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Anvisa restringiu o uso da polilaminina e muita gente ficou sem tratamento

Durante quase 30 anos, a cientista Tatiana Sampaio desenvolveu pesquisas sobre a polilaminina longe dos holofotes. A descoberta ganhou projeção nacional após os resultados de um estudo clínico com pacientes que sofreram lesões medulares, e a divulgação do trabalho fez crescer a procura pelo tratamento experimental. Mas a Anvisa, segundo a pesquisadora, passou a restringir o acesso por uso compassivo sem apresentar justificativas para a decisão.

“O que está acontecendo, nesse momento, é que a Anvisa restringiu o uso. Simplesmente alguém resolveu que não quer mais e pronto”, afirma a cientista, nesta entrevista exclusiva ao A TARDE. Segundo ela, a mudança reduziu drasticamente o número de pacientes que podem ter acesso ao tratamento experimental: “De cada 100 pessoas que chegam, só três ou quatro se encaixam”.

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Professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana afirma que os resultados obtidos até agora são suficientes para justificar o interesse de pacientes com lesões medulares graves, incluindo tetraplegia, no tratamento com polilaminina. “Seis dos oito pacientes que passaram pelo estudo clínico tiveram melhoras”, diz. Para ela, embora a eficácia ainda não tenha sido comprovada cientificamente, trata-se de “um resultado de impacto”. Saiba mais.

A Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, em janeiro deste ano, o início do estudo clínico da polilaminina. O que já foi possível observar até agora? Quais resultados ainda precisam ser confirmados e quais são as próximas etapas até que a substância possa ser aprovada, de fato, como tratamento para lesões medulares?

A pergunta que as pessoas deveriam fazer é: o que significa começar o estudo clínico, se a polilaminina já foi testada em humanos? Os resultados já foram publicados. Nós fizemos anteriormente um estudo clínico acadêmico. É um estudo praticamente igual ao que está sendo realizado agora, com poucas diferenças. O estudo foi para poucos pacientes, mas até um pouco mais do que está sendo realizado pela Anvisa. Só que pegava lesão cervical e torácica. Esse estudo agora é só torácico. Basicamente a grande característica é que ele é de braço único. Quer dizer, todo mundo é tratado, não tem tratamento de controle. E a injeção é rápida, aplicada depois da lesão, logo é muito aguda.

Por que precisa testar de novo? Nós fizemos nosso estudo com autorização do comitê de ética mais top do Brasil, que é a Conep, a Comissão Nacional de Ética e Pesquisa. Agora mudou de nome, mas é a autoridade máxima. Como era uma droga nova, e injetável, só a Conep pode avaliar. E ela foi avaliada e autorizada pela Conep. Mas como não tinha um patrocinador, não tinha autorização da Anvisa. Porque a Anvisa, que cuida dos registros, entra para disciplinar o mercado, a interação com o público. Como a gente não tinha um produto para ser registrado, e estava usando material de laboratório, a Anvisa não precisava opinar. Nós fizemos o exame clínico e tivemos como resultado os pacientes melhorando acima do esperado.

Depois desse resultado, veio a Cristália, que é uma farmacêutica brasileira, que investiu na polilaminina. Daí surge o produto com grau farmacêutico. A Cristália pediu autorização para fazer o estudo clínico com esse produto. O que vai acontecer agora é uma reprodução daquilo que já foi feito, só que dentro de um ambiente regulatório. No momento que tiver um resultado positivo, a Cristália vai poder pedir o registro. O registro significa que a Anvisa reconhece que é um medicamento que pode ser distribuído e comercializado.

Antes de falar mais sobre os estudos clínicos, queria dar um passo atrás: o que é exatamente a polilaminina e como ela pode contribuir para a recuperação dos movimentos em pessoas que sofreram lesões medulares?

A laminina é uma proteína natural que temos no corpo. Só que ela está organizada, no nosso corpo, como se fosse uma rede de pesca. Ela está em toda parte. Na pele, entre a epiderme e a derme, tem uma camada dessa rede de pesca de laminina. Ela é encontrada também em volta dos músculos, dos vasos e no sistema nervoso. E o que é a polilaminina? Quando você retira a laminina do corpo, você precisa quebrar ela. Como você vai tirar o contrapiso sem quebrar o piso? Não dá, tem que quebrar tudo. Quando a gente retira a laminina do corpo, ela vem quebrada. A polilaminina é uma forma de reconstruir, no laboratório, a rede de pesca original. Até a descoberta da polilaminina, o que a ciência tinha disponível eram pedacinhos da rede de pesca. Como se fossem os pedacinhos da corda, mas não a rede. A polilaminina é isso: a rede de pesca reconstruída fora do corpo. A polilaminina tem várias funções, dentre elas a de estimular o crescimento dos axônios (a parte do neurônio que transmite impulsos elétricos) que a gente usou para promover melhora na lesão de médula.

Imagem ilustrativa da imagem Tatiana Sampaio:
Foto: Fernando Souza/ Divulgação

Como funciona o uso compassivo da polilaminina e quantos pacientes já receberam o tratamento por essa modalidade?

Nosso estudo clínico acadêmico teve oito pacientes, que é a origem de toda essa história. É o estudo, como expliquei, que tem o valor científico, mas não tem o valor regulatório. A segunda coisa, é o estudo clínico regulatório, que tem valor para a Anvisa e para a ciência. No meio disso, por conta da divulgação, várias pessoas começaram a pedir acesso ao medicamento por uso compassivo. O uso compassivo não é uma atividade de pesquisa, é uma atividade de assistência.

É um paciente que fala para o médico: estou muito mal, preciso de algum medicamento. Aí o médico diz: não tem medicamento, mas tem um experimental, você quer? Aí ele diz que quer. Daí o médico pede autorização para usar o medicamento. No caso, é o uso compassivo. Essa coisa não é um medicamento, não tem eficácia comprovada, não tem nem a segurança totalmente comprovada, é uma incógnita. Mas se você quiser usar, pode usar. Então, tivemos 100 casos de uso compassivo. Mas não é pesquisa, é atividade de assistência mesmo.

Como equilibrar a urgência de quem sofreu uma lesão medular grave e busca essa alternativa de tratamento com a necessidade de protegê-lo de riscos ainda não totalmente conhecidos?

Essa questão de se proteger dos riscos, cada um sabe de si. A Cristália avalia as consequências, se tem algum evento adverso ou não, e até agora não teve, e comunica a Anvisa. Por sua vez, a Anvisa avalia e acho que ela tem a obrigação de explicar quais são os possíveis efeitos. Mas a decisão deve ser do indivíduo, na minha opinião. Eu não sei se é de tanto falar sobre isso, mas para mim, já não tenho mais dúvida. Em algum momento já tive, agora não tenho mais.

Porque pesquisa é pesquisa, e uso compassivo é uso compassivo. São legislações diferentes. Por acaso, no Brasil, é a Anvisa que faz os dois, e não deveria ser assim. A Anvisa não deveria autorizar o uso compassivo. Outro órgão deveria fazer isso, porque a Anvisa cuida do registro de medicamentos, do controle da qualidade. Mas é a Anvisa que decide. Quando é uma atividade de pesquisa, você tem que seguir as regras da pesquisa. É outra coisa quando estamos falando de prover tratamento a um paciente, que nesse caso é alguém que não tem alternativa, e que deseja se submeter a um tratamento experimental. A pessoa sabe que não tem alternativa. Ela sabe e assina um termo afirmando que sabe.

Essa preocupação que algumas pessoas demonstram de “ah, vai sair do controle, a gente não pode permitir”…Para mim isso é uma coisa totalmente vazia. Primeiro, porque a pessoa não tem essa autoridade: a lei permite que os brasileiros se submetam ao uso compassivo, desde que se siga as regras. E está se seguindo as regras. Então, porque não pode? O que está acontecendo, nesse momento, é que a Anvisa restringiu o uso. Ela estava autorizando o uso compassivo para pessoas com até quatro meses de lesão, em qualquer região da medula. Agora, ela restringiu só para torácico, de T2 até T10, e só até três dias após a lesão. Ou seja, de cada 100 pessoas que chegam, só três ou quatro se encaixam. Para as outras, a gente tem que dizer: “Ah, infelizmente não pode”.

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O uso compassivo não é uma atividade de pesquisa, é de assistência. É um paciente que fala para o médico: estou muito mal, preciso de algum medicamento

O que levou a Anvisa a impor essas restrições?

Porque a Anvisa não quer. A Anvisa chamou a gente e avisou: não deixo mais. E muita gente está deixando de ter esse tratamento experimental. Tem dezenas de pessoas esperando. É muito difícil, porque, às vezes, têm pacientes que tudo indica que fossem reagir muito bem. São pacientes com lesão cervical. Esse rapaz, Bruno Drummond, que ficou tetraplégico e recuperou seus movimentos após o uso da polilaminina, se fosse hoje, a Anvisa não ia deixar. Nem pelo estudo clínico, nem pelo uso compassivo.

O caso de Bruno Drummond ganhou grande repercussão. Quanto da recuperação dele pode ser atribuída à polilaminina e quanto pode estar relacionado à recuperação espontânea ou à fisioterapia?

Tanto a recuperação espontânea quanto da fisioterapia, o efeito delas é medido e acompanhado ao longo de muitas décadas por pesquisas. O caso de Bruno era de lesão completa. Na lesão completa, não existe mais nenhuma preservação sacral. Isso significa que, lá no finalzinho da medula, você não consegue detectar nem controle motor e nem sensibilidade. Essa pessoa perdeu totalmente a condução nervosa. É uma lesão completa neurológica. Não quer dizer que tenha cortado em dois. Às vezes pode ser só um amassado, só uma contusão. Mas, a pessoa perdeu a condução neurológica.

Essas pessoas que têm lesão completa e perderam a condução, já foram monitoradas. Milhares de pessoas, há décadas, e já se sabe que apenas 10% delas melhoram. A pessoa pode melhorar, mas apenas 10% recuperam algum controle motor. Fisioterapia é para você treinar aquilo que sobrou. Se você tem zero de controle motor, de modo geral, ela nem é treinada. Claro, que a pessoa vai fazer fisioterapia para tentar fazer movimentos de radiação e melhorar a qualidade de vida. Mas o índice que é medido, o AIS, nível motor, não melhora com a fisioterapia. Porque a fisioterapia é assim: você tem um pouquinho, a fisioterapia vai transformar aquele pouquinho em muito. Mas quando você não tem nada, a fisioterapia não tem efeito. Isso já foi amplamente medido. Temos estudos que mostram a falta do efeito da fisioterapia nesses casos.

Em relação à recuperação espontânea, o que seria esses 10% que melhoram? Provavelmente são pessoas que tinham um pouquinho de controle motor que não foi detectado, mas é um percentual pequeno: só 10%. Aí você diz: pode ser que esse rapaz, o Bruno Drummond, faça parte desse grupo. É verdade. Mas, nenhum desses 10% que foram acompanhados pela literatura médica, voltou a andar. Mas, tudo bem, a gente pode dizer: esse é um super sortudo. Mas aí, quando a gente vê que seis dos oito pacientes que passaram pelo estudo clínico tiveram melhoras. Aí, teria que ser muita sorte. O esperado seria, sei lá, com muita sorte, um de oito. Mas seis de oito? Até pode ser uma coincidência, mas é improvável.

No nosso estudo acadêmico, a gente teve quatro pacientes com lesões cervicais e quatro torácicos. Nos torácicos, o percentual médio de recuperação motora é de 5%. A gente teve 100%. É uma diferença grande. Isso é uma prova científica? Não. Não foi demonstrado cientificamente a eficácia? Não foi mesmo, mas ninguém disse que foi. O que a gente está dizendo é que é um resultado de impacto. É um resultado que faz qualquer pessoa que tenha essa lesão e que não tenha alternativa, queira. A sua chance é 10%. Que tal aumentar para 80%, 75%?

Para alcançar esses resultados, o tempo entre a lesão e a aplicação da polilaminina é decisivo?

Se você estiver falando em dias, a gente achava que precisava ser muito rápido. Agora, com a experiência, observamos que mesmo dois meses depois as pessoas estão respondendo. A diferença entre dias e semanas já não parece ser tão importante. Mas, provavelmente, se você passar de seis meses, aí já é diferente.

Vi que a senhora apresentou recentemente dados de evolução clínica dos cerca de 100 pacientes que receberam a polilaminina de forma compassiva. O que esses dados podem afirmar até agora?

Em relação à segurança, que é seguro, porque a gente tem avaliação em tempo real. Como você avalia a segurança? Você monitora os eventos adversos. Tem um setor da farmacêutica que liga com o médico para saber como está o paciente e coleta todas as informações. Até agora, a gente não teve nenhum evento adverso atribuível ao medicamento. Todos os eventos adversos, inclusive as poucas mortes que aconteceram, foram sequência de eventos relacionados com a lesão e com o estado do paciente, mas não com o medicamento. Então, até agora é seguro. Em relação ao efeito de melhorar ou não, a gente está observando exatamente a mesma percentagem que a gente observou no estudo clínico: entre 75% e 80%. A gente vai monitorar de seis em seis meses. E muitos pacientes não completaram seis meses ainda. Então, nosso universo não é de 100, agora está em 50.

A senhora estuda a polilaminina há 30 anos e, certamente, acumulou muita experiência ao longo desse período. Como tem recebido as avaliações e sugestões de outros pesquisadores para aprimorar esse trabalho?

Eu não tenho recebido sugestões. Eu recebo críticas, muitas infundadas. Médicos que ficam esperneando loucamente, falando um monte de coisa. Mas, por outro lado, dos pacientes, de pessoas normais, tenho recebido muitos elogios. Mas, por incrível que pareça, até agora ainda não tive uma sugestão. Não vou dizer nenhuma, porque às vezes chega alguma coisa por e-mail. Não abro todos os e-mails que recebo porque não consigo, mas abro meio que por amostragem. Já recebi coisa assim, “ah, eu tive uma ideia, quero ajudar, vamos fazer isso”. Já vi, sim, uns dois ou três e-mails. Agora, ativamente, de algum especialista que venha a público para elogiar, dizer, nossa, que incrível, não. Só críticas.

A Anvisa chamou a gente e avisou: não deixo mais. É muito difícil, porque, têm pacientes que tudo indica que fossem reagir muito bem

Vi um vídeo em que a senhora reclama da virulência dos ataques que vem sofrendo. A que atribui esses ataques? Há questionamentos que a senhora considera legítimos?

Eu tenho me esforçado para achar alguma coisa legítima, mas não acho. Não recebo críticas objetivas, técnicas. Não tem absolutamente nada. Tanto, que agora, depois que a gente publicou o artigo numa revista científica internacional, a “Spinal Cord”, do grupo Springer Nature, que é a revista mais especializada nessa área, vários cientistas e médicos brasileiros escreveram para dizer que a gente estava errado. Consegue entender isso? Foram fazer queixa ao pai. Já que a gente não consegue fazer ela se calar aqui, vamos fazer queixa para as autoridades internacionais e ver se eles tomam uma posição.

O que o editor da revista fez: pegou as cartas, mandou para mim e falou, responde aí. Eu respondi tudo. Olhei todas as críticas, não tem nada, nada que se sustente. É só blá, blá, blá e coisas infundadas. As pessoas não estudam muito antes de criticar. É uma coisa que não entendo, porque a pessoa se expõe, fala às vezes uma coisa errada em público. Quero ver alguém dizer na minha cara que a melhora espontânea é de 40%. Eu vou perguntar: você pode, por favor, me mostrar a literatura? Eu mostro que é 10%, agora se você me mostrar que é 40%… A vantagem é que, como eles estão fazendo isso com uma revista muito prestigiada e com um editor que é muito prestigiado dessa área, que se chama Michael Fehlings, ao invés de pegar comigo, ele pega com quem está fazendo a queixa.

Não houve nenhuma crítica que a senhora tenha considerado válida?

A única crítica que considero passível de alguma discussão porque é mais filosófica é essa história que dizem que eu falei contra o grupo controle. Obviamente, não sou contra o grupo controle porque sou cientista. O que eu falei foi que existem desenhos de estudos clínicos que são alternativos a ter um grupo controle interno. O grupo controle interno é você pegar 20 pacientes e ter dez com tratamento padrão, que no caso é nenhum. E, depois, você compara os dois grupos. O que eu disse é que não faz efeito, porque não tem opção por cirurgia. Então, você faz os dois grupos e compara os dois.

O que eu disse foi: não sou contra fazer isso, acho que se for necessário o desenho será esse. Mas existem formas alternativas. Existe, por exemplo, a possibilidade de usar um grupo controle puxado de um banco de dados para você não precisar fazer. Como tem milhares de pacientes acompanhados com as mesmas características do estudo clínico, você pode pedir um controle variável. Tem muitos estudos no mundo que fazem isso. A pessoa que critica, não entende porque não sabe o que está acontecendo no mundo. Existem desenhos mais modernos.

Há cerca de duas semanas teve uma sessão no Congresso americano para discutir desenhos alternativos para estudos clínicos em lesão medular. Mobilizaram os senadores e deputados americanos para discutir. Mas não sou contra o grupo controle. O que disse que a gente vai avaliar futuramente, de posse dos dados disponíveis naquele momento, para dizer o que a gente acha.

A indústria farmacêutica Cristália já investiu cerca de R$ 100 milhões no desenvolvimento da polilaminina. Como funciona a parceria entre a universidade e a empresa e como são preservadas a autonomia dos pesquisadores e a transparência na divulgação dos resultados?

Não tem nada escondido. A gente tem, pela universidade, uma patente que foi concedida em 2025, mas que foi pedida em 2007. Significa que ela tem 18 anos e só tem mais até 2027 para manter a propriedade. Mesmo assim não tem nada secreto. Tudo é aberto. A gente tem informações que passaram a ser confidenciais. Informações de controle de lote, mas nada que seja de interesse geral. A cooperação entre a UFRJ e a Cristália foi um acordo firmado que começou assim: a Cristália pagou para a UFRJ todo investimento feito nesses 20 e tantos anos. Eles ressarciram a universidade e depois continuam com a propriedade. Não foi o desenvolvimento. A UFRJ não perdeu direito. A parte da universidade é menor do que a da Cristália numa futura exploração de royalties. Mas a Cristália investiu muito mais.

O importante é que a UFRJ continua sendo proprietária e será participante quando o medicamento for comercializado. E a Cristália está fazendo grande parte da pesquisa aqui na UFRJ. Eles fazem uma parte nos laboratórios dele, a produção, a caracterização inicial, mas a biológica, a maior parte a gente faz aqui. Eles financiam os laboratórios e os gastos que temos aqui para fazer essa cooperação. Eu diria que o contrato público-privado é mais favorável para o público que já vi.

O público agora não dá mais nada, só o privado que está financiando. Claro que o investimento inicial foi feito, mas foi ressarcido em valores nominais. Mas, como disse, a universidade continua sendo coproprietária, com direito a royalties. E acho que a Cristália não vai transformar isso num desses medicamentos supercaros. A gente faz isso combinado de boca, mas todo processo tem sido coerente com esse discurso.

Para finalizar, imagino que a expectativa dos pacientes com lesões medulares e de seus familiares em torno da polilaminina seja imensa. Como a senhora tem vivido essa expectativa e o que gostaria de dizer a essas pessoas que depositam tanta esperança nesse tratamento?

A maioria das pessoas com interesse no tratamento têm lesões crônicas, há mais de um ano. E que a gente não tem resposta ainda. Queria muito dizer que tem, mas estamos trabalhando em estudos em cães e ratos também. E, em breve, teremos uma resposta para dizer: já está pronto e pode ser testado. Ou ainda falta pouco, mas pode testar. No meio do ano que vem, isso já deve estar definido. Um pouco para ter essa resposta.

E, em relação às pessoas que têm uma lesão aguda e que precisam fazer agora o uso compassivo e não conseguem, o que eu posso dizer sinceramente é: entrem na Justiça, vão ao STF, façam manifestações, criem uma associação, porque não é aceitável que a Anvisa cometa a arbitrariedade que está fazendo. Não apenas é arbitrariedade, como arbitrariedade ilegal. O que a Anvisa está fazendo não respeita a lei. Não é justificável, não tem nada justificando essas restrições. Simplesmente alguém resolveu que não quer mais e pronto.

Quem são essas pessoas eu não sei, porque não sou investigadora. Seria bom que isso fosse esclarecido, porque é muito errada. Errada do ponto de vista ético e legal. Eu tenho tentado fazer tudo que posso para reverter, mas acho que vai precisar de mais pressão. Não é possível uma agência criada para proteger a sociedade brasileira impor uma decisão ilegal, arbitrária, desumana e ficar por isso mesmo.

Raio-X

Tatiana Lobo Coelho de Sampaio nasceu na cidade do Rio de Janeiro. Graduou-se em Biologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde também realizou seu mestrado em Biofísica e doutorado em Ciências. Atualmente, é professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e sua carreira é dedicada ao estudo da regeneração nervosa. À frente de laboratórios que buscam soluções para condições complexas, Tatiana consolidou-se como pesquisadora ao focar em alternativas terapêuticas para pacientes com lesões medulares, unindo rigor acadêmico a uma visão humanizada do impacto social de seu trabalho.



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