O potencial da Baía de Todos-os-Santos para o turismo náutico e religioso ainda é pouco explorado, apesar da riqueza histórica, patrimonial e ambiental dos 18 municípios que estão em seu entorno. O presidente do Conselho Baiano de Turismo, Pedro Costa, defende que esse patrimônio seja transformado em novos roteiros capazes de atrair turistas e movimentar a economia da região.
Nesta entrevista ao A TARDE, Pedro Costa propõe também a construção de um novo santuário de Santa Dulce dos Pobres em São Tomé de Paripe, no Subúrbio, e a criação de um “caminho religioso” integrado ao turismo náutico. As estratégias para desenvolver esse tipo de turismo no estado, com potencial para atrair milhões de visitantes, serão debatidas no 2º Fórum Internacional Náutico, que será realizado nesta quarta e quinta-feira, em Salvador.
O 2º Fórum Internacional Náutico vai discutir estratégias para ampliar o aproveitamento econômico da Baía de Todos-os-Santos. Na sua avaliação, qual é hoje o principal potencial ainda não explorado da baía para o turismo e para a economia do Estado?
A Baía de Todos-os-Santos é a maior baía do litoral brasileiro. Isso nos honra muito porque temos também a terceira maior baía do Brasil, que é a Baía de Camamu. A segunda maior é a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.
Há ainda um potencial enorme a ser explorado do ponto de vista turístico. Nós temos, ao redor da Baía de Todos-os-Santos, 18 municípios, todos com potencial muito grande arquitetônico, cultural, natural e ecológico. Mas não temos empreendimentos turísticos nesses municípios e precisamos ainda evoluir muito com isso. Tivemos, e não temos mais, o primeiro grande empreendimento internacional do Brasil aqui na Baía de Todos-os-Santos, que foi o Club Mediterranée, na Ilha de Itaparica. Mas essa inércia com relação à exploração do potencial da Baía de Todos-os-Santos, por parte dos municípios, fez com que o Club Mediterranée não prosperasse. Eram três clubes no Brasil: Bahia, Rio de Janeiro e Trancoso. O do Rio e de Trancoso ainda permanecem.
O outro potencial enorme que temos para desenvolver o turismo da Baía de Todos-os-Santos é o náutico. Nós temos algumas regatas que são realizadas aqui durante o ano. Mas são regatas que ainda precisam ser mais divulgadas, incentivadas, para que a participação dos municípios seja maior. Quem elabora, quem participa dessas regatas, é basicamente o município de Salvador.
O terceiro ponto de exploração do turismo, e esse é um tesouro que nós temos nas mãos, é o turismo religioso. Nos 18 municípios ao redor da baía, em todos eles tem templos religiosos espetaculares. Eu posso citar a Igreja de Nossa Senhora das Candeias, a Igreja de São Francisco do Conde, a Igreja de Itaparica, a Igreja de Loreto, a Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, a Igreja de Maragogipe, Nossa Senhora da Purificação de Santo Amaro. E temos aqui, em Salvador, as igrejas todas que estão de frente para a Baía de Todos-os-Santos, que eu não preciso citar para você. Precisamos desenvolver o turismo náutico religioso com todo esse potencial que nós temos da religião católica. Sem falar do potencial das religiões africanas. Somos o estado do Brasil com maior quantidade de terreiros de candomblé, terreiros de grande, médio e de pequeno porte, que atraem muita gente. É outra riqueza cultural que temos na Baía de Todos-os-Santos, ligada a religiões de matrizes africanas, que é impressionante.
O turismo religioso vem apresentando um crescimento expressivo na Bahia. Como o senhor avalia esse avanço e o que ainda precisa ser feito para transformar esse fluxo em um segmento turístico estruturado e permanente?
Salvador foi berço da civilização brasileira. Desde o primeiro momento em que tivemos aqui a presença de Diogo Álvares Correia, o Caramuru, em 1509, quando ele naufragou nos Baixios do Rio Vermelho e construiu um relacionamento muito bom com os indígenas. O primeiro ato importante dele foi manter a relação com a filha do cacique Taparica, que é Catharina Paraguaçu. Ele casou na França, veio para cá. Catharina teve um sonho em que viu pescadores com uma imagem saindo do mar e convenceu Caramuru a construir uma capela, que depois se transformou em igreja, que é a Igreja Nossa Senhora da Graça. Ela é a primeira igreja construída no Brasil. Depois, veio Tomé de Sousa, e criou a Igreja da Conceição. Em 1552, o governador-geral do Brasil criou a primeira diocese do Brasil, que é a Diocese de São Salvador. E, dois séculos depois, Salvador se tornou a primeira arquidiocese da América do Sul. Então, nós temos uma ligação com a Igreja Católica fantástica, mesmo porque o símbolo da posse das terras portuguesas era a Ordem de Cristo. E nós temos ao redor da Baía de Todos-os-Santos todas essas igrejas fantásticas.
E temos aqui na baía, um reconhecimento de Deus por toda essa religiosidade: a primeira santa do Brasil, que é a Santa Dulce dos Pobres, canonizada em 2019. Temos hoje o Memorial de Irmã Dulce, que é muito visitado pelos turistas. E temos também o Santuário de Irmã Dulce. Nesse primeiro momento, mesmo porque não havia condições de ter o santuário antes que ela fosse canonizada, foi usada as instalações de um cinema abandonado, o Cine Roma, para montar o Santuário de Santa Dulce. Muito louvável, mas acho que, se a gente tem esse potencial enorme para ser explorado no turismo religioso, vamos ter que construir um novo santuário para Irmã Dulce.
Esse local, por incrível que pareça, e acho que tem o dedo de Deus nisso aí, já existe. Não tem local hoje melhor em Salvador e ao redor da Baía de Todos-os-Santos do que a antiga fábrica da Cocisa (Companhia de Cimento Salvador), que está localizada junto à Praia de Inema, em São Tomé de Paripe. É uma área de 500 mil metros quadrados, que está abandonada, sendo invadida, e pertence ao governo do Estado. No local mais alto, que fica exatamente de frente para a Baía de Todos-os-Santos, poderia a Igreja Católica junto com as entidades públicas e privadas, planejar a construção do maior santuário do Brasil. Eu tenho falado e tenho tido a aceitação de muita gente, só não consegui convencer ainda a Cúria, a Igreja Católica. Mas acho que Dom Sérgio da Rocha, que é o arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, é simpático a essa ideia. Evidentemente que não é uma ação da noite para o dia. Isso precisa ser planejado, mesmo porque o Santuário de Aparecida, em São Paulo, levou 35 anos para ser construído. Isso seria fundamental para que a gente possa explorar uma das vertentes mais pujantes do turismo mundial, que é o turismo religioso.
Como o senhor disse, Salvador e o Recôncavo concentram igrejas, santuários, conventos e outros patrimônios ligados à história religiosa do Brasil. Como transformar esse acervo em roteiros capazes de atrair turistas nacionais e estrangeiros?
Poderiam ser desenvolvidos diversos roteiros turísticos que passassem pelos municípios da Baía de Todos-os-Santos, com suas igrejas fantásticas, seculares, seus templos gigantescos. Roteiros que poderiam incluir o futuro Santuário de Irmã Dulce, em São Tomé de Paripe, já que tem píer de atracação. Poderíamos desenvolver procissões, cortejos, dessas igrejas até o Santuário de Irmã Dulce. E hoje nós temos algo que favorece muito isso que é a construção do VLT. Isso sem falar na nova estação rodoviária em Águas Claras, a Estrada do Derba toda recuperada e que leva até a Base Naval de Aratu, bem próximo às ruínas da Cocisa.
É importante lembrar que, em todos os lugares que se desenvolveu esses santuários, a movimentação de visitantes é enorme. Basta dizer que o Santuário de Aparecida, junto com o Santuário de Frei Galvão, no Vale do Paraíba, em São Paulo, recebe 15 milhões de visitantes por ano. A obra social e caridosa da Santa Irmã Dulce dos Pobres foi para o povo do Subúrbio Ferroviário. E esse santuário ficaria no Subúrbio. O Memorial dela continuaria no Largo de Roma, mas esse santuário seria capaz de receber multidões.
De que forma essa integração entre o turismo náutico e o religioso poderia beneficiar diretamente as comunidades desses municípios e do Subúrbio?
Quero lembrar que temos a primeira santa e a maior baía do Brasil aqui. Isso pode gerar dois aspectos econômicos importantes. Aspecto número um: seria desenvolvida uma indústria de souvenirs no Subúrbio, onde vive a população mais carente de Salvador. Segundo, você criaria condições de arrecadação de recursos para favorecer as Obras Sociais de Irmã Dulce, tão bem gerida por Maria Rita, que faz um esforço hercúleo para manter o hospital mais popular do Brasil aberto. O Hospital Santo Antônio é o maior hospital filantrópico do país e precisa ter uma fonte de receita. E onde está localizado o santuário hoje, com todo respeito e admiração, é um local acanhado. E não tem como desapropriar os moradores para criar um santuário grande. Santa Dulce, nos momentos de reza e de oração, ficava na praia do Cantagalo, de frente para a Baía de Todos-os-Santos.
Além da Igreja, o senhor tem mantido diálogo com os poderes públicos, entes privados?
As pessoas acham a ideia sensacional, mas é preciso que alguém dê o pontapé inicial. Deixa te dizer uma coisa: quando Santa Dulce transformou aquele galinheiro no Largo de Roma, na obra social dela, houve mobilização da classe empresarial, da população de Salvador e do poder público. Foi criado um conselho composto por Antonio Carlos Magalhães, Ângelo Calmon de Sá, pelo presidente da Federação das Indústrias, Federação do Comércio, população, associações civis, que se mobilizaram e planejaram a construção do Hospital Santo Antônio. O hospital foi construído e está muito bem administrado hoje. Ele vai permanecer, só que precisa ter uma fonte de receita. Essa fonte de receita foi esboçada com Irmã Dulce se transformando em Santa Dulce dos Pobres. Se queremos explorar o turismo religioso na cidade mais católica do Brasil, que tem a maior quantidade de igrejas católicas, a primeira Diocese, a primeira arquidiocese, o cardeal primaz, temos que ir nessa vertente. Para benefício não só dos turistas e dos peregrinos que poderão contemplar toda a caridade feita por Irmã Dulce, mas principalmente para criar um veio econômico que fortaleça as obras sociais.
O senhor vê o Caminho de Santiago de Compostela, que ganhou também um roteiro marítimo na Espanha, como um modelo que poderia ser adaptado à nossa realidade?
Nós já estamos traçando na Associação Náutica da Bahia, para criarmos o Caminho de Santiago. No 2º Fórum Internacional Náutico que vamos ter agora, isso vai ser discutido. Quem participar do evento terá a oportunidade de ver a apresentação da prefeita da Galícia, que vai falar sobre o Caminho de Santiago, a coisa mais linda do mundo. A gente quer fazer esse Caminho de Santiago junto com o Caminho de Santa Dulce, explorando o Recôncavo, as igrejas, os templos todos que temos, inclusive espanhóis, como é o templo da Igreja Nossa Senhora de Guadalupe na Ilha dos Frades, e de Santiago, no Rio Paraguaçu. Nós temos a faca e o queijo na mão.
Mas precisamos entender que o turismo religioso hoje, junto com o turismo náutico e ecológico, é a grande vertente de movimentação de passageiros do mundo. Não quero dizer que isso vai ser feito da noite para o dia. Mas é preciso iniciar o planejamento. Se Aparecida foi feita em 35 anos, a gente pode levar também aqui algum tempo. Isso poderia triplicar o número de turistas, criando um novo público, que vai desde o peregrino que vem para exaltar a sua fé, mais acanhado economicamente, até o público da classe alta, que viria aqui para gastar. Portugal recebe 40 milhões de visitantes por ano. Cerca de 30% do fluxo turístico de Portugal é por causa do Santuário de Fátima. Isso significa que, só o Santuário de Fátima recebe em torno de 12 a 15 milhões dos turistas que vão a Portugal.
A infraestrutura náutica da Baía de Todos-os-Santos está preparada para receber esse tipo de roteiro?
Essa é uma luz que pode impulsionar a cultura náutica na Bahia. A indústria náutica pode surgir daí mais avançada. Hoje, nós temos na Baía de Todos-os-Santos algumas marinas, até de qualidade, mas está restrito a isso. Nós não temos uma indústria de equipamento náutico e nós temos áreas para fazer isso. Nós não temos uma indústria naval aqui na Baía de Todos-os-Santos. E nós temos áreas encantadoras para fazer isso, onde embarcações podem ser construídas e liberadas no próprio mar. Temos rios caudalosos que podem incentivar isso, como o Rio Paraguaçu, que já tem hoje o estaleiro do Paraguaçu. Nós temos o rio Paraguaçu, o rio Maragogipe e o rio Subaé. São três grandes rios que deságuam na Baía de Todos-os-Santos, que podem oferecer espaço para construção de indústria ligada à náutica.
Qual é a importância de eventos como este para mobilizar o setor e mostrar à sociedade o potencial do turismo náutico na Baía de Todos-os-Santos?
O 2º Fórum Internacional Náutico cria um ambiente de debate, trazendo personalidades para expor as suas opiniões, os seus conhecimentos dos mercados náuticos mais poderosos do mundo. Nós estamos trazendo gente do Canadá, Espanha, Portugal, França. Estamos trazendo grandes cases de sucesso no Brasil. E estamos convidando o poder público municipal e estadual para participar também e desenvolver esse potencial juntos.
RAIO-X de Pedro Neto
Pedro Manoel da Costa é advogado, historiador e professor. É presidente do Conselho Baiano de Turismo e diretor de Turismo da Associação Náutica da Bahia. É diretor-presidente da Alameda Turismo e foi quatro vezes presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav-BA) e duas vezes vice-presidente da Abav nacional. Fundador da Federação Nacional de Turismo e da Fundação Salvador Convenções e Eventos (Convention & Visitors Bureau), presidiu por duas vezes o Sindicato das Empresas de Turismo da Bahia e, por dez anos, o Conselho Municipal do Carnaval.