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Mulheres reescrevem a história do futebol na Bahia além dos gramados

“Quando Baralhas fez o gol, eu chorei”. A frase poderia resumir uma final de campeonato. Mas, para a torcedora do Vitória, Amanda Barbosa, o choro veio em uma partida da luta contra o rebaixamento, em 2024. O Barradão explodia enquanto o Leão respirava na Série A, e ela estava ali, como quase sempre está. Amanda é uma entre muitas. No Dia Nacional do Futebol, celebrado hoje, histórias como a dela mostram como as mulheres transformaram o esporte mais popular do país, e como a Copa do Mundo Feminina de 2027, que chega a Salvador daqui a um ano, pode marcar um novo capítulo dessa relação.

Para Amanda, a paixão começou na adolescência, incentivada pelo primo, e ganhou companhia do avô, torcedor do Fluminense de Feira que acabou se rendendo ao rubro-negro baiano. A primeira ida ao Barradão veio depois, levada por uma então namorada.

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O futebol brasileiro sempre foi vendido como patrimônio nacional, mas essa nacionalidade nunca foi distribuída de forma igual. Entre 1941 e 1979, mulheres foram oficialmente proibidas de disputar diversas modalidades esportivas consideradas “incompatíveis com sua natureza”, entre elas o futebol. Quando a proibição caiu, o atraso já estava instalado.

Amanda conhece bem esse tipo de julgamento. Costuma frequentar os jogos até sozinha, mas sabe que a experiência feminina no estádio ainda exige cuidados extras. “Os homens ainda questionam as mulheres que curtem futebol ou têm uma versão estereotipada sobre nós, mas estamos muito mais presentes e resistentes nos estádios”, afirma. Para ela, a torcida LGBTQIAPN+ Orgulho Rubro-Negro se tornou um espaço de acolhimento dentro dessa experiência.

A resistência aparece também na forma como ela olha para o futebol feminino. Amanda acompanha a Seleção, joga como goleira no futebol amador e se inspira na goleira Lorena Silva. “Quero muito assistir aos jogos que serão aqui em Salvador”, conta. “O futebol feminino tem alcançado outros patamares”.

Nos bastidores

Manu Avena é narradora de futebol
Manu Avena é narradora de futebol – Foto: Raphael Muller / Ag. A TARDE

Uma das profissionais que ocupa esse “outro patamar” é Cláudia Callado. Torcedora do Bahia desde muito antes de vestir o crachá do clube, entrou na equipe de comunicação do time em 2023, logo após a chegada do Grupo City, e hoje é a única mulher entre os seis integrantes da assessoria de imprensa do Esporte Clube Bahia. “Sempre fui apaixonada por futebol e escolhi o jornalismo por causa disso”, resume.

Ela evita qualquer discurso triunfalista. “O machismo ainda é algo muito constante no dia a dia das mulheres, mas os espaços estão sendo mais ocupados, pouco a pouco”, afirma. Para Cláudia, aumentar o número de mulheres em cargos de comunicação, gestão e liderança muda também a forma como o futebol feminino é contado.

“Ter mais mulheres em cargos de comunicação, gestão e tomada de decisão amplia a diversidade de perspectivas e contribui para que o futebol feminino seja tratado com mais naturalidade, profundidade e visão estratégica”. Hoje o Bahia conta com 209 colaboradoras, incluindo atletas, além de mulheres em diretorias estratégicas e ações voltadas à inclusão e ao combate à violência de gênero.

Mas poucas posições expõem tanto o preconceito quanto a transmissão. Durante décadas, o futebol foi narrado por vozes masculinas – não porque mulheres não fossem capazes, mas porque sequer lhes era permitido tentar. A baiana Manu Avena conhece esse roteiro de cor.

Formada em Publicidade, foi uma pós-graduação em gestão esportiva, iniciada em 2016, que mudou sua carreira: primeiro a reportagem esportiva, depois a narração. Após participar de um reality show, foi uma das escolhidas para transmitir uma Copa do Mundo ao lado de Renata Silveira e Isabelly Morais.

O sonho veio acompanhado de julgamento permanente. “No começo eu tinha medo”, admite. “A gente sofria muitas críticas. Eu fui das que deram a cara a tapa lá no comecinho”, conta. As críticas quase nunca começam pela qualidade do trabalho: “Muitas vezes eu abro uma transmissão, dou ‘boa noite’ e já aparecem comentários dizendo: ‘narração feminina, vou ouvir no mudo'”.

Ela faz questão de uma diferença. “Eu não acho errado alguém não gostar da minha narração. O problema é não gostar da narração feminina. São coisas completamente diferentes”.

De acordo com Manu, um homem pode errar o nome de um jogador sem que isso comprometa sua credibilidade; quando o erro é de uma mulher, vira prova de uma suposta incapacidade coletiva. “As pessoas assistem à narração feminina procurando defeitos”.

Manu aprendeu a não ler comentários durante algumas transmissões e acredita que o machismo mudou de forma. Para ela, isso é apenas mais velado. “É feio ser machista, então muita gente esconde”.

Ainda assim, prefere olhar para os avanços: há poucos anos era possível contar nos dedos as mulheres que trabalhavam com jornalismo esportivo na Bahia; hoje já dá para usar as duas mãos, de acordo com a profissional.

Sua maior esperança está no que vem pela frente. Manu acredita que o Brasil tem tudo para ter um ótimo desempenho na Copa do Mundo. Mas, o que ela realmente espera é que o público torça pelas atletas. “Elas merecem”. Às jovens que sonham em seguir seus passos, o conselho é direto: estudar e se preparar bastante, pois “vão ser cobradas duas ou três vezes mais do que um homem”.

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Profissão

Durante muito tempo, meninas cresceram ouvindo que futebol era passatempo, nunca profissão. Para a volante Suelen Silva, do Bahia, a resposta começou na infância. “Eu sempre preferi jogar bola em vez de outras brincadeiras”, lembra. Os campeonatos escolares de futsal foram alimentando um sonho que, aos poucos, deixou de parecer impossível.

Nascida em Salvador, Suelen passou pelas categorias de base do Vitória e hoje defende o Bahia. Entende que representa meninas que ainda procuram enxergar um espaço para elas no esporte. Ela conta que tem orgulho de representar o futebol baiano e acredita que a trajetória dela serve como referência para outras atletas do estado.

No entanto, ela não romantiza a caminhada. “Acredito que qualquer menina que se torne jogadora já tenha vivenciado situações de machismo”, afirma.

Para combater esse preconceito, defende abandonar a ideia de que existe um machismo “inofensivo”. “Percebo que a sociedade já demonstra indignação, mas ainda é necessário adotar uma postura de intolerância ao chamado machismo ‘inofensivo’, que muitas vezes é culturalmente aceito”.

Muitas vezes ouviu que as chances de virar atleta profissional eram mínimas. “Já ouvi que menos de 1% vira jogadora”, conta. “Mas, com disciplina, dedicação, renúncia e muita fé, consegui me tornar jogadora profissional de alto nível”.

O próximo sonho é conquistar a Série A1 e a Copa do Brasil pelo Bahia, e ainda deseja ser lembrada como alguém que transformou paixão em profissão e inspirou outras meninas a fazerem o mesmo.

Amanda, Cláudia, Manu e Suelen vivem o futebol de lugares completamente diferentes – a arquibancada, a assessoria, a cabine, o campo –, mas todas precisaram ocupar um espaço que, por muito tempo, lhes foi apresentado como exceção. Nenhuma descreve o futebol apenas como ambiente de enfrentamento: há desafios e preconceito, mas também pertencimento.

Para Manu, a Copa de 2027, por si só, não acabará com o machismo no esporte, nem resolverá décadas de desigualdade estrutural. “Nenhum evento tem esse poder”. Mas alguns acontecimentos mudam a forma como uma geração inteira enxerga o mundo. A profissional lembra como aconteceu quando a jogadora Marta transformou talento em símbolo, ou quando mulheres passaram a aparecer com mais frequência nas transmissões esportivas.

Talvez o maior legado da competição nem esteja na taça levantada ao fim do torneio, mas na menina que entrará em um estádio pela primeira vez e descobrirá que não existe um único jeito de amar o futebol. O futebol continua sendo o mesmo jogo de onze contra onze. O que mudou é quem, finalmente, passou a ter o direito de contar essa história.

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