Antes de se transformar em canção, a música passa pelos ouvidos, pela memória e pela curiosidade de Ed Motta. O cantor, que durante anos dormiu com um rádio ao lado da cama, fez dessa escuta atenta uma maneira de descobrir sons e construir sua identidade artística.
Agora, depois de mais de uma década cantando em inglês, ele volta a encontrar palavras em português para melodias que dialogam com suas origens. O resultado é “Toc-Toc”, primeiro álbum do artista em língua portuguesa após 13 anos, que revisita sonoridades do passado sem deixar de olhar para o presente.
Lançado em 25 de setembro, o novo trabalho reúne 11 faixas inéditas, produzidas por Ed Motta em parceria com Michel Limma. Entre soul, funk, bossa nova, baladas e elementos eletrônicos inspirados nos anos 1980, o disco recupera a atmosfera de seus primeiros trabalhos, mas incorpora a experiência acumulada ao longo de décadas. Canções como “Eu Quero Ser Feliz”, “O Desejo Está Nu” e “Casa de Frente pro Mar” ajudam a construir esse reencontro musical, que também passa pelas referências, pelas memórias e pela parceria criativa com Edna Lopes, sua companheira há 36 anos.
Os bastidores dessa criação são tema de uma entrevista concedida ao jornalista e radialista Antonio Pitta, apresentador e produtor do programa “Conversa Brasileira”, da A TARDE FM (103,9), que vai ao ar neste sábado, 10, às 21h. Em um bate-papo que atravessa música, memória e gastronomia, Ed Motta também fala sobre sua relação com a Bahia e o desejo de voltar a se apresentar no estado.
A seguir, o portal A TARDE antecipa alguns trechos da conversa. A entrevista completa, com outras histórias e revelações do artista, poderá ser acompanhada pelo rádio, pelo site atardefm.com.br e pelo aplicativo da emissora.
Confira trechos da entrevista de Ed Motta ao Conversa Brasileira
Antonio Pitta: Ed, ouvindo “Toc-Toc”, uma coisa me chamou bastante a atenção. Você queria, ao que me parece, fazer um disco mais pop, mas não abriu mão da complexidade. Você conseguiu simplificar sem sentir que estava se traindo?
Ed Motta: Não, eu, justamente, estou sempre compondo, né? E compondo coisas em estilos diferentes.
Hoje, com a facilidade digital, no celular, eu organizo em pastas diferentes, por estilo. Ah, essas são as pop, essas aqui são as mais brasileiras, essas aqui são mais americanizadas, isso aqui é uma valsa, isso aqui é pensando em uma trilha de um filme ou trilha para teatro, essas coisas todas.
E aí apareceu um grupo de canções que remetiam muito aos meus primeiros discos, com essa pegada soul, funk. Foi o que me lançou no mercado no final dos anos 80. E aí eu resolvi fazer o disco no caminho que essas quatro, cinco músicas indicavam. E eu acho que é justamente isso.
Tem uma comunicação com essa simplicidade, com essa crueza desse começo, mas não abre mão da minha realidade. É um cara de 55 anos que fez trilha para cinema, fez disco instrumental, fiz um musical para teatro, fiz um monte de coisas diferentes, e isso acaba se refletindo nos cacoetes de quando a gente compõe, quando a gente faz música.

Ed, “Eu Quero Ser Feliz”, uma das faixas do seu disco, inclusive a faixa que abre o álbum, você costuma complicar bastante, às vezes, as coisas, musicalmente falando, e estava com vontade de dizer alguma coisa de um jeito mais simples, diferente?
Sim, sim, com certeza. Eu queria fazer algo. Na verdade, quando fiz, eu estava brincando no violão, tocando no violão, e surgiu a melodia dela, com as partes dela e tudo. Eu falei: “Poxa, isso tem que ser em português, essa música”, porque isso fala com o público que cresceu ouvindo minha música, que me acompanha, que está envelhecendo junto comigo.
E também comunica com uma nova geração. Tem uma nova geração que está muito ligada nisso, tem um pessoal que, por exemplo, quando eu clico na internet, nos gráficos de pesquisa para ver, tem um pessoal superjovem, que tem idade para ser quase que meu neto, meu filho, meu neto, sei lá, sabe Deus, que está curtindo minha música. Um pessoal mais jovem, que entra nas minhas lives, entra na minha rede social para fazer perguntas, para comentar, um pessoal de vinte e poucos anos.
Então você vê que a música é realmente atemporal, quando você consegue se comunicar. Acho eu que a música brasileira como um todo é atemporal. Os artistas brasileiros se comunicam com várias gerações. Não é apenas uma sorte minha, é uma sorte de todos no país. Todos conseguem se comunicar com uma gama grande, geracional.
Hoje, a gente ouve o disco, é um disco sofisticado, é um disco atemporal, na minha opinião, tanto nas letras quanto na sonoridade, mas a gente tem um quê ali, por conta talvez do synth bass, lá dos anos 80, né? O que você gosta daquela época? É o som, os instrumentos, a maneira de produzir, a busca pela melodia perfeita?
Olha, é a época em que eu fui adolescente, em que eu cresci, mas, na verdade, nessa época mesmo, eu estava curtindo o rock, eu estava escutando rock dos anos 70, eu não estava ouvindo tanto esse tipo de música. Eu estava curtindo o rock dos anos 70, eu achava que me transformaria em um grande guitarrista de rock, esse era o meu sonho, ali nos anos 80, pré-adolescente.
Mas aquela música que estava tocando, ela estava passando na minha vida também. Eu tinha um radinho, eu era fissurado por rádio demais, eu dormia com rádio. Olha, eu só fui dormir sem rádio quando eu me casei, em 1990. Eu dormia com o rádio do lado na cama e, às vezes, trocava de estação e tudo. No meio da noite, levantava para fazer pipi, trocava de estação e voltava de novo. Uma loucura, quer dizer, a pessoa não dorme direito, dorme ouvindo música, né?
Mas isso me ensinou muito, me ensinou demais, me ensinou demais. Ouvir rádio de madrugada e deixar a música penetrar sem você perceber, né?

Ed, você chegou a dizer que existe uma neurose do casal, né? Que acaba entrando nas músicas. Tem alguma canção desse disco que vocês dois sabem exatamente de onde veio, mas o público nunca vai saber? É o segredo mais guardado da união?
Não, não. Não tem nada autobiográfico. É a gente como narrador. E mesmo como narrador, cada um quer ser um narrador de uma coisa. Então são discursos diferentes, mas parecidos. Mas não é… É sempre, e tem hora que o olhar é exatamente idêntico, de ironia, de tudo isso.
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Mas entre vocês dois, quem conta um conto e aumenta o ponto?
Ah, eu aumento mais. Sou leonino, eu minto pra caramba. Eu minto muito. Eu sou um mentiroso compulsivo.
E a turnê, quando é que sai?
A turnê já… A gente já está por aí, fazendo aos poucos. Espero tocar na Bahia. Espero estar mais magro para poder chegar na Bahia sem dieta, porque quem vai para a Bahia de dieta tem que ser castigado.
Não, não existe.
Quando eu estou na Bahia, rapaz, eu nem deixo a mala no hotel.
É mesmo?
É, eu vou primeiro resolver as questões, porque eu só como a comida baiana na Bahia.
No Rio, tem muitos restaurantes de comida baiana, com todo o respeito, não estou criando problema com ninguém. Mas não tem nada a ver com o que é feito aí. É muito diferente.
Quem teve a possibilidade de visitar, você come um acarajé aí, você come um acarajé do Rio, não tem nada a ver. É diferente demais. Eu espero sempre pela oportunidade.
O chato do acarajé é que só tem de tarde. Sinceramente, deveria existir um acarajé que abrisse de manhã, que é para quem chega, o turista que chega, já poder comer um acarajé.

Como ouvir a entrevista completa com Ed Motta
O programa “Conversa Brasileira”, apresentado e produzido por Antonio Pitta, vai ao ar neste sábado, 10 de outubro, às 21h, na A TARDE FM (103,9).
Além da transmissão pelo rádio, os ouvintes podem acompanhar a entrevista pelo site atardefm.com.br e pelo aplicativo da emissora. Na conversa completa, Ed Motta também relembra a influência de Robson Jorge e Lincoln Olivetti, fala sobre as particularidades de compor em português e em inglês, compartilha histórias da parceria musical com Edna Lopes e revela outras curiosidades sobre suas paixões musicais e gastronômicas.