A divulgação, apenas agora, dos 21 pontos exigidos pelos Estados Unidos para rever o tarifaço contra produtos brasileiros expõe o descompasso entre a retórica de parceria histórica e a prática de imposição unilateral. O documento, datado de 2024 e apresentado ainda no ano passado, só teve seus termos detalhados essa semana.
Entre as exigências, pedidos extrapolando o âmbito do comércio: prioridade para empresas estadunidenses na compra de minérios chamados “terras raras”; veto a investimentos chineses e até a participação de “dissidentes políticos” nas eleições de outubro. É uma ingerência inaceitável em assuntos internos, corretamente rejeitada pelo chanceler Mauro Vieira ainda em outubro de 2025.
Como bem avaliaram especialistas, as demandas são desproporcionais a uma saudável relação bilateral. Os EUA são relevantes, mas não determinantes para a balança comercial brasileira. Querer obrigar companhias aéreas do Brasil a comprarem Boeing, por exemplo, revela um desejo de tutela, impedindo o cânone do livre comércio.
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Quem paga a conta desse devaneio são as indústrias. Enquanto Brasília trabalha para resistir a Washington e aos lesa-pátrias bolsonaristas, o setor produtivo nacional sofre com tarifas injustas, sem perspectiva de solução a curto prazo. São empregos, cadeias produtivas e contratos ameaçados pela imposição da superpotência aliada de extremistas sequiosos por sangrar o próprio país onde nasceram.
Nesse ponto, o presidente Lula acerta ao separar o joio do trigo. Ao sancionar a Política Nacional de Minerais Críticos, o governo sinaliza a fim e disposição em rejeitar o eterno retorno à condição de colônia. O Brasil descarta submeter-se à humilhação de exportar minério bruto para importar bateria, chip e celular.
Exigir industrialização local das terras raras, das quais só conhecemos 30% das reservas, é defender soberania, gerar emprego qualificado e agregar valor aqui. Comércio se faz com reciprocidade, não com arrogância. O Brasil quer parceiros, não tutores, e deve manter-se rijo para resistir a ultimatos com objetivo espúrio e inconcebível de transformar vantagem comercial em submissão política e estratégica.