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Foi roubo? Descubra porque O Agente Secreto saiu do Oscar 2026 sem prêmios

O Agente Secreto perdeu em quatro categorias no Oscar 2026 –

Nem o prestígio acumulado ao longo da temporada e nem a forte campanha internacional foram suficientes para garantir uma estatueta ao Brasil na maior premiação do cinema. Indicado em quatro categorias no Oscar 2026, O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado pelo baiano Wagner Moura, encerrou a cerimônia realizada neste domingo, 15, em Los Angeles, sem vitórias, resultado que gerou frustração entre parte do público e abriu debates nas redes sociais sobre os critérios da Academia.

O longa brasileiro acabou superado em todas as categorias em que concorria. Wagner Moura perdeu o prêmio de Melhor Ator para Michael B. Jordan (Pecadores), enquanto o troféu de Melhor Elenco ficou com Uma Batalha Após A Outra.

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Nas premiações principais, o Oscar de Melhor Filme Internacional foi para Valor Sentimental, e Uma Batalha Após A Outra também levou o prêmio máximo da noite, o de Melhor Filme.

A repercussão do resultado foi imediata nas redes sociais, especialmente por conta da vitória do longa norueguês Valor Sentimental. Alguns usuários questionaram a elegibilidade da produção na categoria de Filme Internacional por conta da presença de diálogos em inglês.

Em uma publicação no X, um usuário escreveu: “Filme com idioma em inglês não é filme internacional, é filme americano disfarçado”. Outro respondeu ao comentário dizendo: “Fora a quantidade de atores e atrizes estadunidenses… é absurdo esse filme ter concorrido como filme estrangeiro”.

Para entender o resultado da premiação e a repercussão em torno da derrota brasileira, o Cineinsite A TARDE ouviu Rafael Carvalho e João Paulo Barreto, ambos membros da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), e críticos de A TARDE.

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Entre expectativa e realidade na disputa

Apesar da frustração de parte do público brasileiro, o resultado não foi totalmente inesperado para quem acompanhou de perto a corrida pelo Oscar deste ano. Para o crítico Rafael Carvalho, a derrota do Brasil na categoria de Filme Internacional já era uma possibilidade real dentro do cenário competitivo da temporada.

“Tivemos poucos surpresas este ano no Oscar. Então, o Brasil perder na categoria Internacional, que era onde a gente tinha mais chance, não foi tão imprevisível assim. É frustrante porque tínhamos uma esperança pela força que O Agente Secreto passou a ter na reta final. Mas era uma disputa mais difícil que a do ano passado”, afirmou ao Cineinsite A TARDE.

O crítico ressalta que, embora o filme brasileiro tenha conquistado grande visibilidade internacional e fortalecido sua campanha nas semanas que antecederam a premiação, a competição era especialmente forte nesta edição. Para ele, a derrota se explica menos por falhas na campanha e mais pelo peso dos concorrentes que disputavam as mesmas categorias.

“A força dos concorrentes foi o que mais pesou. A campanha do filme brasileiro foi ótima, teve muito investimento e a equipe central do filme estava muito engajada e participativa durante todo o processo. Fizemos o possível e fizemos bonito”, afirmou Rafael.

“Mas os concorrentes vieram com mais força mesmo. E talvez o fato do Brasil já ter vencido em Internacional um ano antes pode ter pesado para os membros escolherem outro concorrente”, completa.

João Paulo Barreto também analisa o cenário da premiação dentro de uma disputa bastante equilibrada, especialmente na categoria de Filme Internacional, onde vários títulos chegaram com campanhas fortes e reconhecimento crítico.

“Havia um equilíbrio muito forte esse ano na categoria de Filme Internacional. Diferente do ano passado, cujas declarações problemáticas da atriz de Emilia Pérez foram cruciais para a perda de força do filme já em sua reta final, a qualidade da obra de Walter Salles sobre seu concorrente direto era evidente. A vitória de Ainda Estou Aqui era certa, realmente. Este ano, a força de todos os concorrentes se assemelhava, mesmo que em temas distintos em suas abordagens”, disse o crítico.

O peso de Valor Sentimental na corrida

Entre os concorrentes que se destacaram na temporada estava Valor Sentimental, drama norueguês que acabou levando a estatueta de Melhor Filme Internacional.

Para Rafael Carvalho, a vitória da produção europeia era algo que já vinha sendo desenhado ao longo da campanha de premiações. “Este é o primeiro Oscar da Noruega e o filme tinha muito mais indicações que o brasileiro. Acho que isso contou a favor dele, fora o fato de estar sendo considerado favorito já há muito tempo. Então foi uma vitória previsível.”

Na avaliação de João Paulo Barreto, o filme também conquistou a Academia por apresentar uma narrativa dramática de forte apelo universal, algo que frequentemente pesa nas decisões dos votantes da premiação. “Não diria que o resultado seria previsível, uma vez que já vimos obras que fugiam do lugar comum, do mesmo modo como O Agente Secreto, ganharem o prêmio máximo (vide Parasita, na cerimônia de 2020)”.

“Mas como disse, a obra de Joachin Trier, em sua abordagem dramática familiar de reconciliação paterna, ao meu ver, teve um impacto maior na concepção dos votantes da academia”, completou.

Segundo o crítico, esse tipo de narrativa tende a dialogar com maior facilidade com o perfil médio dos membros da Academia. “Trata-se de um filme cujo apelo dramático de seu tema central possui uma identificação mais perceptível com o perfil dos votantes. Isso, obviamente, não diminui o brilho do longa de Kleber Mendonça Filho, uma obra estupenda tecnicamente e dramaticamente, e que só reafirma a qualidade do nosso cinema.”

Valor Sentimental tirou o Oscar do Brasil | Foto: Divulgação

A polêmica do idioma e as regras do Oscar

Nas redes sociais, um dos principais argumentos levantados por internautas brasileiros foi o de que Valor Sentimental teria muitos diálogos em inglês, o que, segundo alguns usuários, descaracterizaria a obra como um filme internacional.

Para Rafael Carvalho, no entanto, essa crítica não se sustenta quando analisada sob uma perspectiva mais ampla da produção cinematográfica e da própria identidade cultural da obra.

“Isso de chamar Valor Sentimental de ‘filme americano’ é uma bobagem. O coração do filme é norueguês e o diretor mantém raízes profundas em seu país. O filme dialoga, inclusive, com a forte tradição teatral dos países nórdicos. Esse é o tipo de estratégia argumentativa usada apenas para tentar minimizar a força do nosso maior concorrente, mas é descabido”, afirmou.

O crítico reconhece que a presença de artistas ou elementos internacionais pode ampliar a visibilidade de uma produção, mas ressalta que os aspectos centrais de um filme continuam sendo aqueles ligados à sua qualidade artística. “É claro que a presença de uma atriz estadunidense traz maior atenção para o filme, mas as qualidades dele (direção, atuação, roteiro) são o que valorizam a produção.”

João Paulo Barreto lembra que a própria Academia estabelece critérios claros para definir o que pode ou não ser considerado um filme internacional.

“Como diria Paulo Cesar Coelho, a regra é clara: ‘O país que inscreve o filme deve confirmar que o controle criativo da obra esteve majoritariamente nas mãos de cidadãos ou residentes ou de indivíduos com status de refugiado ou asilado no país inscrito.’ Além disso, outro ponto bem específico é; ‘A trilha de diálogo original e a versão final do filme devem ser predominantemente (mais de 50%) em um ou mais idiomas que não o inglês. Legendas em inglês precisas e legíveis são obrigatórias’”, disse.

Dessa forma, mesmo que existam trechos em inglês no filme norueguês, isso não o desqualifica automaticamente da categoria. “Ou seja, apesar de Valor Sentimental conter diálogos em inglês, os mesmos não ultrapassam essa porcentagem pré-determinada nas regras da Academia.”

Um momento importante para o cinema brasileiro

Apesar da derrota no Oscar, os críticos destacam que o desempenho de O Agente Secreto ao longo da temporada reforça o momento de visibilidade que o cinema brasileiro vem vivendo no cenário internacional.

“Acima de tudo, acho que este é um momento de visibilidade para o cinema nacional e para as histórias que são produzidas aqui. Não apenas para o público estrangeiro, mas também para o próprio brasileiro que precisa ver e valorizar mais a cultura local”, afirmou Rafael Carvalho.

Segundo ele, a presença frequente de produções brasileiras em grandes festivais internacionais indica que o país segue ganhando espaço e reconhecimento no circuito global do cinema. “Em termos internacionais, já há algum tempo o Brasil vem aparecendo forte em muitos festivais. Este ano, já tivemos diversos filmes brasileiros em Berlim, e a tendência é que a gente continue marcando presença nesses espaços de consagração.”

Para João Paulo Barreto, o momento atual do audiovisual brasileiro também deve ser visto como um sinal da força criativa do país, mesmo diante de desafios políticos e econômicos que afetam o setor.

“Trata-se de um momento fantástico. Em uma indústria que gera tantos empregos e que, ao mesmo tempo, é tão maltratada por interesses políticos mesquinhos e ignorantes, ver o cinema brasileiro ser reconhecido dessa forma não somente pelas indicações ao Oscar, mas em diversos outros festivais e premiações do mundo, é a prova do quanto precisamos nos valorizar como uma dos melhores indústrias do audiovisual de todo o planeta”, finaliza.



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