Nascida e criada no Maciel, a diretora administrativa e financeira do Grupo Olodum se mudou no último dia 13 para Luís Anselmo. Apesar de não ter sido afetada diretamente em sua infância pelo ambiente ligado às drogas e à prostituição, Magda Paim decidiu criar o seu filho, hoje com seis anos, em um bairro diferente.
Mas os laços com o bairro se mantêm. Esse é o seu local de trabalho e, no próximo domingo, dia 7, Magda volta ao Centro Histórico para participar da 3ª Caminhada dos Amigos do Maciel – Pelourinho, um evento criado para preservar os vínculos com quem foi forçado a sair do bairro após a reforma do casario colonial, entregue em 1993, que à época transformou o antigo abrigo de pessoas pobres e marginalizadas em um centro de compras, gastronomia e lazer para a classe média soteropolitana e os turistas.
E Magda tem um motivo especial para estar presente no domingo que vem. O seu pai, Mestre Gilmar, é um dos homenageados da caminhada, que começa no Santo Antônio Além do Carmo e termina no Largo Quincas Berro d’Água, com shows e feijoada.
Entre as lembranças do pai, Magda cita os eventos de samba que a velha guarda do Pelourinho organizava e o encontro com os amigos no meio da rua para jogar dominó, uma prática que outros moradores mantêm até hoje. “Sempre lembro daqueles momentos, a felicidade era estampada no rosto de cada um”, conta.
Morto em 2023, aos 77 anos, vítima de um câncer, Mestre Gilmar Paim foi um dos personagens que deram ao Centro Histórico de Salvador uma identidade incontestável, mas que fora da literatura de Jorge Amado demorou a ser apreciada. O resto da cidade evitou por décadas adentrar essas vielas com casarões mal conservados e superlotados de moradores.
Parte da classe média temia ataques a navalha e a abordagem de pessoas pobres, embora o público masculino frequentasse os bordéis. Mas pouca gente se atinha à riqueza cultural que brotava dos paralelepípedos. Músicos, prostitutas, travestis, ladrões, pequenos traficantes e trabalhadores com carteira assinada, convivendo em bares, mercadinhos e partidas de dominó no meio da rua.
A música percussiva que atrairia ao Pelourinho gigantes internacionais como Paul Simon e Michael Jackson tinha, na sua origem, personagens populares extremamente vinculados ao cotidiano do Centro Histórico, como Neguinho do Samba, inventor do samba-reggae, e o pai de Magda. “Mestre Gilmar foi um dos principais mestres de bateria da Bahia e teve papel fundamental na evolução da percussão baiana e do Carnaval de Salvador”, defende a diretora.
Integrante histórico do Ara Ketu, Mestre Gilmar, conhecido como Apito de Ouro, ajudou a criar e a transformar a batida dos blocos afro e das escolas de samba da Bahia a partir dos anos 80. “Ele também atuou em diversos blocos e agremiações carnavalescas, como Ilê Aiyê, Apaxes do Tororó, Lord’s e Alerta Geral, sendo diretor de bateria em muitos deles”, lembra Magda.
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Legado das famílias
Idealizada pelo segurança e músico Gilmar Duas Cor, a caminhada é uma forma de celebrar o legado das famílias que “seguraram a onda” do Centro Histórico antes de sua consolidação como cartão-postal da cidade e cederam seus imóveis a um projeto turístico. Casas compartilhadas por várias famílias, bordéis e pensões viraram cafés, restaurantes e pousadas. “Queremos mostrar para a sociedade e para alguém que esteja chegando aqui agora quem foram essas pessoas”, afirma Duas Cor, que foi músico do Olodum e acompanhou Gal Costa em sua turnê pelo México, Espanha e Argentina, na década de 80. O apelido veio aos 22 anos, em referência à pigmentação do seu rosto.
Na primeira edição da caminhada, em 2024, Duas Cor imaginava reunir em torno de 30 amigos, de maneira informal. Com a divulgação nas redes sociais, o evento cresceu e no ano passado já foram confeccionadas camisetas. Para o evento do próximo domingo, encomendaram-se 1.000 unidades, vendidas por R$ 60 cada, com direito a café da manhã, feijoada, três latas de cerveja e shows no Largo Quincas Berro d’Água.
Nascido há 56 anos em um casarão da Rua Gregório de Mattos, Duas Cor conta como era a vida à margem da sociedade no bairro. Quando sua mãe entrou em trabalho de parto, não daria tempo de chegar à maternidade e uma das três parteiras que moravam no Maciel ajudou a trazê-lo ao mundo. “Só depois que eu fui levado à Tsylla Balbino para a retirada do cordão umbilical”, diz o segurança, mentor da ideia de reunir os antigos moradores.

Eleições
Depois que famílias inteiras foram removidas, junto com a reforma do casario colonial na década de 1990, as eleições de outubro passaram a ser o grande momento de reencontro entre os antigos vizinhos. Uma celebração ocorrida a cada dois anos, cada vez que era preciso votar para prefeito e vereador ou nas eleições para presidente, governador, deputados e senadores.
Pessoas que se mudaram para os mais diversos cantos da cidade, voltavam ao Maciel/Pelourinho para votar nas sessões eleitorais em que estavam registradas, no Colégio Estadual Azevedo Fernandes, e aproveitavam para rever quem conseguiu se manter no bairro.
Com o tempo, os ex-moradores foram mudando o seu domicílio eleitoral para perto de suas novas residências e as visitas ao Pelourinho ficaram cada vez mais raras. Às vezes, reuniões não programadas acontecem por motivo de óbito. O velório do ator, produtor cultural e ativista Valmir Dois Mundos, em abril de 2012, reuniu no Solar do Ferrão muitos desses amigos e vizinhos, que saíram em cortejo fúnebre pelas ruas apertadas do Maciel/Pelourinho.
A despedida do artista que, dois anos antes, apareceu no filme Quincas Berro d’Água, rodado nessas mesmas ruas, trouxe a comoção real ao cenário de lutas históricas do povo baiano. Três anos depois, o último ato da vida do artista foi descrito nas páginas de A TARDE, no texto Dois Mundos do Pelô, assinado pelo poeta e educador Jorge Portugal, morto em 2020.
Filho de Dois Mundos, Valmir Junior fala com orgulho do artista, homenageado este ano. “Eu tenho meu Pai como como um ícone do Largo do Pelourinho”, diz Valmir, que é técnico de conserto de celulares e vive até hoje no imóvel em que seu pai morava no largo.
Valmir lembra de seu pai como um homem amigo, que cuidava dos seus filhos mas era igualmente afetuoso com todo mundo. “Ele era uma joia rara e único”, declara o filho. O apelido surgiu como referência à sua dupla atuação, como liderança do bairro e a vida profissional que levava fora do Pelourinho.
Com tantos nomes importantes para a comunidade virando memória, a celebração da vida ganhou mais sentido do que nunca. A cada caminhada, um grupo de moradores, vivos ou mortos, é homenageado, como uma forma de celebrar a resistência da comunidade negra que manteve a vida pulsante no bairro ao longo dos anos.
Além de Mestre Gilmar e Valmir Dois Mundos, a terceira edição vai fazer homenagens aos saudosos Carlos Big (artesão), Bude (ativista), Nilzete Leão (dona do famoso Bar do Reggae e ativista), e Dona Conceição (baiana de acarajé).
Irmão de Nilzete, o comerciante Albino Apolinário destaca a sua importância para o bairro. “Nilzete era muito querida pela comunidade, ajudou muito minha mãe na direção do Bar do Reggae e foi conselheira do Olodum”, destaca Albino, dono do Negro’s Bar.
A trajetória de sua família ilustra bem as relações sociais e raciais no Centro Histórico de Salvador antes e depois da reforma. Sua avó, Alzira de Oliveira, chegou sozinha ao Maciel com 15 anos de idade, vinda de Mundo Novo. Ainda adolescente, vendia fato na Ladeira da Preguiça. Alzira prosperou, abriu um restaurante de comida caseira na porta de casa para os trabalhadores do Maciel e comprou imóveis para a família. “Minha avó andava de Aero Wyllys com chofer”, conta Albino.
Em 1992, durante a reforma do Pelourinho, houve uma reunião com empresários de outros bairros interessados em abrir negócios no novo point que se descortinava. Albino compareceu à reunião, mas se sentiu desprezado.
“Por ser negro e ser do Maciel, eu fui rejeitado pelos meus colegas comerciantes, que eram brancos”, conta o comerciante. O episódio foi decisivo para o nome do seu novo empreendimento, fora das praças elitizadas. Em 1996, surgia na Rua Gregório de Mattos o Negro’s Bar.
Divergências
As reuniões anuais em torno da caminhada não apagam as divergências políticas do grupo, também marcado pela disputa entre esquerda e bolsonarismo. Parte das lideranças esquerdistas, incluindo o próprio Albino, costuma se reunir no restaurante Alaíde do Feijão. Esse grupo, chamado informalmente de Bancada do Feijão, respaldou candidaturas de lideranças negras, como o ex-vereador Moisés Rocha.
Essa turma, naturalmente, apoiou a mudança do nome da Rua das Laranjeiras para Rua Alaíde do Feijão, uma postura que não foi unânime na comunidade, pois parte dos moradores reclama que a comerciante, morta há quatro anos, nem era local. Alaíde nasceu e foi criada na Ladeira da Preguiça.
No ano passado, foram homenageados, entre outros, o falecido Nego Fua, mítico torcedor galiciano, dono de bar e famoso por inúmeras aventuras sexuais, e a sua viúva, Dona Morena, que perdeu as contas de sua idade real, mas afirma ter mais de 100 anos.
O bar da família, agora um estabelecimento LGBTQIA+, é conduzido pela filha do casal, Tatiane Dórea, que fez questão de ser uma das patrocinadoras da caminhada deste ano. “A caminhada é uma ideia boa, o encontro das pessoas antigas que não tiveram consideração por parte do poder público”, define Tatiane, que no ano passado reencontrou uma antiga vizinha, que não via desde a saída dos moradores na década de 1990. “Foi uma alegria muito grande encontrar Solange, irmã de Alaíde, e saber que essa pessoa se encontra viva e com saúde”, afirma a comerciante.
A programação musical no Largo Quincas Berro d’Água inclui Olodum, Thiago Carvalho, Catadinho do Samba, Lucas Tarantelly, Movimento Maciel Pelourinho, Tom Sofrência e participações de Rebuliço D’Pam e Pagode Total. Para participar, a camisa pode ser adquirida no Largo do Artesanato, na Rua Gregório de Mattos, ao lado da antiga Deltur.