Depois de uma vida inteira acreditando na Seleção Brasileira, talvez a maior descoberta não seja que o Brasil pode não ganhar a Copa. É perceber que o sonho vendido para nós nunca foi sobre futebol
Existe um momento na vida em que a gente descobre que Papai Noel não existe. Que o Coelhinho da Páscoa é uma invenção conveniente. Que o Loro José não passava de um sujeito escondido atrás do balcão da Ana Maria Braga manipulando um boneco. São descobertas pequenas diante do tamanho do mundo, mas gigantes para quem ainda acredita em certas fantasias. A maior delas, para mim, é perceber que o hexa do Brasil se transformou na mesma coisa. Não o título em si, claro. Mas tudo o que foi construído em volta dele. Toda a atmosfera emocional, a narrativa épica, e a tentativa de transformar um produto extremamente lucrativo em uma causa quase sagrada. Pela primeira vez desde que me apaixonei pelo futebol, olho para uma Copa do Mundo sem aquela ilusão infantil de que estou prestes a assistir algo grandioso acontecer. E isso diz muito mais sobre a Seleção Brasileira do que sobre mim.
A primeira coisa que me despertou paixão pelo futebol foi a Seleção Brasileira. Não foi um clube, uma Libertadores e nem um campeonato nacional. Foi a Copa do Mundo de 2002. Eu tinha cinco anos de idade e não entendia absolutamente nada sobre o que estava acontecendo. Não fazia ideia de quem era o presidente da CBF, não sabia o que era um esquema tático e provavelmente nem entendia direito o tamanho do planeta que estava assistindo aquele torneio. Mas uma coisa ficou clara: aquele evento era diferente, o maior do mundo, e o meu país era o mais foda de todos que estavam ali.
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Brasil perde amistoso para França na preparação para a Copa do Mundo / Reprodução: Rafael Ribeiro | CBF

Seleção Brasileira encarou o Egito no último amistoso antes da Copa do Mundo de 2026 / Reprodução: CBF | Rafael Ribeiro

Carlo AncelottiCrédito: Reprodução: Rafael Ribeiro – CBF
Era simples. O Brasil era o melhor. Por isso 2006 foi tão estranho. Hoje é fácil revisitar aquela eliminação para a França e encaixar explicações. Zidane jogou demais, o time envelheceu, houve erros de planejamento. Mas para um menino de nove anos aquilo era uma quebra de lógica tão brutal quanto descobrir que o herói morre no final do filme. Não fazia sentido. Estava fora de cogitação. Aquela geração de crianças enxergava a Seleção Brasileira como algo praticamente imbatível. A derrota não era uma possibilidade concreta. Era quase uma falha no roteiro.
Foi meu primeiro choque de realidade esportivo. Nos anos seguintes continuei comprando o sonho. Em 2010, em 2014… Sempre existia alguma esperança renovada e uma nova narrativa, com uma justificativa para acreditar que agora seria diferente. Eu era completamente tomado por isso.
No 7 a 1 fiquei doente. Passei dois dias passando mal. E quando olho para trás, vejo que o mais impressionante não é o placar. É perceber o tamanho do poder que aquela construção emocional tinha sobre mim. O futebol deixava de ser entretenimento e passava a ocupar um espaço muito mais profundo. Chamávamos aquilo de patriotismo. Pode até ser. Mas vejo também que pode ser apenas uma paixão conduzida com competência por quem aprendeu há muito tempo a transformar emoção em consumo.
A diferença é que o tempo passa. E junto com ele vieram coisas que uma criança não tem: informação, experiência e senso crítico. Nos últimos anos acompanhei de perto bastidores que jamais imaginava quando assistia Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho pela televisão. Participei de apurações envolvendo a CBF, crises políticas, disputas de poder, denúncias, escândalos e toda uma engrenagem que raramente aparece para quem consome apenas o produto final. Quanto mais eu entendia como aquele sistema funcionava, mais difícil ficava sustentar a mesma relação emocional de antes.
Foi quando caiu minha ficha. O hexa se transformou no novo Papai Noel. A lógica é praticamente a mesma. Constrói-se uma atmosfera emocional poderosa, capaz de unir milhões de pessoas em torno de uma expectativa coletiva. Alimenta-se essa expectativa durante anos. Produz-se uma sensação de pertencimento. E tudo isso movimenta uma máquina que não para de faturar independentemente do que aconteça dentro de campo.
A CBF atravessa escândalos, denúncias, disputas judiciais, crises institucionais e uma sequência interminável de constrangimentos públicos. Nada disso impede a máquina de continuar girando. Porque o combustível nunca foi gestão, competência e credibilidade. Trata-se de usar a paixão para um recurso renovável e inesgotável.
Isso nasce naquele menino que assiste uma Copa do Mundo aos cinco anos de idade acreditando que a Seleção Brasileira é invencível. No adolescente que passa dois dias doente depois do 7 a 1. No sujeito que compra camisa, discute escalação, sonha com o hexa e organiza a própria rotina em função de um jogo. Ela nasce no povo. O povo produz o produto. O povo consome o produto. O povo sustenta o produto. Mas a única parte distribuída democraticamente continua sendo a emoção.
O lucro segue concentrado onde sempre esteve. Enquanto isso, os donos do espetáculo seguem trocando de cadeira dentro de uma estrutura que parece imune a qualquer consequência proporcional aos próprios escândalos. Exatamente por isso que chego nesta Copa tão desconfiado.
Não é nem sobre futebol. É sobre tudo o que cerca o futebol. A novela Neymar. O “porrada neles”. O Vai Brasa da Nike. Os recordes negativos. As derrotas históricas. Os vexames acumulados. A convocação transformada num evento megalomaníaco tão artificial que parecia uma peça de teatro amador encenada pelos filhos dos fiéis de uma igreja evangélica de classe média tentando reproduzir a cerimônia do Oscar.
O hino improvisado. As campanhas publicitárias. As conexões emocionais fabricadas. As narrativas prontas. Tudo parece estranho. Tudo parece deslocado. Tudo parece exalar o contrário de convicção.
E quando olho para trás e revisito as seleções campeãs que marcaram época, encontro uma coisa em comum entre todas elas: visceralidade. Existe algo contagiante, autêntico, e com coerência. Os personagens se encontram. A história se encontra. O país se encontra. O produto deixa de ser produto e vira legado.
Você assiste hoje aos documentários de 1970, 1994 ou 2002 e percebe isso. Há uma energia que atravessa o tempo. Há algo vivo ali. Nesta seleção eu vejo outra coisa. Vejo marketing, protocolo, e um esforço permanente para convencer as pessoas de que algo grandioso está acontecendo. E quando você precisa convencer demais, normalmente é porque nem quem está vendendo acredita tanto assim na própria mercadoria.