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Gutemberg Cruz destaca o protagonismo feminino nas HQs em novo livro

Dizia um antigo comercial de absorventes femininos na TV que “incomodada ficava a sua avó”. Lendo o livro Cheias de Charme – 101 Mulheres Empoderadas dos Gibis, do pesquisador baiano Gutemberg Cruz, uma dúvida é plantada: ficavam, mesmo? Se, na vida real, elas de fato ficavam (ainda ficam), nas HQs, mesmo algumas personagens centenárias – ou próximas dos 100 anos –, dificilmente davam mole pra macho opressor.

Felizmente, diga-se de passagem. Felizmente também que o livro do Gutemberg traz exatamente o oposto de uma visão machista de personagens femininas das HQs. Sim, porque numa folheada superficial, Cheias de Charme poderia ser interpretado como um mero desfile de femmes fatales em trajes colantes: aqui, quase todas as personagens são mulheres feitas, o que exclui por exemplo, empoderadas menores de idade e sem apelo sexual, como Mônica, Mafalda ou Luluzinha.

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Gutemberg, felizmente, está vacinado contra esse tipo de interpretação: “O risco de sexismo seria reduzir a mulher apenas ao papel de ‘femme fatale’. Meu livro faz o oposto: ele investiga como personagens adultas navegaram em um mercado historicamente dominado pelo olhar masculino para conquistar agência e autonomia. Mônica e Mafalda são ícones indiscutíveis, mas pertencem ao universo da infância e da tira satírica, que possuem dinâmicas sociais e de mercado muito diferentes das heroínas e anti-heroínas que analiso”, afirma.

Ao focar na evolução da mulher madura dentro das narrativas seriadas, Gutemberg joga luz em personagens que enfrentam dilemas morais, profissionais e românticos.

“Estou analisando a representação da mulher que precisa ‘quebrar o teto de vidro’ em mundos de fantasia e crime. O ‘Charme’ do título não se refere apenas à estética, mas ao carisma e à força de personalidade que permitiu que essas 101 mulheres deixassem de ser ‘donzelas em perigo’ para se tornarem as donas da própria história. O recorte do meu livro não é sexista porque ele não as valida pela beleza, mas pela complexidade de suas trajetórias em um meio (o gibi) que por décadas tentou limitá-las”, observa o autor.

| Foto: Divulgação

Autonomia narrativa

Colecionador e pesquisador de gibis e cartuns desde os anos 1960, Gutemberg lança mão de um vasto repertório em Cheias de Charme, apresentando, ordem alfabética, desde personagens publicadas desde os anos 1920 até os dias de hoje. Nos mais de 100 anos cobertos pelo livro, é possível notar esta evolução– por mais que algumas delas fossem “avançadas” para os anos 20 ou 30 do século 20.

“O grande legado desses 100 anos é a conquista da autonomia narrativa. No início, as mulheres eram ‘dispositivos de roteiro’ (a vítima a ser salva ou a secretária apaixonada). Hoje, elas são o motor da história. Saímos de personagens que existiam em relação ao homem (a namorada do herói, a filha do cientista) para mulheres que existem por si mesmas, com motivações, traumas e objetivos próprios. Ao longo deste século de publicações, os quadrinhos deixaram de ser um gueto infantil/masculino para se tornarem um espelho complexo das tensões de gênero da vida real”, nota Gutemberg.

Para o autor, a representação feminina nos quadrinhos ao longo desses 100 anos pode ser resumida em três “ondas”.

“’As Pioneiras e as Cônjuges’ (Anos 1930-50): mulheres como Lois Lane já eram intrépidas, mas o sistema as empurrava para o papel de ‘eterna pretendente’. O empoderamento aqui era a resistência e a inteligência em um mundo que queria que elas apenas se casassem. As musas da libertação (Anos 1960-70): Com a revolução sexual e o movimento feminista, surgem figuras mais assertivas e independentes. É a era das aventureiras que não pedem licença, como a Viúva Negra ou as heroínas do underground”.

“E finalmente, a desconstrução e o protagonismo (Anos 1990-Hoje): a trajetória culmina em personagens que questionam o próprio papel. Não mais apenas ‘versões femininas’ de heróis homens; elas possuem mitologias únicas e lideram suas próprias franquias. É o quadrinho como ‘termômetro social’”, explana.

Para o autor, as heroínas em quatro cores – com ou sem superpoderes – são mais do que meros cartuns ou desenhos.

“Hoje, uma mulher nos quadrinhos pode ser uma investigadora brilhante, uma deusa guerreira ou uma anti-heroína moralmente ambígua. Essa evolução nos diz que os quadrinhos amadureceram junto com seu público. Eles deixaram de ditar como a mulher deve ser (a ‘musa intocável’) para aceitar como a mulher realmente é: complexa, poderosa e multifacetada”.

“Olhar para esses 100 anos é perceber que as ‘musas de papel’ nunca foram apenas desenhos; elas foram trincheiras de liberdade. Cada traje mudado, cada luta vencida e cada tabu quebrado antecipou discussões que a sociedade só faria depois, nas ruas”, diz.

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| Foto: Divulgação

A polêmica do saiote

Por falar em traje mudado, uma questão que tem gerado discussão entre apreciadores – e apreciadoras – de HQ foi a mudança no modelito da Mulher Maravilha. Há alguns anos, a DC Comics decidiu que tê-la só de maiô por aí não era mais conveniente.

O saiote que ela hoje enverga sobre o maiô está consagrado, tanto nas HQs, quanto nas adaptações para o cinema. No entanto, houve quem se incomodasse. Gutemberg pensa diferente.

“O maiô clássico, embora icônico, era anatomicamente impraticável para uma guerreira. O saiote atual remete à armadura grega clássica (pteryges), o que reforça a identidade dela como soldado e princesa de um povo guerreiro ligado à Grécia antiga, em vez de apenas uma pin-up de maiô. Houve, sim, um recuo na exploração da sexualidade explícita no mainstream, mas talvez não por pudor, e sim por uma reavaliação do que é ‘libertador’. Nos anos 1970 e 80, a ousadia era muitas vezes uma ferramenta de quebra de tabus (pense em Barbarella ou nas obras de Milo Manara). Hoje, a indústria busca desassociar a força da mulher da sua disponibilidade sexual para o leitor. O ‘pudor’ que alguns veem pode ser, na verdade, uma tentativa de tornar essas personagens mais acessíveis e respeitadas por um público feminino que cresceu muito”.

“Enquanto as grandes editoras (Marvel/DC) buscam um visual mais ‘familiar’ e cinematográfico (focado em licenciamentos e brinquedos), o quadrinho autoral e o underground continuam tão ousados quanto antes. A ‘liberdade’ migrou do mainstream para as editoras independentes. Quando uma personagem sai do papel e vai para a tela, o figurino precisa sobreviver à física e à crítica social em escala global. O saiote da Mulher Maravilha no cinema, por exemplo, trouxe uma imponência de ‘épico histórico’ que o maiô de cetim dos anos 70 dificilmente passaria hoje”, nota.

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| Foto: Divulgação

Para Gutemberg, o próprio conceito de ‘ousadia’ mudou de lugar, não habitando mais a mera liberdade sexual, algo já conquistado e garantido.

“Não acredito que ficamos necessariamente mais pudicos, mas o nosso conceito de ‘libertação’ evoluiu. Se antes a ousadia estava na exposição do corpo como forma de afrontar a moral conservadora, hoje a ousadia está em garantir que essas mulheres sejam levadas a sério como estrategistas, líderes e guerreiras”.

“O saiote da Mulher Maravilha não é um esconderijo, é uma armadura de combate que a conecta às suas raízes gregas. A ‘musa de papel’ contemporânea não precisa mais pedir permissão para ser sexy, mas ela também não tem mais a obrigação de ser sexy 100% do tempo para justificar sua existência na página”, nota.

A obscura e as preferidas

Para além de discussões sobre saiotes e liberação feminina, o livro de Gutemberg traz muitas curiosidades, como personagens obscuras que sequer foram publicadas no Brasil. Segundo o próprio, a personagem mais obscura apresentada é Saga, uma alienígena de pele azul, protagonista da Saga de Xam, uma graphic novel francesa, escrita por Jean Rollin e desenhada por Nicolas Devil, publicado pelo lendário editor Eric Losfeld em 1967.

“Foi destinada a um público adulto, que misturava erotismo e ficção científica. Conta a viagem de Saga, a bela jovem de pele azul vinda do Planeta Xam para salvar um planeta Terra que não merece ser salvo, mas foi evoluindo, de forma orgânica, para se transformar num manifesto estético e político que prenuncia o Maio de 68 e onde encontramos, como figurantes no último capítulo, Barbarella, Bob Dylan, Allen Ginsberg, HP Lovecraft, John Lennon, Cassius Clay, os Hell’s Angels e os Rolling Stones, entre muitos outros”, conta Gutemberg.

“Os desenhos são psicodélicos, complexos e detalhistas, e os balões enormes, com textos longos em letras bizarras. Saga de Xam foi o divisor de águas entre o quadrinho clássico e a moderna escola narrativa, abrindo o caminho para obras como Paulette, de Wolinski e Pichard, Valentina, de Guido Crepax, 5 x Infinitus, de Steban Maroto, Delirius, de Philippe Druillet, e toda a escola ligada a revista Métal Hurlant. O crítico Moacy Cirne, numa análise detalhada em A explosão criativa dos quadrinhos (Vozes, 1971), indagou na época: “O que virá depois de Saga de Xam, este ‘escândalo visual’”?, acrescenta.

Mesmo em meio à um elenco tão vasto, o autor ainda consegue apontar suas duas favoritas, uma nacional e uma gringa.

“Gosto muito de Rê Bordosa, do Angeli. A junkie que virou musa da porralouquice nacional. Ela era a pin up dos anos 80, a mulher esponja. Com cabelos vermelhos espetados e óculos escuros, Rê Bordosa passou grande parte das suas histórias ou no bar, bebendo litros de vodca, ou na banheira, fumando, com os seios boiando. Um sucesso tremendo, Rê Bordosa começou a incomodar o próprio Angeli – que nem a considerava sua melhor personagem. Com medo de se repetir à exaustão, com ‘medo de fazer uma Mônica drogada’ – como contou em uma entrevista para o Itaú Cultural –, decidiu matá-la”.

“E desde adolescente, sou apaixonado pela Dale Arden, namorada do Flash Gordon, criado pelo excelente Alex Raymond. Poucas mulheres dos quadrinhos têm sua altivez, classe, sensualidade, seu charme e seu porte. Dale Arden é o protótipo da heroína do Romantismo, sendo incapaz de cometer qualquer ato indigno e disposta aos maiores sacrifícios para manter o motivo de sua paixão/existência, Flash Gordon, são e salvo. Sei que isso é muito romantismo, mas na adolescência eu amava Dale”, confessa.

Pesquisador incansável, Gutemberg tem lançado livros à razão de um ou dois por ano. E o próximo já está decidido.

“Quando Gonçalo Jr. (da Noir Editora) me sugeriu escrever um livro sobre gatos nos quadrinhos já tinha uma pesquisa feita há décadas sobre gatos e cães das HQs. Como ele só queria sobre gatos (pesquisa publicada no livro Gatolândia – Os felinos mais amados dos gibis), resolvi guardar a pesquisa de cães e este ano retornei. A lista já consta de 220 cães dos quadrinhos brasileiros, italianos, franceses, norte-americanos, japoneses e mexicanos, entre outros países”.

Agora é só “auguardar”.



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