“Gag”; “Hit”; “Fomo”; “Farmar aura”; “Juro”; “Sex seven”. Essas são algumas das expressões que viralizaram na internet nos últimos meses. Mas, para muitos jovens e adolescentes, elas já podem estar ultrapassadas.
A velocidade com que a linguagem muda pode surpreender quem não acompanha de perto as tendências das redes sociais. Impulsionadas por plataformas como Instagram, X (antigo Twitter) e TikTok, novas gírias surgem, viralizam e, muitas vezes, desaparecem em poucas semanas.
Apesar de parecer um fenômeno recente, associado principalmente à geração Z, a criação de novas formas de expressão acompanha a evolução da comunicação humana.

A professora de Língua Portuguesa Sidinéia Azevedo explica ao A TARDE que o surgimento de gírias faz parte do processo natural de transformação da linguagem.
“Há relatos de que, por exemplo, os soldados romanos já faziam uso de gírias para se aproximarem do povo, para terem um contato com o povo. Então, a gente percebe que não é um fenômeno da pós-modernidade, faz parte do histórico de comunicação da humanidade.”
Outro equívoco comum é associar as gírias ao empobrecimento da língua portuguesa. Segundo a professora, o efeito é justamente o contrário.
“As gírias, hoje, representam um dos motores mais potentes da evolução da língua portuguesa. A gente não pode considerar que o uso de gírias representam erros ou vícios de linguagem. É preciso entendermos que elas funcionam como um laboratório linguístico vivo, é o idioma testando novas estruturas, sentidos e dinâmicas.”

Se, do ponto de vista linguístico, as gírias ajudam a transformar a língua, no comportamento elas também exercem um papel importante na construção da identidade dos adolescentes e na forma como eles se relacionam com os grupos dos quais fazem parte.
Muito além das palavras: como as gírias ajudam a moldar a identidade
A adolescência é uma fase marcada pela construção da identidade. É nesse período que muitos jovens começam a entender quem são, quais valores defendem e com quais grupos se identificam. Nesse caminho, a linguagem se torna uma ferramenta importante de expressão e conexão social.
A psicóloga infantojuvenil Alissa Oliveira, especialista em análise do comportamento, explica à reportagem que as gírias vão além de uma simples forma de falar e ajudam a fortalecer o sentimento de pertencimento entre os jovens e adolescentes.
“Criar ou adotar formas específicas de comunicação, como gírias, expressões e até maneiras de escrever nas redes sociais, ajuda a fortalecer a conexão com pessoas da mesma faixa etária. Além disso, essa linguagem facilita a expressão de emoções, experiências e interesses que, muitas vezes, são compartilhados apenas dentro de um grupo”, explica.

Segundo a psicóloga, as redes sociais aceleraram esse fenômeno ao se tornarem espaços permanentes de experimentação.
Tanto as gírias quanto as redes sociais oferecem espaços para experimentar diferentes formas de ser e esse processo é um componente super importante na construção da identidade Alissa Oliveira – Psicóloga
Das redes sociais para a vida real
Um exemplo de como as gírias saem do ambiente digital e passam a fazer parte das relações do dia a dia aparece na rotina da estudante Kaylane Matos, de 23 anos.
No cotidiano, ela usa expressões como “gag”, “old”, “juro” e “hit”. Algumas foram aprendidas nas redes sociais, outras surgiram naturalmente nas conversas com amigos.
Em entrevista ao A TARDE, Kaylane explicou que as gírias acompanham aquilo que está em alta em determinado momento e, por isso, mudam com rapidez.
“Vão surgindo novos memes, novas formas de se expressar, então a gente vai substituindo as gírias antigas por novas. Há pouco tempo, eu usava muito ‘resenha’, que é para falar de uma festa [ou conversa fiada], mas hoje a gente não fala mais ‘resenha’. Tem outras também que a gente não usa, como ‘putzgrila’, mas eu não sei porque ficou velha, a gente só parou de usar.”

Para ela, as gírias não são exatamente um requisito para entrar em determinado grupo, mas ajudam a criar uma identidade coletiva.
“Muitas das gírias que eu aprendi foram no meu grupo de amigos. A gente se identifica através das palavras que a gente conhece e que outros grupos talvez não conheçam. Então, eu acho que não necessariamente as gírias ajudam a fazer parte do grupo, mas ajudam o grupo em si a existir enquanto comunidade de reconhecimento.”
Cada situação pede uma linguagem
Embora reconheça a importância das gírias, Sidinéia Azevedo ressalta que é preciso compreender que cada ambiente exige uma forma diferente de comunicação.
Em situações formais, como entrevistas de emprego, apresentações acadêmicas ou documentos oficiais, o ideal é priorizar a norma-padrão da língua portuguesa.
“Equilibrar a linguagem informal das redes sociais, onde é nítido o uso de gírias e o de abreviaturas, com a norma padrão da língua portuguesa, é, hoje, um dos maiores desafios da comunicação contemporânea. É preciso que exista um bom senso dos usuários em relação ao momento que ele pode utilizar ou não essa forma de se expressar.”
A professora defende, porém, que o caminho não é proibir esse tipo de linguagem.
“Nós, professores de língua portuguesa, jamais podemos proibir ou demonizar o uso das gírias. Mas a gente precisa mostrar aos jovens e estudantes a importância da adequação do vocabulário. É preciso que eles percebam, por exemplo, que existe um determinado tipo de roupa para ir para praia. Da mesma forma é a língua”, reforça.
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O inglês ameaça o português?
Outra mudança que chama atenção é a presença cada vez maior de palavras em inglês no vocabulário dos brasileiros.
Para parte da população, isso representa uma ameaça ao português. A professora Sidinéia, porém, afirma que o processo é natural e acompanha transformações tecnológicas e culturais.
“Com a incorporação da internet e a globalização da língua inglesa, o idioma passou a ocupar um grande espaço na nossa comunicação. Nós não usamos feedback, download e home office? Observe que essas palavras não têm uma tradução perfeita no idioma da língua portuguesa, mas que em momento nenhum enfraquece a nossa língua“, conclui.
Mini glossário: entenda algumas das gírias do momento
Para ajudar quem se perdeu no vocabulário das redes sociais, o A TARDE, com a ajuda da estudante Kaylane Matos, preparou um pequeno guia com algumas das expressões mais populares entre os jovens.
- Hit: Usada para indicar que algo é muito bom, bonito ou fez sucesso. Ex.: “Essa roupa ficou hit.”
- Gag: Expressa surpresa ou choque diante de alguma situação. Existe ainda a variação “gag de la Gretchen”, em referência à artista Gretchen.
- Fomo: Sigla da expressão em inglês Fear of Missing Out. Representa o sentimento de estar perdendo alguma experiência ou evento.
- Juro: Além do significado tradicional, passou a funcionar como uma forma de reforçar uma opinião. Ex.: “Essa comida está muito boa, juro.”
- Farmar aura: Expressão usada quando alguém ganha prestígio, reconhecimento ou “sai por cima” em determinada situação.