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a política das honrarias e a coerência que falta

A política baiana parece ter encontrado uma maneira curiosa de medir o mérito: tudo depende de quem está sendo homenageado. Se o personagem pertence ao campo adversário, a concessão de uma honraria pode ser motivo de indignação. Se está do lado aliado, o mesmo gesto passa a ser celebrado. É o velho e conhecido “dois pesos, duas medidas”.

Primeiro peso

Esse debate entrou em voga após a proposta do deputado estadual Rosemberg Pinto (PT) de conceder a Comenda 2 de Julho ao deputado federal André Janones (Rede-MG). A iniciativa ainda não foi apreciada pela Assembleia Legislativa da Bahia (Alba).

Janones ganhou projeção nacional durante a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), especialmente no segundo turno, quando liderou a mobilização do chamado “Exército do Lula” nas redes sociais. O canal chegou a reunir mais de 10 milhões de pessoas.

Na justificativa, Rosemberg afirma que o mineiro se destacou na defesa da democracia, dos direitos fundamentais e do Estado Democrático de Direito. Mas existe uma pergunta que não pode ser ignorada: qual foi a contribuição efetiva de André Janones para a Bahia?

O parlamentar construiu sua trajetória política em Minas Gerais e teve sua atuação de maior repercussão nacional associada à campanha presidencial de Lula. E para e pela Bahia? Nada.

E é justamente nesse ponto que a proposta de Janones se encontra com a polêmica envolvendo Flávio Bolsonaro (PL).

Segundo peso

Em outubro, durante o período eleitoral, o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República, recebeu o título de cidadão soteropolitano. Natural do Rio de Janeiro, o parlamentar foi homenageado por iniciativa do vereador Cezar Leite (PL), em uma cerimônia realizada no Farol da Barra, durante um ato político com apoiadores do postulante.

A entrega da honraria provocou críticas e questionamentos sobre a ausência de uma contribuição efetiva de Flávio Bolsonaro para Salvador e para a Bahia. A cerimônia chegou a ser barrada pela Justiça, que apontou a possibilidade de conotação eleitoral ou partidária e questionou os custos da transferência provisória da sede da Câmara Municipal.

No dia seguinte, uma decisão de segunda instância suspendeu a liminar e permitiu a realização da solenidade.

Naquele momento, a pergunta era simples: o que Flávio Bolsonaro havia feito pela capital baiana para merecer o título? A resposta é a mesma: nada.

Medidas

É importante reconhecer que as homenagens são diferentes. Flávio Bolsonaro recebeu um título concedido pela Câmara Municipal, enquanto Janones poderá receber uma comenda da Assembleia Legislativa. Mas ambas representam o reconhecimento público de uma trajetória e de uma contribuição que deveriam ser justificadas de maneira consistente.

A atuação de Janones na defesa da democracia pode ser reconhecida por seus apoiadores. Isso não impede que se questione se essa atuação justifica uma das mais importantes honrarias do Legislativo baiano.

O problema surge quando os mesmos setores que questionaram a homenagem a Flávio Bolsonaro passam a aplaudir a proposta de homenagem a Janones sem aplicar o mesmo rigor.

Se a ausência de serviços prestados à Bahia foi um argumento válido para contestar uma homenagem, por que deixaria de ser válido quando o homenageado é um aliado?

No fim das contas, a discussão não é sobre direita ou esquerda. É sobre coerência.

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