Controlar o que a mulher veste, afastar ela dos familiares e monitorar as redes sociais são atitudes que muitas pessoas chamam de ciúmes. Esses foram alguns dos sinais que Ana*, de 47 anos, notou no ex-companheiro, mas achou que fosse algo passageiro. Era só o início de um relacionamento conturbado que perdurou por mais de duas décadas.
Nascida e criada no interior da Bahia, na região da Chapada Diamantina, Ana passou, ainda aos 16 anos, por uma situação que jamais imaginou. A adolescente foi forçada pelo ex-companheiro a abortar o primeiro filho do casal.
“Eu estava perto de completar 17 anos. Ele me deu um remédio para abortar, me forçou a tomar e perdi nosso primeiro filho. Dois meses depois, novamente engravidei. Pelo sofrimento que passei da primeira vez decidi que não iria tomar outro medicamento. Ainda grávida recebi o primeiro tapa. Quando a criança nasceu, não demorou muito, ele me deu o primeiro murro, que causou uma marca na minha testa. Uma vizinha me perguntou o que era aquela marca e eu disse que tinha batido na cama, por vergonha”, relata ao Portal Salvador FM.
Além da violência física, vieram também as psicológicas e patrimoniais. Ana afirma que o ex-companheiro sempre negava a ela o direito dos bens da casa. Para ela, as feridas que mais demoram de cicatrizar não são as físicas.
“Ele sempre dizia que eu ia sair de casa com uma mão na frente e outra atrás. Dizia que eu não tinha direito a nada e eu acreditava. As marcas a gente carrega para o resto da vida. A psicológica ela te maltrata por muito tempo, ela dói na alma”, afirma.
O caso de Ana não é isolado. Segundo dados da Polícia Civil da Bahia, de janeiro a dezembro de 2025, foram registrados 14.570 casos de violência doméstica no estado.
No âmbito nacional, 4.189 tentativas de feminicídio foram registradas entre 2024 e 2025. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública 2026.
Quando a violência atinge os filhos
A pessoa mais afetada pelas agressões era Ana. No entanto, a violência também alcançou os filhos do casal, principalmente, o mais velho, hoje com 29 anos.
Ela relembra episódios em que o filho tentava defendê-la do agressor, o próprio pai. “Quem sofreu não foi só eu, meu filho também sofreu. Meu filho mais velho presenciou tudo. Quando via o pai em cima da mãe batendo, ele pegava uma vassoura e atingia as costas do pai, ainda pequenininho. E meus filhos sempre sofrendo. Meu filho maior, hoje ele tem até um pouco de, não sei se é depressão ou algum distúrbio, por conta de toda essa situação”, conta Ana, que trabalha na área de saúde.
Baixo rendimento escolar, isolamento, medo em excesso e alterações no sono são alguns dos sinais de alerta que podem ser percebidos em crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica. Para a psicóloga social e jurídica, Nadja Franca, a exposição diária à agressão, mesmo que de forma indireta, pode resultar em diversos transtornos na criança ou no adolescente.
“Presenciar ameaças, ouvir gritos e perceber o medo de pessoas importantes para ela pode comprometer sua sensação de segurança. A exposição contínua à violência pode afetar o desenvolvimento emocional, a aprendizagem e a construção de vínculos, provocando medo, transtorno de ansiedade, dificuldades escolares ou comportamentos agressivos”, pontua.
Nadja ressalta que a presença de apenas um desses sinais, de forma isolada, não significa que a criança ou adolescente foi vítima de violência. Ainda assim, é importante estar atento às mudanças comportamentais.
“Considero importante olhar tanto para aqueles que externalizam o sofrimento quanto para os que parecem não dar trabalho ou assumem a responsabilidade de proteger a mãe e os irmãos. Essa aparente maturidade pode esconder uma tentativa de evitar conflitos, levando crianças e adolescentes a silenciar a própria dor ou até a reproduzir comportamentos agressivos vivenciados em casa”, explica.
A psicóloga Nadja Franca ainda ressalta a relevância da atuação coletiva da família, escola assistência social e sistema de Justiça na proteção aos jovens, vítimas de violência doméstica.
“Essas instituições precisam atuar conjuntamente para identificar situações de violência, garantir segurança e oferecer acompanhamento adequado, criando condições para que crianças e adolescentes possam elaborar suas experiências e construir outras referências de afeto e relacionamento. Uma criança que cresce em um ambiente violento não está condenada a reproduzir essa violência, mas precisa encontrar outras possibilidades de cuidado, respeito e convivência. Proteger a infância é uma responsabilidade coletiva”, pontua.
TJ-BA por Elas
Diante de centenas de casos em que crianças e adolescentes presenciam a violência dentro de casa, a atuação de uma instituição governamental se faz necessária. Nessas situações, o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) tem o papel fundamental de acelerar processos judiciais em casos de violência doméstica e feminicídio por meio do programa TJ-BA por Elas.
Em apenas quatro meses de 2025, a Justiça baiana proferiu mais de 1.500 sentenças. A desembargadora Nágila Brito é uma das responsáveis pelo TJ-BA por Elas. Ela explica como o projeto vai funcionar na prática.
“Ele vai ter dois fluxos. Um fluxo que é para a Defensoria Pública da União, para dar encaminhamento à pensão previdenciária para os órfãos do feminicídio. E o outro fluxo é para a rede de proteção, tanto da prefeitura quanto do estado, para saber quais benefícios podem oferecer para os filhos que ficaram órfãos do feminicídio, afinal, nós temos que adotá-los”, frisa a magistrada.
Lei Maria da Penha e a rede de apoio
Após mais de 20 anos vivendo em um relacionamento abusivo dentro de casa, Ana encontrou apoio no atual companheiro. Além disso, a denúncia e a implantação da Lei Maria da Penha ajudaram a afastar o agressor dela e dos filhos.
“Há um tempo atrás me deram uma cartilha contando a história de Maria da Penha. E quando eu li, chorei muito com a história dela. Foi então que decidi que iria fazer a denúncia. Na época ainda não tinha delegacia da mulher na minha cidade, mesmo assim fiz a denúncia e no dia seguinte eles, os policiais, tiraram ele de casa e consegui me livrar”, recorda aliviada.
*Para preservar a identidade da personagem principal, nesta reportagem ela é chamada de Ana