos que pagar pela inteligência artificial?

A Inteligência Artificial é uma tecnologia disruptiva e inaugura uma nova etapa no processo evolutivo da humanidade. A IA pode ser comparada às grandes tecnologias de propósito geral da história, a exemplo da máquina a vapor, que impulsionou a Revolução Industrial; da eletricidade, que reorganizou a produção e o consumo e deu monumental impulso à produtividade; e da internet, que conectou pessoas e mercados em escala global. Mas ela é ainda mais disruptiva do que as tecnologias anteriores – não apenas porque já está redefinindo a ordem política, econômica e cultural, mas, principalmente, porque tem o condão de automatizar a própria inteligência humana.

A IA já atua em todas as áreas do conhecimento. Sua influência na economia, na guerra, na medicina, na pesquisa científica e em todas as áreas da ação humana torna-se, a cada dia, imprescindível. E o mesmo pode ser dito com relação à cultura e à arte, pois a IA produz imagens, compõe músicas, escreve textos, desenvolve programas e interfere diretamente na produção cultural e artística.

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Por trás dessa revolução tecnológica existe, no entanto, uma questão raramente discutida. O que é a Inteligência Artificial e como ela surgiu?

Marx viu o futuro

A inteligência artificial surgiu do conhecimento humano cristalizado. Ela cria conhecimento operando sobre um imenso patrimônio intelectual acumulado pela humanidade ao longo de séculos. As novas gerações, quando acessam a IA, o fazem como se estivessem acessando uma máquina mágica criada do nada, esquecendo que a sabedoria ali engendrada é fruto do conhecimento acumulado por milhares de homens e mulheres ao longo dos séculos. Quando acessamos a tela luminosa do ChatGPT, do Gemini e do Claude, estamos vendo o rosto de Newton, Darwin, Einstein, Aristóteles, Freud, Marx, Copérnico, Maxwell, Turing e milhares de outros homens e mulheres que se dedicaram à pesquisa e ao conhecimento.

Pode-se, por exemplo, discordar de muita coisa dita pelo filósofo Karl Marx, mas não se pode esquecer de que ele, no longínquo ano de 1858, estabeleceu um conceito que prefigurava o que seria a inteligência artificial. Marx criou o conceito de general intellect para identificar o conhecimento acumulado pela humanidade, o saber social, a linguagem, a ciência, enfim, a história coletiva da humanidade, incorporada às máquinas e aos processos produtivos.

Pois bem, a inteligência artificial é, em grande medida, a materialização do general intellect. Trata-se do conhecimento humano cristalizado em algoritmos. Toda a capacidade cognitiva, todo padrão de reconhecimento, toda decisão “inteligente” da IA vem do trabalho humano acumulado historicamente e também do trabalho recente de programadores, cientistas e, sobretudo, de milhares de trabalhadores invisíveis que anotam dados, treinam modelos e moderam conteúdo.

Conhecimento não é batata

O paradoxo é que estamos permitindo que esse patrimônio coletivo esteja concentrado nas mãos de algumas poucas empresas, que passaram a controlar seu acesso, explorando-o economicamente. O conhecimento produzido ao longo dos séculos foi encarcerado em plataformas privadas e convertido em mercadoria. Então surge a inevitável pergunta: por que temos de pagar para ter acesso ao conhecimento acumulado pela humanidade?

O saber coletivo acumulado foi cristalizado em plataformas luminosas, transformado em mercadoria e vendido, como se fosse batata nas prateleiras da internet. Mas por que a humanidade tem de aceitar isso? Por que permitiu que cinco ou seis grandes corporações se apropriassem do conhecimento humano e o transformassem em mercadoria?

A Inteligência Artificial é uma conquista da humanidade. O problema é que ela foi apropriada e controlada pelo capital organizado em grandes big techs. Foi tomada por um poder desvinculado de quem a criou e de toda a sociedade. E, assim, a IA, que poderia reduzir a jornada de trabalho e liberar o tempo humano, acabar com o desperdício na produção e organizar uma sociedade em outros moldes, está convertendo-se em uma ferramenta cujo objetivo é concentrar a riqueza do mundo nas mãos de um pequeno grupo de empresas.

Controle total

A IA está tornando-se um instrumento de exploração ampliada, que não necessita mais de territórios, não está sujeita ao poder político e cujo objetivo é gerar lucro para algumas big techs. Os proprietários dessas empresas e dessa tecnologia – uma burguesia digital, diria Marx – tornaram-se latifundiários de feudos digitais no mundo inteiro e controlam territórios digitais com mão de ferro, preocupados apenas com a monetização.

O resultado disso pode ser uma concentração de riqueza sem precedentes, um desemprego estrutural massivo e um sistema político baseado no autoritarismo tecnológico, pois é preciso ressaltar que as big techs não controlam apenas os meios de produção; controlam também os meios de percepção, de comunicação e de reconhecimento social e podem transformar-se em uma ferramenta de vigilância e controle.

Se o processo de evolução da inteligência artificial permanecer sob o domínio unicamente mercantil, ela se tornará um instrumento de alienação e de concentração extrema da riqueza, o que, obrigatoriamente, estabelece a necessidade de discutir temas como a criação de modelos públicos de IA, o acesso universal a modelos treinados com conhecimento público e a governança internacional da IA.



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