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por que tantos adultos estão descobrindo o autismo agora?

O artista Gustavo Reis transformou sua vivência como autista em crítica social –

Durante boa parte da vida, há quem caminhe com a sensação difusa de não pertencimento. A dificuldade em se comunicar, a exaustão diante de interações sociais e a necessidade de rotinas rígidas são, muitas vezes, interpretadas como traços de personalidade. Só mais tarde, já na adolescência ou na vida adulta, essas experiências podem ganhar o nome de Transtorno do Espectro Autista (TEA).

O diagnóstico de autismo tem se tornado cada vez mais frequente no Brasil. De acordo com o Censo Escolar de 2024, as matrículas de estudantes com o transtorno do espectro autista cresceram mais de 20 vezes na última década.

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Embora não haja dados oficiais específicos sobre diagnóstico tardio, especialistas apontam que o crescimento expressivo dos diagnósticos no país tem exposto uma demanda reprimida de adultos que passaram a vida sem identificação.

Para a neuropsicóloga Meire Queirós, o problema não está no excesso de diagnósticos, mas na forma como o autismo foi, por muito tempo, interpretado. “O diagnóstico tardio ocorre quando o autismo não é identificado logo na primeira infância”, explica. “Isso geralmente acontece não pela ausência de sinais, mas pela dificuldade em reconhecê-los”.

Segundo ela, fatores culturais ainda pesam nesse atraso: “No Brasil, isso ainda é muito comum por três fatores principais: falta de informação qualificada, profissionais pouco capacitados para identificar sinais mais sutis e uma cultura que normaliza comportamentos atípicos como ‘timidez’, ‘gênio forte’ ou ‘fase da criança’”.

Esse olhar tardio tem consequências profundas, de acordo com a especialista. Antes do diagnóstico, muitas pessoas crescem se sentindo inadequadas, o que frequentemente leva a ansiedade, baixa autoestima e até quadros depressivos.

Quando o diagnóstico finalmente chega, costuma vir acompanhado de sentimentos ambíguos. “Existe um misto de alívio e luto. Alívio por finalmente entender a própria história e luto pelo tempo perdido sem suporte adequado”, diz Meire.

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Realidade

Na prática clínica, esse atraso também se traduz em desafios mais complexos. À frente da Clínica Fluence, em Lauro de Freitas, a fonoaudióloga e CEO Ester J. Azevedo acompanha de perto esses casos. “O diagnóstico tardio ainda é uma realidade”, afirma.

“Na prática, elas chegam com padrões de comportamento mais rígidos, mais dificuldade de comunicação funcional e de regulação emocional, e muitas vezes já com outras condições associadas”.

Segundo ela, o impacto do tempo perdido é significativo. Quando a intervenção não acontece cedo, o desenvolvimento e a aquisição de habilidades são impactados.

“A atuação multidisciplinar é essencial porque o autismo envolve diferentes áreas do desenvolvimento. Nos casos de diagnóstico tardio, isso se torna ainda mais importante”, destaca Ester.

nquanto especialistas defendem a ampliação do olhar sobre o autismo, parte da sociedade questiona os limites do espectro. A ideia de que “todo mundo é um pouco autista” circula com frequência, o que, para muitos, dilui a compreensão sobre o transtorno.

Para Meire, esse raciocínio simplifica uma realidade complexa. “O autismo não é um mundo à parte, mas uma maneira diferente de vivenciar o mesmo mundo. O foco está em compreender, e não em buscar supostas curas”.

Em Salvador, no mês mundial de conscientização sobre o TEA, há exposições de artes visuais que reforçam a importância da sensibilização da sociedade sobre o assunto [veja no Box] e também revelam perspectivas singulares.

O artista visual Gustavo Reis está em cartaz no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), até 7 de junho, com a exposição Sem Humanidade, em que transforma sua vivência como autista em crítica social. Para ele, o diagnóstico não resolve tudo. “O que mais importa não é falar em diagnóstico, é falar em empatia”, diz. “Descobrir é um fato, mas só melhora quando aprendem a respeitar as necessidades do outro”.

A obra de Gustavo dialoga diretamente com experiências de invisibilização. “A exposição fala do que dói quando te tratam como se você não existisse”, explica. “Quando você cria, você não precisa explicar porque a expressão livre é exatamente isso”.

Mudança completa

Obra de Gustavo dialoga diretamente com experiências de invisibilização | Foto: Raphael Muller | Ag. A TARDE

Se o diagnóstico tardio revela histórias individuais, ele também expõe um desafio coletivo: transformar informação em mudança concreta. O psicólogo Fábio Coelho, um dos fundadores da Academia do Autismo, voltada à formação de pais, professores e terapeutas, tem atuado justamente nesse campo, articulando formação, mobilização social e apoio a famílias.

Em 2025, ele participou da organização da Caminhada pela Conscientização, Inclusão e Acessibilidade sobre o Autismo, em Lauro de Freitas. A iniciativa reuniu famílias, profissionais e apoiadores. Para ele, ações como essa têm um papel central na transformação do debate público.

“Quando a sociedade vê famílias, profissionais e apoiadores reunidos em um espaço público, ela percebe que o TEA não é um tema restrito ao ambiente clínico ou familiar, mas uma pauta social que precisa ser compreendida por todos”, afirma.

Além da visibilidade, ele destaca o potencial de redução de estigmas. Para ele, iniciativas como a caminhada ajudam a reduzir preconceitos e aproximar a população de uma visão mais humana sobre o autismo. Apesar dos avanços, Fábio aponta que ainda há lacunas importantes. Para o psicólogo, falta transformar o discurso da inclusão em prática cotidiana.

“O Brasil ainda precisa melhorar muito em acessibilidade sensorial, adaptação de ambientes, formação de profissionais e preparo das escolas”, conta.

“Temos avançado na conscientização, mas o Brasil ainda precisa melhorar muito em acessibilidade sensorial, adaptação de ambientes, formação de profissionais e preparo das escolas”.

Para ele, inclusão deve envolver participação com dignidade, segurança, acolhimento e oportunidades reais de desenvolvimento.

A atuação da Academia do Autismo, de acordo com ele, nasce justamente dessa necessidade. Fábio explica que o trabalho se traduz em cursos, eventos, materiais educativos e formação continuada, com o objetivo de capacitar pessoas para promover intervenções mais qualificadas e uma inclusão mais efetiva.

O profissional também observa mudanças na forma como a sociedade tem lidado com o tema. “Hoje existe mais interesse em entender o autismo, mais famílias buscando orientação e mais instituições reconhecendo a necessidade de aprender e se adaptar”, afirma. Ainda assim, ele pondera que o caminho é longo. “O estigma diminui quando a informação correta circula, mas ele não desaparece de uma vez”.

Além dos rótulos

Uma iniciativa que dialoga diretamente com essa defesa da informação como ferramenta de transformação é o livro O mundo pelo meu olhar: perspectivas que ampliam a compreensão sobre o autismo, lançado este mês por Meire Queirós.

A obra reúne diferentes vozes para ampliar o entendimento sobre o espectro para além dos rótulos clínicos, aproximando teoria e vivência.

Se o diagnóstico tardio traz desafios, também abre caminhos. Para Meire, ele pode ser transformador. “Ele permite que a pessoa ressignifique sua trajetória, abandone culpas que nunca foram dela e passe a construir estratégias mais adequadas para sua realidade”, explica. “Entender quem você é muda completamente a forma como você vive”.

Mas especialistas são unânimes: o ideal ainda é identificar o autismo o mais cedo possível. E isso passa, necessariamente, por escuta. Para Meire, famílias precisam confiar mais na própria percepção e buscar avaliação quando algo foge do esperado, e escolas devem observar comportamento, interação social e regulação emocional.

“Quanto mais cedo a gente escuta a criança, menor é o risco de silenciar um diagnóstico. O desafio talvez não seja definir os limites do espectro, mas expandir os limites da escuta”, comenta.

Serviço

Exposição: “Sem Humanidade”, de Gustavo Reis

Local: Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), na Galeria Capela

Endereço: Av. Lafayete Coutinho – Comércio

Visitação: Até 7 de junho

Horário: Terça a domingo, das 10h às 18h

Exposição: Bernardo Ribeiro Tochilovsky

A exposição de Bernardo Ribeiro Tochilovsky transforma o Espaço Acolher em um convite à escuta sensível. Por meio de cores, formas e texturas, o artista baiano apresenta obras que ampliam a compreensão sobre o autismo e reforçam a arte como linguagem de expressão, inclusão e protagonismo.

Local: Espaço Acolher (piso L2), Salvador Shopping

Período: até 25 de abril de 2026

Funcionamento: Segunda a sábado: 9h às 22h, Domingo: 12h às 21h

Entrada: gratuita

Exposição: Desconstruções, de Ludmilla Sena

A exposição Desconstruções propõe um novo olhar sobre o autismo na vida adulta. Idealizada por Ludmilla Sena, artista visual autista, a mostra usa a fotografia para ampliar vozes pouco ouvidas, desafiando estereótipos e promovendo visibilidade, diálogo e compreensão sobre o TEA em suas diferentes nuances.

Local: Biblioteca Pública do Estado da Bahia (Barris)

Período: até 24 de abril de 2026

Entrada: gratuita



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