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os bastidores da demissão em massa no Hospital da Bahia

O Hospital da Bahia, pertencente à Rede Américas, planeja o desligamento de 33 técnicos em radiologia e uma biomédica, com início programado para agosto de 2026. Por trás da ação da empresa estaria a busca pela contratação de profissionais em novo regime trabalhista e até mesmo a realização de exames a distância, conforme denunciam os profissionais.

O que você vai ler nesta reportagem

  • Hospital da Bahia planeja demitir 33 técnicos de radiologia, visando troca por profissionais em regime Pessoa Jurídica (PJ).
  • SINDIMAGEM-BA denunciou a gestão do hospital por tentar substituir o corpo técnico local por terceirização e falta de negociação coletiva sobre as demissões.
  • A empresa faltou a uma audiência no Ministério Público do Trabalho (MPT) e a ata da reunião com o sindicato foi alterada, sugerindo concordância com os cortes.
  • Hospital planeja exames remotos via Telemedicina, o que fere a RDC 611/2022 da Anvisa, que exige supervisão e presença física nas salas de comando.
  • Em nota, o hospital justifica a demissão como parte de uma reestruturação financeira, mas nega mudanças no atendimento para operação remota.

O Sindicato dos Técnicos e Auxiliares em Radiologia do Estado da Bahia (SINDIMAGEM-BA) e a Comissão Unificada de Profissionais de Imagem denunciaram ao Portal A TARDE que o objetivo da gestão é substituir o corpo técnico local por um modelo de contratação via Pessoa Jurídica (PJ) e terceirização.

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A decisão do Hospital da Bahia deu início a um imbróglio judicial na Justiça do Trabalho e a empresa até faltou uma primeira audiência na Procuradoria Regional do Trabalho, em Salvador, nesta quinta-feira, 30.

Entre os 33 profissionais que serão demitidos, três possuem mais de dez anos de empresa. Os demais têm cerca de três anos, tempo correspondente à compra da instituição pela Rede Américas.

Conforme documento ao qual A TARDE teve acesso, a empresa enviou um e-mail, no dia 16 de julho, contendo, em anexo, a comunicação de desligamento coletivo dos radiologistas do Hospital da Bahia, datada do dia 7 de julho de 2026, respondido pelo sindicato em 17 de julho com marcação de reunião.

A reunião ocorreu em 24 de julho, ocasião em que o SINDIMAGEM-BA (Sindicato dos Técnicos e Auxiliares em Radiologia do Estado da Bahia) relata que a gestão não detalhou os motivos do desligamento e tratou o tema como reestruturação corporativa, sem abrir espaço para negociação coletiva.

O sindicato apontou ao Ministério Público do Trabalho que a ata da reunião foi alterada pela empresa para sugerir concordância com os cortes.

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Busca por profissionais PJ

A equipe de reportagem recebeu links de vagas abertas pelo Hospital da Bahia em plataformas de recrutamento e seleções internas que indicam valores de R$ 25 a R$ 30 por turno diurno e de R$ 30 a R$ 35 por turno noturno para novos profissionais de radiologia e imagem. Além disso, não seriam pagos os adicionais noturno, de insalubridade e de periculosidade.

Um funcionário, hoje em regime CLT, que não quis ter a identidade revelada, relatou ter sido contactado pelo recrutamento para três plantões semanais — dois de 12 horas e um de 24 horas aos sábados — sob o regime PJ.

Substituídos por trabalho remoto

Para além da troca do regime trabalhista após a demissão em massa, o Hospital da Bahia também teria em seus planos uma importante mudança que pode causar impactos aos pacientes: substituição da operação presencial para a Telemedicina.

Trabalhadores ouvidos pela equipe de reportagem apontam que a substituição ocorrerá por meio de um sistema de central de comandos (Command Center) para exames remotos.

Neste formato, um operador controla à distância e simultaneamente de duas a três máquinas de tomografia computadorizada e ressonância magnética, sem contato físico com o paciente.

Ao Portal A TARDE, funcionários relataram que essas centrais iniciariam com mão de obra soteropolitana e, posteriormente, seriam substituídas, em um ano, por centros do eixo Rio-São Paulo.

Resolução da Anvisa exige supervisão e presença física

A medida também é apontada como violação da Resolução RDC 611/2022 da Anvisa, que exige supervisão e presença física nas salas de comando para proteção radiológica e socorro imediato em emergências como choque anafilático por contraste ou claustrofobia.

O conselho de classe apresentou portarias que vedam o processamento e a manipulação de pacientes em exames por profissionais que não sejam técnicos ou tecnólogos em radiologia na ponta.

A RDC 611/2022 autoriza o uso de tecnologias de comando remoto e telerradiologia, mas condiciona a prática ao cumprimento estrito das normas de assistência e segurança ao paciente:

  • Presença Física e Pronto Atendimento: A resolução veda a execução de procedimentos sem a devida cobertura assistencial presencial quando houver risco à integridade do paciente.
  • Atendimento a emergências: Em exames de imagem que utilizam contraste intravenoso (risco de choque anafilático) ou em procedimentos claustrofóbicos (como ressonância magnética), a norma exige equipe qualificada e infraestrutura in loco para intervir imediatamente em qualquer intercorrência médica.
  • Responsabilidade técnica e operacional: O operador e o supervisor de proteção radiológica devem assegurar que a execução do exame ocorra sob constante monitoramento visual e auditivo do paciente durante a emissão de radiação ou aquisição das imagens.
Centro de Radioterapia
Centro de Radioterapia – Foto: Divulgação Hospital da Bahia

O que diz o Hospital da Bahia?

Ao Portal A TARDE, o Hospital da Bahia alegou “reestruturação financeira” como a motivação para a demissão em massa dos profissionais em radiologia. A versão é contestada pelos funcionários, que reafirmam a saúde financeira da Rede.

“O Hospital da Bahia informa que o processo de reestruturação é parte de uma decisão empresarial inerente ao contexto do mercado de saúde e está sendo conduzido de forma transparente e em conformidade com a legislação trabalhista vigente. A instituição comunicou previamente ao sindicato da categoria e está em fase de tratativas com a entidade sindical, reafirmando seu compromisso com a condução responsável das relações de trabalho, o diálogo institucional e o respeito aos direitos dos colaboradores”, disse o Hospital da Bahia em nota enviada ao Portal A TARDE.

Além disso, o Hospital também negou a troca para operação remota, embora sem maiores detalhes do seu plano de reestruturação. “O Hospital também reforça seu compromisso inegociável com a qualidade e a segurança assistencial dos pacientes, que continuarão realizando seus exames de imagem com operadores locais”.

No entanto, conforme informações que a reportagem de A TARDE teve acesso, a Rede Américas confirma ao SINDIMAGEM-BA que parte da operação será realizada de maneira remota, conforme uma operação que já acontece hoje na cidade de São Paulo.

Hospital da Bahia, localizado na avenida Professor Magalhães Neto, em Salvador
Hospital da Bahia, localizado na avenida Professor Magalhães Neto, em Salvador – Foto: Divulgação Hospital da Bahia

Audiência no MPT-BA

Em meio a embate entre Hospital da Bahia e profissionais, o caso foi levado ao Ministério Público do Trabalho (MPT-BA), que instaurou procedimento sob o número 003159.2026.05.000/3.

Uma audiência foi designada para a última quinta-feira, 30, às 15h, na sede da Procuradoria Regional do Trabalho, por meio da notificação nº 146567.2026, assinada pela procuradora Flávia Vilas Boas de Moura.

A equipe de reportagem de A TARDE acompanhou a audiência. A empresa notificada não compareceu à audiência. Seguimos acompanhando o caso.

Nesta sexta-feira, uma nova reunião aconteceu entre Sindicato e a Rede Américas, responsável pelo Hospital da Bahia. Mais uma vez o encontrou chegou ao fim sem definição favorável aos trabalhadores.

Próximos passos

Nos próximos dias, o SINDIMAGEM-BA deve anexar aos autos do processo os documentos e portarias fornecidos pelo conselho de classe. Paralelamente, o Ministério Público do Trabalho segue conduzindo o procedimento para apurar as denúncias de “pejotização”, implantação de operação remota sem respaldo regulatório e ausência de negociação coletiva prévia. A expectativa é que uma nova audiência conduzida pelo MPT seja agendada na próxima semana.

* Colaborou Iarla Queiroz



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