historiadora detalha mostra no MAM

Avessa à glamourização da sua atividade, a curadora-chefe do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a historiadora Raquel Barreto, costuma lembrar que montar uma exposição é um trabalho coletivo e que a melhor forma de avaliar o tanto que a pessoa responsável pela curadoria trabalha é se ela está usando um tênis confortável ou se ela se veste como quem espera aparecer na TV.

Um dos seus trabalhos recentes é a exposição Uma história da arte brasileira, atualmente em cartaz no MAM Bahia. Uma parceria com o Centro Cultural Banco do Brasil que permite ao público soteropolitano ver até 28 de junho obras icônicas de Hélio Oiticica, Di Cavalcanti, Cândido Portinari, Adriana Varejão, Lygia Clark, Sebastião Salgado e os baianos Mário Cravo Neto e Evandro Teixeira, entre outros. No próximo dia 30, às 16h30, Raquel vai realizar uma palestra sobre “conflito na arte brasileira”, no MAM-BA. Nesta entrevista, ela observa que essa é uma exposição do acervo da instituição em que trabalha e fala do esforço em descentralizar a arte, saindo do eixo Rio-São Paulo.

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A exposição compreende cinco movimentos artísticos nacionais, desde o modernismo. Explique, por favor, o processo de seleção das obras que vieram a Salvador.

Primeiro, é bom definir que essa é uma exposição criada a partir dos acervos das coleções que estão no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que é a própria coleção do museu, o comodato de Gilberto Chateaubriand e a coleção do Joaquim Paz, além do acervo de documentação que a gente tem, o acervo de cinema e tal. A exposição que a gente monta, que é uma exposição de percurso, parte do acervo. Então, é uma história possível de ser contada a partir dos acervos do MAM-Rio.

É bom fazer essa distinção porque temos a pretensão institucional de contar a história da arte brasileira. Resolvemos isso com o uso do artigo indefinido ‘uma’, uma história possível a partir dos acervos do museu. A gente compreende que tem, por questões estruturais da própria história do museu e de como o sistema da arte está organizado no Brasil, uma concentração maior de artistas do Sudeste ou de artistas de outras regiões do país, fora do eixo Rio-São Paulo, mas que passaram pelo Rio. Fazemos esse recorte que não dá conta da totalidade.

O interessante disso é que, por um lado, sabemos que essa história não é imparcial, não dá complexidade à produção artística do Brasil dos séculos 20 e 21. Mas trazê-la para itinerar é aproximar os outros públicos dos nossos acervos. Seria muito interessante ter o jogo inverso. Eu gostaria muito de ter a oportunidade de visitar no Rio de Janeiro uma exposição baseada nos acervos do MAM contando uma história da arte brasileira com o acervo que está no MAM da Bahia, no MAM do Recife. É termos consciência de que a exposição está contando uma história a partir do que está no museu.

De qualquer forma, tem artistas nordestinos na exposição, Mário Cravo Neto, Tunga… Qual a importância desses artistas na sua opinião, nesse contexto?

Esses artistas são importantes não só porque estão na mostra, mas eles foram e são importantes para a história da arte brasileira e da história do fotojornalismo também, porque a gente tem o Evandro Teixeira, que é baiano do interior, um cara que marcou a história do fotojornalismo brasileiro, com uma produção muito marcante nos anos 1960. Nesse momento em que os fotógrafos de jornais ou revistas eram artistas, por assim dizer. Uma característica muito marcante da história da fotografia brasileira.

Esses artistas, como o Rubem Valentim, que não está na mostra, mas a gente tem uma mostra individual dele no MAM do Rio. Eles e outros artistas são importantes para contar a história da arte brasileira. Da arte e da cultura deste país. Também temos gente do Centro-Oeste, como Gervane de Paula, um artista muito interessante que esteve na Bienal de Arte de São Paulo. Éder, que é de Belém. Artistas que saem do eixo Rio-São Paulo, que são muito importantes para a história da arte brasileira.

Só reforçando que os nossos acervos contam essas histórias, mas o nosso afã não é ter uma visão totalitária. É contar e apresentar, porque o que achamos importante no museu e nas nossas orientações institucionais é fazer circular, dar a conhecer e promover inclusive esse debate, que é o que uma exposição como essa em Salvador faz. Questiona, levanta problemas, isso é muito rico. Vivemos no campo artístico, um campo de debates intelectuais importantes de serem feitos. Fazer essa exposição na Bahia também tem um retorno crítico local sobre a exposição, os artistas e a história que se conta.

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No início deste mês, foi divulgado um balanço que apontou mais de 12 mil visitantes à exposição. Você tem acompanhado?

Não tenho acompanhado, mas fico muito feliz em saber que a exposição está tendo esse retorno. A gente que trabalha em museu tem uma vida institucional muito corrida. Desde março, eu já abri duas exposições. A gente faz a exposição, se dedica, toma um tempo, é importante, mas depois a gente vai para outro projeto. Eu tenho acompanhado mais o MAM da Bahia pelo Valentim, porque a gente está com Templo de Oxalá montada, que é um desdobramento desse projeto, mas já traz uma interface. O acervo que foi doado por Valentim ao MAM da Bahia, onde fica em exposição permanente, está no Rio. Não é uma resposta, mas uma provocação. É importante esses acervos circularem e que as pessoas no Rio de Janeiro vejam o Templo de Oxalá.

A exposição chega a Bahia em uma parceria com o Centro Cultural Banco do Brasil, que está se instalando na cidade. Como foi a negociação da instituição com o MAM? Como surgiu o projeto?

Montamos uma primeira versão dessa exposição durante o G-20, que aconteceu em 2024. Por conta do G-20, a gente precisava apresentar uma exposição que apresentasse a arte brasileira para quem não conhecia, os líderes mundiais, as delegações convidadas. Fizemos uma exposição pensando os nossos acervos, nossas coleções, para contar essa história. E a exposição teve um retorno muito bom e a gente a remontou no bloco-escola, que é a primeira parte do museu onde ela foi instalada e que agora retorna como um legado do G-20. Depois que a gente montou a exposição no bloco-escola, veio o convite para uma parceria institucional com o CCBB para essa itinerância, que já passou por Belo Horizonte e Belém. E enquanto o CCBB de Salvador não está pronto, algumas instituições, com o apoio do CCBB, têm abrigado alguns projetos. Então, a gente foi para o nosso coirmão, o MAM-BA. Assim, encerramos essa itinerância por três cidades e as obras voltam para o Rio de Janeiro.

Você tem essa posição a favor da descentralização da arte no Sudeste e a sua atuação acadêmica é voltada para a produção artística negra. Você declara que, de certa forma, o mercado de arte ainda limita a atuação dos artistas negros como retratistas, por exemplo. Explique isso. Há artistas negros furando esse cerco?

No Diálogos Abertos do Itaú Cultural, em São Paulo, Rosana Paulino e Diane Lima puxaram um debate sobre isso, que talvez seja um processo de dez anos ou mais. A própria Rosana Paulino, desde os anos 90, fala e se a gente for mapear vai estar o Valentim, vai estar o Heitor dos Prazeres, muita gente. Nos últimos dez anos, tivemos um crescimento da presença de artistas negros na cena contemporânea, com muita performance, muitos vídeos, mas existe o mercado de arte, porque a gente lida com essas instituições. Nós lidamos com museus, mas há uma dimensão comercial da produção artística.

Uma necessidade genuína do povo negro de ter imagens e instaurar uma própria narrativa visual sobre si e não ser mais objeto do retrato do outro, como foi o caso dos modernistas, que criaram bastantes estereótipos sobre essa ideia do negro, do povo brasileiro, entrando aí um destaque para como muitos desses pintores famosos retrataram a população negra, e veio com muita força a necessidade de retratos, de imagens feitas por artistas negros de seus pares. Nesse movimento, surgiram nomes importantes, muitas técnicas diferentes, formas de pintar, artistas com propostas bastante autorais. E o mercado gostou disso, dessa arte figurativa, e isso acabou dando evidência maior ao retrato, a retratistas negros que pintam pessoas negras, do que propostas experimentais, de outras técnicas que não sejam pintura figurativa. Escola de arte é escola de criação, né? De liberdade, de expansão.

E então, ter como pressuposto uma definição do que você pode fazer ou não é repetir de alguma forma essa lógica dessa sociedade racista que define os lugares que a gente pode ocupar. Há que se ver com cuidado essa ênfase, mas também há que se celebrar que possamos pintar os nossos próprios retratos. Construir as nossas próprias narrativas. Mas havia essa coisa do mercado, que começou a valorizar economicamente mais a figuração negra, mais do que outros gêneros.

Poderia elencar alguns artistas negros que têm um trabalho bem interessante e ainda não são devidamente reconhecidos?

Eu acho tão chato citar nomes de artistas, é uma questão muito delicada. Eu vou esquecer de alguém, falar aqui na pressa. Aí, eu prefiro não (risos). Desculpa. Tem muita gente boa…por exemplo, eu estou agora fazendo a cocuradoria de uma exposição sobre Laudelina de Campos Melo, que foi uma liderança do movimento das trabalhadoras domésticas no Brasil. E na exposição temos predominantemente mulheres negras artistas. E tem gente lá que faz instalação, que trabalha com palavras, com bordados, com outros objetos. Acho que vou me contradizer aqui e dar o nome de uma artista. Mas é sempre muito complicado. Ela está na exposição e é de Minas, tem um trabalho com metal que a gente comissionou. Ela faz uma série de cadeiras. O nome dela é Dyana Santos. Ela trabalha muito com laço, faz performance, explora o próprio corpo. Tem a Siwaju, do Rio, que também trabalha com metal, muito interessante.

De Salvador, eu gosto muito do trabalho de Nádia Taquary, que traz uma adaptação da joalheria afro-brasileira e trabalha com a temática religiosa para o espaço artístico e traz uma composição muito interessante e ao mesmo tempo muito chique. E que bebe nessa tradição afrobrasileira e consegue construir e dialogar. Infelizmente, vou acabar sendo muito sudestina. Tem Agrade Camiz, Emilia Estrada, Jota Mombaça, que é do Rio Grande do Norte, Laís Amaral, Renata Tupinambá. Muita gente boa aí.



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