Durante décadas, uma certa baianidade específica exalou das fotografias que mostraram ao mundo um lugar consagrado nos livros de Jorge Amado, nas canções de Dorival Caymmi e nas gravuras de Carybé. Mas como retratar a Bahia atual imprimindo um olhar pessoal e inovador?
Indicado ao prestigioso Prêmio Pipa em 2021, o feirense Adriano Machado tem um norte bem determinado em seu trabalho: pensar um modo positivo de criar imagens de pessoas negras, a criação de narrativas a partir da memória afetiva dos fotografados e o direito do uso da imagem dessas pessoas. “O meu trabalho sempre está envolvido com a memória e a relação cotidiana das pessoas. Para mim, interessa muito saber quem são as pessoas que eu fotografo”, afirma Adriano, que se recusa a retratar quem não lhe deu autorização para os cliques.
Doutorando em Artes Visuais, ele desenvolve uma pesquisa chamada Arte de território afroinventivo. “É sobre o modo como as pessoas constroem espaços distantes da violência”, explica o fotógrafo, que ressalta o seu ponto de vista de que as pessoas devem ter direito sobre as suas imagens.
Adriano é um dos nomes da exposição Ecologia dos Sentidos – Panorama da 3ª Geração de Fotografia da Bahia, que vai entrar em cartaz no dia 30 de junho, na Galeria Solar do Ferrão, no Pelourinho. O trabalho de Adriano que está no Panorama é Cobra Verde, uma série de 2013, baseada na memória de suas duas avós. “Eu cruzo as histórias dessas duas mulheres, uma lavadeira e outra feirante, que criaram os filhos sozinhas, lutaram muito e têm muita fé. Vidas carregadas de trabalho, poesia, dificuldade e fraternidade”, explica.
Dividida em três núcleos (Corpo, Memória e Sagrado), a exposição começou uma itinerância pelo Nordeste em 2024 e passou por Olinda (PE), Natal (RN), São Luiz (MA), João Pessoa (PB) e Aracaju (SE), com o trabalho de fotógrafos baianos surgidos a partir dos anos 2000, que são considerados a terceira geração baiana pelo idealizador da mostra, o fotógrafo, professor e pesquisador Marcelo Reis.
A primeira geração, de forma ampla, é a oitocentista, que inaugura a fotografia no mundo no fim do século 19, tinha como foco a paisagem, até pelas limitações tecnológicas, pois as máquinas ainda não captavam as expressões faciais com perfeição. “A fotografia desse período, de certa forma, confirmava o que a pintura dizia”, explica o professor.
A segunda geração, já pensando na Bahia especificamente, traz os icônicos Pierre Verger, Voltaire Fraga e Mário Cravo Neto, que trazem uma nova forma de pensar a fotografia, a partir do uso do corpo negro. Uma estética que influenciou grandes fotógrafos, como Adenor Gondim e Isabel Gouveia, por exemplo. “A segunda geração confirmava a presença em eventos religiosos e festivos”, pontua Reis.
Nos anos 2000, Reis detecta uma nova tendência. “Há toda uma mudança no jeito de pensar e de agir. Para muitas linguagens, os anos 2000 denotam uma nova geração. Tem a internet, as novas tecnologias e uma nova geração que começou a fotografar e permanece”, estima o pesquisador.
A diferença básica é que nessa terceira geração a fotografia deixa de ser documental, como era na segunda, e aposta nas abstrações. “É esse olho que fotografa o objeto, mas fala de dentro, das questões do fotógrafo”, pondera o pesquisador. O clique, então, fala mais do artista do que do objeto cênico. “Quando você pega um trabalho de Adenor sobre a Boa Morte, Adenor está dizendo muito mais sobre a Boa Morte do que sobre ele. Nessa terceira geração, é o contrário. Ele está mostrando uma coisa, mas falando de seus traumas”, explica o professor.
A pesquisa de Marcelo Reis com os fotógrafos, que baseia a exposição, surgiu durante a pandemia, quando Reis entrevistou 100 profissionais com conversas que chegavam a durar três horas. O projeto, então, foi batizado de Panorama da Fotografia na Bahia.
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Impactante
Um dos destaques do núcleo Corpos, Ananda Nunes tem um impactante trabalho em torno da nudez feminina, a série Rituais de Resistência, que usa seus autorretratos como um processo de autoconhecimento. Da decisão de se apropriar da beleza do seu corpo, algo que ela cresceu negando, partiu para a luta pela não-erotização da nudez feminina, quase sempre presente no olhar masculino.
“Eu resolvi assumir o controle da narrativa sobre o meu corpo. Existe um percentual imenso de mulheres com os corpos expostos em um museu, mas com uma narrativa masculina”, declara a fotógrafa.
Ananda nasceu 1994, cinco anos antes que o primeiro celular com câmera fosse lançado pela japonesa Kyocera. Durante sua infância e adolescência, em Feira de Santana, momentos em família eram registrados com pouca frequência, pois era caro comprar e revelar filmes. Era uma família numerosa e a mãe da fotógrafa sempre fez um movimento de registrar as fases da vida dos cinco filhos.
“Eu lembro de estar em um dia aleatório e ela me chamar para tomar banho e me vestir com roupas diferentes para parecer que as fotografias eram de dias diferentes”, conta Amanda, que também tem na memória sua mãe, uma assistente social, fotografando cenas ordinárias do cotidiano doméstico que virariam recortes do álbum de família. “Aquilo virou um grande baú de memórias. Acho que todo brasileiro já passou por isso quando criança, de abrir uma caixa de sapatos e aquilo ser um grande mistério, uma grande magia”, declara Ananda, sorrindo.

Esse encantamento com a fotografia nunca saiu de dentro de si e, aos 15 anos, Ananda ganhou de presente da mãe uma cyber-shot, máquina digital da Sony, que eliminava as preocupações com filmes e revelação.
Ananda seguiu fotografando amadoristicamente e, em paralelo, ingressou na Faculdade de Farmácia. Incentivada por sua tia, a artista plástica Judite Pimentel, matriculou-se em um curso de fotografia. Foi nesse momento que a jovem conheceu o trabalho da nova-iorquina Francesca Woodman, célebre por registrar corpos femininos, incluindo o próprio corpo, nus e desfocados ou com os rostos cobertos. Uma obra que ganhou uma aura ainda maior quando a artista cometeu suicídio em 1981, aos 22 anos.
Muitos dos seus trabalhos usavam a velocidade da máquina fotográfica para mostrar corpos nus borrados, que geravam uma noção de movimento ou urgência. “Eu sentia nas imagens a sensação que o trabalho me trazia e só depois eu via os corpos”, declara Ananda.
O trabalho de Francesca, juntamente com questões ligadas à autoestima, mudaria para sempre a trajetória da jovem feirense. “Eu fazia foto de tudo o que acontecia em casa, as festas, as minhas amigas. Só que eu nunca havia voltado o meu olhar para mim mesma, porque a minha relação com a minha própria imagem sempre foi muito ruim”, declara a jovem que cresceu desgostando do seu corpo e do seu cabelo.
Um ano depois que começou a estudar fotografia, a feirense tomou uma iniciativa ousada: passou a postar no Instagram ensaios com o seu corpo nu. Essa decisão causou a perda de seguidores da conta, vista sobretudo por amigos e familiares.
Referências

Vinícius Xavier, do núcleo Sagrado, começou a fotografar em 2000, ainda com máquinas analógicas, e teve como referências Pierre Verger, Adenor Gondim, Mario Cravo Neto e Walter Firmo. “Eu projetava ser um deles, queria chegar a algum dia fazer um trabalho relevante”, destaca Vinicius, que depois conheceu outros fotógrafos e enxergou um universo bem maior de possibilidades.
Para Vinicius, o que torna a sua produção fotográfica distinta da de seus primeiros referenciais é, justamente, o tempo. “Eu fui sensibilizado por outras questões, que não foram as questões do tempo deles”, afirma o fotógrafo,
O que mais seduz o olhar do fotógrafo Vinicius é a cultura popular brasileira. “No contexto de Salvador, isso é muito impregnado pela cultura afrobrasileira”, destaca o artista, que afirma fazer um hibridismo de linguagens, unindo o documento clássico com elementos contemporâneos.
Já Ivã Coelho, com obras no núcleo Memória, teve seu primeiro contato com os cliques com a Love, uma máquina descartável que pesava menos de 100 gramas e vinha com um filme de 20 poses. Era fazer duas dezenas de registros, enviar a máquina ao laboratório da fabricante e esperar para receber as fotos junto com outra Love, nova, dentro do prazo de um mês.
Depois dessa experiência familiar, Ivã começou a fotografar ainda nos anos 90, quando ganhou de presente da mãe uma máquina profissional SLR. Em 2007, no ano em que se formou em direito, Ivã adquiriu uma máquina digital. Nesse período, o advogado aderiu a caminhadas com outros fotógrafos, que saíam em turma por questões de segurança.
O limão verde, a manga rosa
Ivã tem como referências na fotografia Mario Cravo Neto e as fotos do Maciel/Pelourinho feitas por Miguel Rio Branco. Nas conversas com seus colegas de geração, Ivã sentia um desejo coletivo de não fazer cópia do padrão de tirar fotos na Feira de São Joaquim, embora reconheça a importância do lugar que é uma espécie de meca de quem gosta de registrar a Bahia de forma autoral.
“São sempre as mesmas fotos, o limão verde, a manga rosa. Claro que, documentalmente, essas coisas são muito importantes. Mas quando você procura um trabalho autoral, você quer saber o que ele pensa do mundo e aí é preciso um aprofundamento”, define Ivã.
Ao comentar as diferenças entre as gerações, o crítico Bené Fonteles, que morou na Bahia nos anos 70 e 80, afirma que o estado ainda mantém no ar a mesma cultura popular e religiosidade, mas considera que os fotógrafos atuais são testemunhas de uma certa ruptura com o passado, até pelo crescimento da violência e da sensação de insegurança.
Fonteles aponta que a Salvador dos anos 40 e 50 irradiava uma vida que seduzia o mundo no período pós-guerra. “A geração anterior tinha um alumbramento com a cidade, principalmente Verger, que veio da França e se encantou com aquela cor, com o povo festeiro e com o Candomblé, que era uma coisa mágica”, declara o crítico.
Sobre o contexto atual, Fonteles aponta que Salvador ficou demasiadamente turística e com uma realidade urbana muito parecida às outras grandes cidades brasileiras. “Tem a facções, há muito medo. Eu sei porque converso com alguns desses jovens, como professor visitante da Ufba. Esse medo se reflete na fotografia, porque muitos desses jovens moram em locais de conflito”, pondera Fonteles.