Não é somente a política brasileira que tem vivido turbulências agressivas nos últimos anos, o agronegócio tem demonstrado preocupações com o cenário econômico, principalmente quando este encontra dificuldades para driblar as altas taxas de juros, aumento na inadimplência entre os produtores e agora, os impactos com a chegada do El Niño.
Uma disputa acirradíssima na política portanto joga luz sobre o futuro do agronegócio que dependerá de políticas firmes e decisivas de governo para fortalecer o setor econômico que mais cresce no país. Especialistas acreditam, entretanto, que os próximos quatro anos devem ser marcados por períodos de turbulência imediata e um alívio tardio.
Para o diretor executivo de crédito e segmentos do Sicredi, Gustavo Freitas, o ano de 2027 e início de 2028 serão os mais desafiadores para o agro, uma vez que o El Niño terá impactos diretos na safra do próximo ano.
“Os dados divulgados pelo mercado mostram uma trajetória recorde negativa e a gente tem observado isso de muito perto. É um cenário desafiador. Não vejo quatro anos de pujança ou de pontos muito positivos como tivemos há anos atrás, mas vejo alguma coisa dando sinais positivos”, continuou Freitas em entrevista ao 11° Encontro Nacional com Jornalistas e Formadores de Opinião do Sicredi.
Matopiba deve se preocupar?
A chegada do El Niño pressiona ainda mais o produtor com a possibilidade de impactos na Bahia acima de R$ 13 bilhões, segundo levantamento da Federação de Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb).
Além das perdas no campo, o fenômeno pode reduzir a oferta de alimentos, pressionar a inflação, elevar o preço da cesta básica e provocar impactos sociais, como aumento da migração e do êxodo rural.
Entretanto, Gustavo Freitas aponta que os impactos sejam ínfimos para a região de Matopiba, que abranger o Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que concentra a produção de soja, milho e outras commodities e deve passar por escassez de chuva no período.
“Em comparação a outros estados, a região de Matopiba não é a mais afetada”, explica ele.
Crise no setor agrícola
A curto prazo, o momento é de dificuldade, mas após o aperto, o diretor espera uma melhora para o produtor que costuma “superar muito bem” as dificuldades e aprendeu a lidar com momentos de crises.
“Nos últimos dez anos, o setor teve muito sucesso com margem positiva, crescimento muito grande, não somente de atividade, mas de produtividade entre os produtores. Produzimos mais, com nível de preços atrativos. Há cerca de três anos, houve uma inversão de cenário importante, com queda nos preços de commodity de forma geral, com raras exceções”, explica ele
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De acordo com o especialista, o milho e a soja foram as commodities que mais sentiram o aperto no setor, e isso foi influenciado pelas altas taxas de juros, mas também o custo da atividade no pós pandemia e uma margem mais apertada para o produtor, que entrou no radar da inadimplência.
A inadimplência dos produtores com instituições financeiras em 2026 cresceu cerca de dez vezes nestes três anos, fixando em 8,8% do setor. Os saldos das operações em atraso há mais de 90 dias saltaram de R$ 3,8 bilhões, em julho de 2023, para R$ 38,4 bilhões em abril de 2026, de acordo com levantamento da Agroicone com base em dados do Banco Central.
Seguro rural preocupa empresários
Outro ponto de preocupação do setor está relacionado ao seguro rural, que é a mais baixa em anos. Para especialistas do setor de crédito, o nível de cobertura ainda é incipiente e deve levar alguns anos para a sua institucionalização.
A área segurada com recursos de subvenção tem encolhido ano após ano: de um recorde de 17,5% da área plantada em 2021 para 3,6% em 2025 (cerca de 3,3 milhões de hectares).
Recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sancionou a lei que reforma o Marco Legal do Seguro Rural e blinda contra cortes os subsídios públicos destinads ao setor.

*A repórter viajou ao Rio Grande do Sul a convite da Sicredi.