Para quem vê motocicletas cruzando trilhas e terrenos acidentados, a impressão costuma ser a mesma – vence quem acelera mais. No Enduro de Regularidade, no entanto, a lógica é completamente diferente.
Nessa modalidade do motociclismo off-road, o piloto mais rápido nem sempre é o vencedor. Na verdade, acelerar demais pode custar posições preciosas, fazendo com que o segredo para vencer seja encontrar o equilíbrio perfeito entre velocidade, navegação, controle emocional e precisão matemática.

É por isso que muitos praticantes definem a modalidade como um verdadeiro “xadrez sobre rodas” – e ninguém melhor para entender essa realidade do que alguém que conhece a moto tanto como piloto, quanto como mecânico.
É o caso do baiano Ricardo Neto, piloto graduado do Campeonato Baiano de Regularidade, campeão de etapa do Campeonato Brasileiro e profissional especializado em suspensões off-road. Para ele, a comparação com o jogo de estratégia não poderia ser mais adequada.
“O xadrez realmente representa muito bem o que é o Enduro de Regularidade. Você precisa pensar o tempo todo, ser cauteloso, tomar decisões rápidas e confiar totalmente no seu equipamento. Qualquer erro custa caro”, conta.
Muito além da velocidade
Ao contrário de modalidades tradicionais do motociclismo, em que vence quem percorre o trajeto no menor tempo possível, o Enduro de Regularidade funciona a partir de médias de velocidade pré-estabelecidas.
Cada piloto recebe um horário específico de largada e deve percorrer o trajeto dentro do tempo determinado pela organização, sem ir nem mais rápido, nem mais devagar. A missão, então, é ser preciso.
“Você não pode andar atrasado e nem adiantado. Existe uma média que precisa ser cumprida durante toda a prova. Se você termina atrasado, perde pontos. Se termina adiantado, também perde pontos”, explica Ricardo.

O resultado, assim, é uma competição que exige muito mais do que habilidade para pilotar, já que o piloto precisa interpretar informações constantemente, controlar seu ritmo e tomar decisões sob pressão enquanto enfrenta trilhas, pedras, subidas e descidas.
“É muito matemático. Às vezes você encontra uma dificuldade na trilha e perde alguns segundos. Depois precisa recuperar esse tempo sem cometer erros. Tudo influencia”, conta ele.

Como funciona a navegação
Grande parte da complexidade da modalidade está justamente na navegação. As provas são planejadas previamente pelos organizadores e carregadas em equipamentos eletrônicos utilizados pelos competidores.
Atualmente, boa parte dos pilotos utiliza sistemas integrados a smartphones, capazes de fornecer referências e indicar o percurso correto durante a competição. O desafio é interpretar essas informações enquanto conduz a motocicleta em terrenos muitas vezes desconhecidos.
“As trilhas normalmente ligam uma cidade à outra. Você não conhece o percurso. Vai navegando com base nas referências do equipamento e, ao mesmo tempo, precisa manter seu tempo de prova”, detalha Ricardo.

Se errar uma referência ou entrar em um caminho incorreto, a consequência aparece imediatamente: “O aparelho informa se você está atrasado ou adiantado. Quando você erra um trecho, o tempo começa a aumentar. Aí você precisa recuperar”.
“Você está o tempo inteiro pensando. Pensando no caminho, pensando no tempo, pensando no equipamento. Não existe momento para desligar a mente“, conta.
Leia Também:
Corpo forte, mente preparada
Assim, não basta preparar o físico do atleta – é essencial também preparar a mente de quem vai pensar em tudo ao mesmo tempo enquanto pilota a moto. Em muitos casos, os pilotos passam horas seguidas enfrentando pedras, lama, areia e calor intenso, precisando de ainda mais resiliência física e mental.
Ricardo mantém treinamentos semanais voltados tanto para condicionamento físico quanto para pilotagem: “O treinamento é contínuo. Eu treino fisicamente durante a semana e também treino de moto. A preparação não para”.

O aspecto mental, no entanto, é igualmente importante, fazendo com que boa parte do trabalho comece antes mesmo da largada. “O dia anterior já é muito importante. Você precisa se concentrar, descansar e chegar equilibrado. Durante a prova, se o nervosismo tomar conta, fica muito mais difícil resolver os problemas“, conta ele.
“Você encontra dificuldades o tempo todo. Se não estiver concentrado, acaba cometendo mais erros”, completa.
Teste de resistência emocional
Ao longo da carreira, Ricardo acumulou diversas conquistas, mas uma das experiências mais marcantes não terminou com vitória. Durante uma etapa realizada em Aracaju, em 2022, uma forte chuva obrigou a organização a alterar parte do percurso.
O cenário provocou confusão entre os pilotos e muitos acabaram se perdendo, inclusive ele. “Eu me perdi em um trecho de difícil acesso e fiquei sozinho. Era um local complicado para sair e eu já estava muito cansado“, lembra.

O que deveria ser apenas mais uma corrida se transformou em um exercício extremo de controle emocional: “Foi um momento em que precisei manter a calma. Eu estava exausto, sem saber exatamente onde estava. Saí daquele trecho já à noite“.
Mesmo diante das dificuldades, conseguiu concluir a prova e terminar na segunda colocação, vivendo e provando na prática a importância do equilíbrio psicológico dentro do esporte.
Futuro do Enduro
Apesar da complexidade e do nível técnico exigido, Ricardo acredita que o Enduro de Regularidade ainda possui enorme potencial de crescimento na Bahia, caso seja mais reconhecida pelo público.
“Hoje temos uma federação muito ativa e organizada. O que falta é visibilidade. Falta mostrar para as pessoas como o esporte realmente funciona”, expõe.

Na visão do piloto, muitos jovens poderiam descobrir no Enduro uma oportunidade de desenvolvimento pessoal e esportivo, assim como aconteceu com ele. “Quando as pessoas entendem a modalidade, elas se apaixonam“, diz.
“Quem entra no Regularidade normalmente quer continuar. É um esporte que exige muito da gente, mas entrega experiências que são difíceis de encontrar em qualquer outro lugar“, completa.