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por que sofrimento emocional e suicídio aparecem tanto nas histórias?

Por trás de aventuras, fantasias e histórias voltadas ao público jovem, alguns animes também revelam um lado mais difícil de acompanhar: o sofrimento emocional. Animes como Wonder Egg Priority, Orange, Given, Welcome to the N.H.K., Paranoia Agent e Serial Experiments Lain abordam, de diferentes maneiras, temas como depressão, isolamento, trauma, autolesão, luto e suicídio.

Para quem assiste, essas representações podem provocar identificação e abrir espaço para conversas sobre saúde mental, mas também podem gerar impactos negativos, especialmente entre pessoas que já estão em situação de vulnerabilidade.

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A discussão ganha espaço durante o Setembro Amarelo, campanha de prevenção ao suicídio que vem recebendo cada vez mais notoriedade no Brasil. O dia 10 de setembro é oficialmente marcado como o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, mas as iniciativas de prevenção acontecem durante todo o ano.

Segundo levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM) com base em dados do DataSUS, o número de mortes por suicídio no Brasil mais que dobrou em quase três décadas, saltando de 6.743 casos em 1996 para 16.751 em 2024, um aumento de 148%, com o recorde histórico registrado em 2023, quando o país chegou a 17 mil mortes.

O levantamento mostra ainda que cerca de 80% das vítimas são homens, que adultos de 20 a 59 anos concentram quase dois terços dos casos (com destaque para a faixa de 30 a 39 anos, a mais afetada), que 62% das mortes ocorrem dentro de casa e que o Sudeste concentra a maior parte dos óbitos em números absolutos (33%), seguido por Nordeste, Sul, Centro-Oeste e Norte.

Quando o sofrimento vira parte da narrativa

O sofrimento psicológico aparece nos animes de maneiras distintas. Em algumas obras, ele está diretamente ligado ao desenvolvimento da trama; em outras, funciona como elemento para compreender a trajetória de determinado personagem ou as consequências de acontecimentos traumáticos.

Em Wonder Egg Priority (2021), por exemplo, o suicídio está entre os temas centrais da narrativa. Logo no início, é revelado que Koito Nagase morreu por suicídio, e a produção apresenta outras personagens que também morreram dessa forma. Já Orange (2016) constrói sua história em torno do suicídio de Kakeru, apresentando sua ideação suicida e uma tentativa enquanto os protagonistas procuram impedir que ele morra.

Em Given (2019), o passado de Mafuyu é atravessado pela morte de Yuki Yoshida, seu antigo namorado, e pelas lembranças relacionadas ao acontecimento. A produção utiliza o luto como elemento fundamental para desenvolver o personagem e suas relações.

Para um homem de 31 anos, que prefere não ser identificado e que vive com depressão, essa variedade de abordagens faz diferença. “Acho que alguns animes conseguem tratar esses assuntos de uma maneira bastante profunda, principalmente mostrando como a pessoa vai se afastando dos outros e tendo dificuldade para falar sobre o que sente”, afirma, em entrevista ao Cineinsite A TARDE.

“Mas também existem obras que usam esses temas mais para criar impacto na história, sem necessariamente aprofundar as consequências”, completou.

A diferença entre essas duas formas de representação está justamente na maneira como o sofrimento é desenvolvido. Para o entrevistado, uma história pode abordar a dor emocional sem necessariamente transformar o personagem em uma explicação simplificada sobre depressão.

“Para mim, o mais importante foi perceber que determinados sentimentos que eu achava difíceis de explicar também apareciam em outras histórias”, conta.

“Não foi exatamente uma identificação com uma situação específica, mas ajudou a entender que sentimentos como vazio e isolamento não eram algo que eu precisava esconder o tempo inteiro”, afirma.

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Identificação pode aproximar, mas também exige cuidado

A identificação é uma das possibilidades mais citadas por quem consome histórias sobre sofrimento psicológico. Para uma mulher de 22 anos, também não identificada, assistir a determinadas narrativas pode produzir uma sensação de acolhimento justamente quando conversar com outras pessoas parece difícil.

“Eu vejo bastante diferença entre as obras. Algumas representam esses sentimentos de forma muito subjetiva, usando a própria narrativa, o silêncio e a ambientação para mostrar como a pessoa está. Outras são mais diretas”, explica.

“Para mim, quando o anime consegue transmitir a sensação de isolamento sem precisar explicar tudo, o impacto acaba sendo maior”, disse.

Ela também relata que algumas histórias já provocaram uma sensação de compreensão em momentos de dificuldade. “Já aconteceu comigo, principalmente em períodos em que eu estava com dificuldade de conversar com outras pessoas. Assistir a alguma história que abordava sentimentos parecidos me dava uma sensação de acolhimento”.

“Era reconfortante ter algumas horas em que eu conseguia pensar sobre aquilo sem precisar necessariamente falar sobre mim”, completa.

Cena de Orange
Cena de Orange – Foto: Divulgação

A possibilidade de encontrar na ficção uma linguagem para sentimentos difíceis de expressar também é apontada pelo homem de 31 anos. “Acredito que pode ajudar a iniciar uma conversa. Às vezes uma pessoa não consegue falar diretamente sobre depressão, mas consegue comentar sobre uma cena ou sobre como determinado anime tratou o assunto. Isso pode ser uma porta de entrada para falar sobre o que ela mesma está vivendo”, disse.

Para Gabriela Ferreira Actis, terapeuta cognitivo-comportamental, essas representações podem ter um papel positivo justamente quando contribuem para que a pessoa procure ajuda.

“Essas representações podem ajudar a pessoa a dar o passo inicial na procura por uma ajuda profissional, onde poderá se fortalecer através de intervenções diante do seu sofrimento, criando estratégias e recursos internos”, afirmou a terapeuta.

Terapeuta Gabriela Ferreira Actis
Terapeuta Gabriela Ferreira Actis – Foto: Acervo Pessoal

Algumas plataformas de streaming ouvidas pelo Cineinsite afirmaram que seguem as normas de classificação indicativa do Ministério da Justiça para as obras disponíveis em seus catálogos, com a exibição das classificações e das descrições de conteúdo, incluindo temas sensíveis. A sinalização tem como objetivo informar previamente o público sobre os assuntos abordados e auxiliar os espectadores a fazerem escolhas conscientes antes de assistir.

As plataformas, que pediram para não ser identificadas, também ressaltaram que os animes apresentam uma ampla variedade de histórias, incluindo produções que abordam temas como luto, isolamento e outras questões relacionadas à saúde mental.

Quando a identificação passa a alimentar o sofrimento

O mesmo conteúdo que pode gerar acolhimento também pode produzir outro efeito. O contexto individual de quem assiste, segundo os entrevistados e os profissionais ouvidos, é fundamental para entender como uma representação será recebida.

“Depende muito da forma como a pessoa recebe aquilo. Pode ser positivo para refletir sobre sentimentos e até procurar ajuda, mas também pode acontecer de alguém que já está fragilizado interpretar determinadas situações de uma maneira negativa. Por isso, acho importante existir responsabilidade na forma como esses assuntos são retratados”, afirma a mulher de 22 anos.

Um estudante de 19 anos, que também prefere não ser identificado, apresenta uma experiência diferente. Para ele, a identificação com uma obra nem sempre funcionou como acolhimento.

“Não diria que foi necessariamente uma coisa boa. Às vezes eu assistia justamente porque queria ficar imerso naquele tipo de sentimento. Em alguns momentos, parecia mais fácil permanecer naquela atmosfera do que tentar sair dela”, afirmou.

“Então acho que existe uma diferença entre se sentir compreendido por uma obra e usar a obra para continuar alimentando aquilo que você está sentindo”, disse.

A preocupação também é compartilhada por Gabriela. “Imitando comportamentos disfuncionais vistos nesses filmes, séries, redes sociais, e aumentando esse sofrimento já pré existente diante de angústias e desesperanças por isso sempre importante que diante de sofrimento emocional o acompanhamento psicológico, assim como a orientação de adultos e responsáveis”.

Cena de Welcome to the N.H.K.
Cena de Welcome to the N.H.K. – Foto: Divulgação

Segundo ela, um risco aparece principalmente quando a narrativa transmite a impressão de que determinados comportamentos poderiam resolver uma situação de sofrimento.

“Principalmente quando as informações são passadas como algo que acalente e conforte a situação que vem sendo vivenciada, que passe uma falsa sensação de que com aquele comportamento disfuncional tudo ficará bem, especialmente em pessoas em vulnerabilidade emocional”, disse a terapeuta.

Suicídio também aparece em histórias sobre trauma e solidão

Alguns dos exemplos citados na pauta mostram que o tema não aparece necessariamente isolado de outros sofrimentos. Welcome to the N.H.K. (2006), por exemplo, aborda diretamente um pacto suicida e também apresenta tentativas de suicídio. Paranoia Agent (2004), por sua vez, acompanha três pessoas que se conhecem pela internet e formam um pacto suicida.

Em Aoi Bungaku Series (2009), as tentativas de suicídio e um suicídio integram a adaptação da obra literária de Osamu Dazai. Já Myself; Yourself (2007) apresenta duas tentativas de suicídio importantes para sua história.

Há ainda produções em que o tema aparece associado à manipulação, ao fanatismo e à construção narrativa. Em Death Note (2006), Teru Mikami comete suicídio após a derrota de Light. O anime também apresenta a morte voluntária como consequência do poder do Death Note, utilizado por Light para determinar mortes e suas circunstâncias.

Cena de Death Note
Cena de Death Note – Foto: Divulgação

Em Neon Genesis Evangelion, o suicídio de Naoko Akagi, mãe de Ritsuko, faz parte do passado que ajuda a compreender o trauma da personagem e sua relação com Gendo Ikari.

Outro caso é Serial Experiments Lain (1998), que começa com a morte por suicídio de Chisa Yomoda. Posteriormente, o tema volta associado à Wired e ao grupo Knights, aproximando suicídio, internet, isolamento e identidade.

Para João Pedro Carvalho Araújo, psicólogo formado pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP) em 2022, pós-graduado em Intervenções e Cuidados a Crises Suicidas, Psicologia Infantil e Psicologia Clínica, além de pesquisador na área de suicidologia, a forma como alguns animes constroem esses arcos merece atenção.

“Durante a juventude, o ego e a identidade ainda estão em formação, e com isso os jovens encontram-se muito permeáveis aos conteúdos expostos pelo mundo, e do próprio inconsciente”, disse o especialista.

Para esse grupo que já vive a angústia da depressão ou da ansiedade, a exposição contínua a cenas de violência e autolesão pode inundar a consciência com imagens sombrias João Pedro Carvalho Araújo – Psicólogo pós graduado em Intervenções e Cuidados a Crises Suicidas

Psicólogo João Pedro Carvalho Araújo
Psicólogo João Pedro Carvalho Araújo – Foto: Acervo Pessoal

Segundo o profissional, esse impacto pode ser ainda mais complexo quando existe identificação com personagens. “O ego fragilizado perde a capacidade de filtrar estímulos nocivos, o que pode acarretar em pensamentos, idealizações e ações destrutivas. A dor interna profunda encontra um espelho no mundo externo, aumentando a sensação de desespero, sobrecarga e aprisionamento.”

Ele também chama atenção para a maneira como alguns animes utilizam o sofrimento como elemento dramático.

“Quando nos deparamos com um conteúdo com teor depressivo e violento (com o mundo ou a si mesmo), a identificação ocorre, junto a ela a absorção do sofrimento da obra, principalmente quando exagerado, como ocorre em alguns animes que se utilizam do sofrimento e desespero como os maiores arcos de superação e/ou redenção dos personagens, especialmente do protagonista ou do antagonista carismático”, disse.

Entre representação e romantização

Para os entrevistados, não existe uma linha simples entre mostrar sofrimento e romantizá-lo. O contexto e as consequências apresentadas pela obra são fundamentais.

“O problema aparece quando o sofrimento vira apenas um recurso para deixar a história mais emocionante”, afirma o homem de 31 anos. “Se a obra mostra a depressão, mas não mostra o impacto dela nas relações, na rotina e na vida da pessoa, pode acabar passando uma visão muito limitada. Acho que é importante mostrar que não existe nada glamouroso em estar mal.”

A mulher de 22 anos também aponta a importância de apresentar as consequências.“O limite está principalmente na consequência. Quando a obra mostra apenas a parte ‘bonita’ ou intensa do sofrimento e não mostra o quanto aquilo pode destruir a rotina de alguém, acho que existe uma romantização.”

“Acho perigoso quando comportamentos autodestrutivos parecem ser apresentados como uma solução ou como algo inevitável”, completou.

Cena de Welcome to the N.H.K.
Cena de Welcome to the N.H.K. – Foto: Divulgação

Já o homem de 19 anos questiona a ideia de que toda representação precise assumir uma função educativa. “Acho que é complicado porque o que para uma pessoa é romantização, para outra pode ser simplesmente uma representação honesta. Eu não gosto quando tentam transformar toda obra que mostra sofrimento em uma espécie de lição de moral”.

Ao mesmo tempo, ele reconhece que a estética do sofrimento pode se tornar problemática. “Mas também acho problemático quando o sofrimento vira uma estética e a pessoa começa a achar que quanto pior estiver, mais interessante ou especial ela é”.

Cena de Mushoku Tensei
Cena de Mushoku Tensei – Foto: Divulgação

Para o psicólogo João Pedro, o limite está na maneira como a ação e suas consequências são apresentadas. O psicólogo cita Mushoku Tensei como exemplo de uma narrativa que apresenta o sofrimento de Rudeus por meio de isolamento e autodepreciação, incluindo uma tentativa de suicídio.

“Após esse arco, o Rudeus se encontra deprimido, e segue a vida infeliz, sustentando-se apenas em um objetivo, se fortalecer para conseguir reunir sua família”, disse.

“Somente quando encontra a validação vinda por outra pessoa, que Rudeus consegue conviver com o que lhe entristecia, realizando que não passava de uma interpretação mal resolvida dos fatos da vida, e da sua antiga falta de possibilidades de resolver algumas das questões”, completou.

Para o profissional, porém, a discussão vai além dos animes. “Ou estejamos falando de representações na mídia. Esta se faz mais dúbia, uma vez que o retratar é importante, dar visibilidade aos fatos para pensar-se coletivamente em como auxiliar nas prevenções e cuidados.”

“Por outro lado, o anúncio de suicídios, principalmente quando acometido de detalhes – como foi feito, onde e quando – podem gerar sugestões, ou incentivos a demais pessoas realizarem”.

Uma representação cuidadosa e responsável se faz de forma delicada, relatando o acontecido sem expor a forma e causa, não gerando incentivos e opções diretamente. João Pedro Carvalho Araújo – Psicólogo pós graduado em Intervenções e Cuidados a Crises Suicidas

João Pedro ressalta, ainda, que não existe consenso absoluto dentro da área. “Importante a ressalva de que esta é uma discussão constante e complexa no academicismo da suicidologia, uma vez que parte defende a exposição, parcial e cuidadosa, e parte defende o absoluto silêncio e sigilo nesses casos”.

Quando o sofrimento também abre espaço para o cuidado

Apesar dos riscos, o psicólogo destaca que a representação do sofrimento pode produzir reflexões positivas. Para explicar essa possibilidade, ele recorre a um dos maiores fenômenos da cultura pop japonesa: One Piece.

Na obra, Luffy enfrenta a perda do irmão Ace e passa por um momento de choque, desespero e raiva. A cena, segundo João Pedro, mostra o personagem reagindo fisicamente ao sofrimento até ser interrompido por Jinbe.

“Somente quando Jinbe agarra Luffy e diz ‘Não pense apenas no que você perdeu! O que ainda te resta?’ e relembra-o de seu bando, dos seus outros amigos que precisam dele e das suas responsabilidades enquanto capitão do bando e de seu sonho, Luffy consegue sustentar seu sofrimento e desenvolver sua vida”, disse o terapeuta.

“Luffy não esquece o luto, muito menos o que a morte de Ace provocou nele, muito pelo contrário, se fortalece e se esforça para tentar garantir que aquilo não ocorra novamente”, afirma.

Para o psicólogo, a importância dessa cena está justamente em apresentar o sofrimento sem fazer dele o destino final do personagem. “A chamada de Jinbe para Luffy é um dos principais momentos em que se faz fundamental o reconhecimento sobre saúde mental e reconhecimento de si”.

“Os arcos de superação que se utilizam do sofrimento como fator, em que geram, de fato, uma melhora na qualidade de vida e saúde mental das personagens, podem sim ter um efeito positivo na população que os consome”, disse.

Cena de Paranoia Agent
Cena de Paranoia Agent – Foto: Divulgação

Outras obras também podem trabalhar o apoio como resposta ao sofrimento. “Ou obras como Fairy Tail, em que ocorrem sofrimentos constantes, e apesar do uso da violência, são resolvidos através da união de personagens ou afeto dos quais lhes são queridos, repassando a importância do apoio mútuo”.

O psicólogo lembra ainda de expressões criadas pelos próprios fãs para resumir esse tipo de resolução narrativa. “Existem algumas piadas desenvolvidas pelo grupo que consome essas obras para esses momentos, como o “poder da amizade”, ou o “Conversa no jutsu”, referenciando a obra Naruto, e como o personagem principal, apesar de usar a força, tenta constantemente resolver na conversa, convencendo e/ou compreendendo o adversário”.

Cena de Fairy Tail
Cena de Fairy Tail – Foto: Divulgação

Segundo João Pedro, mesmo quando esses momentos são tratados de maneira descontraída pelo público, podem carregar uma mensagem relevante. “Apesar do descaso com esses momentos, são passadas intenções e ideias que podem ser consideradas positivas nesse cenário”.

O espelho, chamado na Psicologia de transferência, se faz para toda e qualquer situação que o inconsciente se identifique, ou seja uma boa exploração desses momentos nas obras, pode gerar um incentivo a cuidados e resoluções não necessariamente violentas e nocivas. João Pedro Carvalho Araújo – Psicólogo pós-graduado em Intervenções e Cuidados a Crises Suicidas

Os sinais de que é hora de parar e pedir ajuda

A relação com uma obra também pode mudar ao longo do tempo. Segundo João Pedro, é importante observar quando assistir deixa de ser uma atividade de reflexão ou entretenimento e passa a ocupar outro lugar na rotina. “O impacto negativo se revela quando a obra deixa de ser um recurso para reflexão ou diversão”.

Sinais de alerta podem incluir o isolamento profundo, a fascinação obsessiva por conteúdos mórbidos, a adoção das falas do personagem trágico, a apatia prolongada e mudanças bruscas nos hábitos de sono ou alimentação, dentre outros. João Pedro Carvalho Araújo – Psicólogo pós graduado em Intervenções e Cuidados a Crises Suicidas

O profissional recomenda atenção especialmente quando essas mudanças aparecem associadas à perda de esperança. “A intervenção de familiares e amigos deve ocorrer ao menor sinal de que o indivíduo perdeu a esperança no futuro ou quando sustenta esses sintomas por muito tempo. Especialmente, neste caso, quando ocorrem os sintomas após começar a assistir algo novo”.

Gabriela Actis também cita alterações que podem indicar que o conteúdo está contribuindo para um agravamento do sofrimento. “Mudanças de humor e comportamento, alterações no ciclo vigília, atenção, memória, aumento da ansiedade, isolamento social. E em caso de risco imediato procurar uma emergência”.

Para João Pedro, a atuação profissional deve considerar o risco à vida e também o significado que aquela obra adquiriu para a pessoa. “Enquanto profissionais de Psicoterapia, devemos nos atentar a intervenção direta quando ocorrer um risco à vida, incentivando uma comunicação com a rede de apoio ou um alerta direto visando o cuidado com o sujeito e ética como diz a Resolução CFP 10/2005.”

“Não estamos falando aqui de uma quebra de sigilo, mas sim de uma extensão da rede de cuidados”, completa o psicólogo.

Além da intervenção diante de um risco imediato, o psicólogo defende que o conteúdo consumido seja compreendido dentro da realidade daquele indivíduo. “Para além, trabalhar com o sujeito o que isso representa a ele, como tem o influenciado e como se comportam os sintomas após o consumo da obra”.

Quando a ficção encontra a vida real

A presença de suicídio, depressão e autolesão em animes não significa, por si só, que uma produção seja prejudicial ou responsável. As obras utilizam esses elementos com diferentes objetivos: construir personagens, representar traumas, provocar reflexão, desenvolver conflitos ou mostrar consequências.

A recepção também não é uniforme. Para alguns espectadores, uma história pode oferecer uma linguagem para sentimentos difíceis de explicar. Para outros, pode aprofundar uma identificação negativa com personagens e atmosferas de sofrimento.

“Existe uma diferença entre se sentir compreendido por uma obra e usar a obra para continuar alimentando aquilo que você está sentindo”, resume o estudante de 19 anos.

Cena de Fairy Tail
Cena de Fairy Tail – Foto: Divulgação

A mulher de 22 anos também resume a complexidade dessa relação: “Por isso, acho importante existir responsabilidade na forma como esses assuntos são retratados”. E, para o homem de 31 anos, a principal fronteira está na maneira como a dor é apresentada: “Acho que é importante mostrar que não existe nada glamouroso em estar mal”.

Classificação indicativa dos animes citados

  • Wonder Egg Priority, 16 anos
  • Orange, 14 anos
  • Given, 16 anos
  • Welcome to the N.H.K., 18 anos
  • Paranoia Agent, 18 anos
  • Serial Experiments Lain, 14 anos
  • Death Note, 16 anos
  • Neon Genesis Evangelion, 14 anos
  • Mushoku Tensei, 16 anos
  • One Piece, 14 anos
  • Fairy Tail, 14 anos
  • Naruto, 14 anos

As classificações podem variar conforme a plataforma, a temporada e a versão disponibilizada.

Como buscar apoio?

  • Centro de Valorização da Vida (CVV): Ligue 188 (disponível 24h por dia, em todo o país) ou acesse o chat no site cvv.org.br.
  • Centros de Atenção Psicossocial (Caps): Procure a unidade de saúde mental mais próxima em seu município.
  • Emergências: Em casos de crise imediata, entre em contato com o Samu (192) ou procure a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima.



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