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Decisão dos EUA contra PCC e CV pode atingir PIX e bancos; entenda

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas acendeu um alerta no mercado financeiro e entre empresas com atuação internacional. Embora a medida não imponha barreiras comerciais diretas ao Brasil, especialistas apontam que os efeitos podem ser sentidos no sistema bancário, em operações financeiras e até na percepção de risco do país.

O anúncio foi feito pelo governo de Donald Trump na quinta-feira, 28. As duas facções já passaram a integrar a lista de “Terroristas Globais Especialmente Designados” e, a partir de 5 de junho, também serão incluídas na relação de “Organizações Terroristas Estrangeiras” mantida pelos Estados Unidos.

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Sistema financeiro deve sentir os primeiros efeitos

Na avaliação de especialistas, o principal impacto da decisão americana tende a ocorrer dentro do setor financeiro.

Com a nova classificação, instituições que mantenham qualquer relação — mesmo indireta — com recursos ligados aos grupos passam a enfrentar um ambiente de fiscalização mais rigoroso. A expectativa é que bancos, fintechs, cooperativas de crédito e empresas de pagamento reforcem mecanismos de controle para identificar a origem dos recursos movimentados.

O objetivo é reduzir riscos de sanções e atender às exigências cada vez mais rígidas do sistema financeiro internacional, especialmente para instituições que operam em dólar ou possuem relações com o mercado americano.

Um exemplo semelhante ocorreu no México, quando o Tesouro dos Estados Unidos bloqueou operações envolvendo instituições financeiras suspeitas de ligação com esquemas de lavagem de dinheiro associados a cartéis do narcotráfico.

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PIX entra no radar das autoridades

O PIX também deve passar a receber atenção adicional.

Como movimenta bilhões de reais diariamente e permite transferências instantâneas, especialistas avaliam que o sistema pode ser alvo de um monitoramento mais intenso por parte de órgãos de fiscalização e instituições financeiras.

Nos últimos anos, investigações da Polícia Federal têm apontado o uso de contas digitais, empresas de fachada e transferências eletrônicas como mecanismos utilizados para ocultar a origem de recursos ilícitos.

Nesta semana, por exemplo, a Operação Fluxo Oculto, derivada da Operação Carbono Oculto, investigou a atuação da chamada “máfia da nafta”, que utilizava as chamadas contas-bolsão — estrutura que mistura recursos de diferentes clientes em uma mesma conta para dificultar o rastreamento das movimentações.

Para Felipe Sant’Anna, analista da Axia Investing, seguir o caminho do dinheiro costuma ser uma das estratégias mais importantes no combate ao crime organizado.

“O rastro do dinheiro é sempre a primeira linha de atuação em medidas desse tipo. O PIX naturalmente entra nesse monitoramento porque movimenta um volume enorme de transações diariamente”, afirmou ao G1.

“Tivemos recentemente operações envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro via PIX. Tudo isso agora pode entrar no escopo dessa nova classificação das facções”, declarou.

Segundo ele, o crescimento do PIX já vinha sendo observado com atenção pelo mercado americano, especialmente após a redução da participação de empresas tradicionais de cartões e meios de pagamento dos Estados Unidos no Brasil.

Diferença entre Brasil e EUA gera preocupação

Um dos pontos que mais preocupa investidores está relacionado à diferença entre o enquadramento jurídico adotado pelos dois países.

Enquanto os Estados Unidos passaram a considerar PCC e CV como organizações terroristas, o Brasil continua tratando os grupos como facções criminosas.

Na prática, isso altera significativamente o grau de risco para empresas e instituições financeiras que possuem operações ligadas ao mercado americano. Pela legislação dos EUA, qualquer apoio direto ou indireto a organizações classificadas como terroristas pode resultar em sanções severas.

Essa divergência aumenta a insegurança jurídica e leva empresas a adotarem procedimentos mais rígidos de conformidade e controle.

Para Milene Dellatore, especialista em investimentos e sócia-diretora do Grupo Mide, o principal efeito imediato está relacionado à imagem do país diante dos investidores internacionais.

“Investidor estrangeiro não gosta de ruído institucional. Quando o Brasil aparece associado a terrorismo, mesmo que o problema real seja crime organizado, isso cria um red flag (sinal de alerta). Ele começa a olhar o país com mais cuidado, principalmente em setores financeiros, infraestrutura, logística, portos, combustíveis e empresas com operação internacional”, afirmou ao G1.

Empresas podem enfrentar mais auditorias

Especialistas também avaliam que o novo enquadramento tende a elevar a complexidade das operações empresariais ligadas ao mercado internacional.

Empresas brasileiras com ações negociadas no exterior ou presença em outros países podem passar por processos mais rigorosos de fiscalização e investigação.

Setores que movimentam grandes volumes de recursos, como combustíveis, logística e mercado imobiliário, estão entre os que podem enfrentar exigências adicionais de auditoria e controle.

Para Beny Fard, sócio da B8 Partners, o impacto mais relevante não está nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, mas nos custos operacionais.

“A decisão muda menos o comércio entre os dois países e mais o custo de operar sob a lei americana”, afirmou ao G1.

“A lei antiterrorismo dos EUA pode alcançar instituições que processem recursos ligados às facções mesmo sem conhecer a origem do dinheiro”, concluiu.

Cooperação internacional deve aumentar

A tendência, segundo especialistas, é de ampliação da cooperação internacional em áreas ligadas à inteligência financeira, combate à lavagem de dinheiro e rastreamento de recursos ilícitos.

Para Matheus Balbino, professor de Relações Internacionais do Centro Universitário Braz Cubas, a medida não representa sanções automáticas ao Brasil, mas aumenta a pressão internacional para aprimorar mecanismos de controle.

“A tendência é de fortalecimento dos mecanismos de rastreamento de recursos, especialmente em operações internacionais, criptomoedas, empresas de fachada e movimentações financeiras consideradas atípicas”, afirmou ao g1.

Nesse cenário, órgãos como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) tendem a ganhar ainda mais relevância na identificação de operações suspeitas.

O especialista também destaca o papel do Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI/FATF), organismo responsável por definir padrões globais de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.

Dólar e bolsa podem sentir os reflexos

Apesar de especialistas não enxergarem impactos significativos sobre a economia brasileira no curto prazo, a decisão pode influenciar a percepção de risco dos investidores.

Em momentos de maior incerteza, investidores costumam exigir retornos mais elevados para manter recursos em mercados considerados mais arriscados. Esse movimento pode pressionar o câmbio e aumentar a volatilidade dos ativos financeiros.

Na sexta-feira (29), o Ibovespa recuou 0,73%, encerrando o pregão aos 173.787 pontos, o menor patamar desde janeiro. No mesmo dia, o dólar avançou 0,21% e fechou cotado a R$ 5,0424.

Segundo Felipe Sant’Anna, o aumento da cautela tem levado parte dos investidores a reduzir exposição principalmente em ações de bancos e empresas do varejo, setores mais sensíveis ao ambiente de incerteza.

Ainda assim, analistas ressaltam que a queda recente da bolsa brasileira não está relacionada exclusivamente à decisão dos Estados Unidos. O mercado já vinha registrando perdas nas últimas semanas, em um cenário influenciado também por fatores externos, como as tensões no Oriente Médio e o aumento da aversão global ao risco.



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