Uma moeda que vale o mesmo que o real, mas que tem um valor social e o objetivo de fortalecer a economia do próprio território. Este é o papel da Umoja, que há mais de oito anos circula nos bairros do Uruguai, Jardim Cruzeiro e Massaranduba, na Cidade Baixa, em Salvador, movimentando supermercados, padarias, farmácias, açougues, lojas de roupas, relojoarias entre outros comércios locais.
Atualmente, mais de 50 estabelecimentos aceitam a moeda como forma de pagamento. Emitida pelo Banco Comunitário Santa Luzia, a Umoja integra uma estratégia de desenvolvimento local que busca manter os recursos financeiros circulando dentro dos bairros, promovendo maior inclusão financeira e incentivando os moradores a consumirem e valorizarem os médios e pequenos empreendedores das próprias comunidades.
Coordenador do banco, Carlos Eduardo Dias Barbosa, mais conhecido como Carlos Baby, explica que a proposta vai além da circulação de uma moeda própria. Segundo ele, a iniciativa contribui para impedir que os recursos deixem a comunidade e fortaleça as relações econômicas no território.
“A importância é que é uma estratégia de desenvolvimento local, faz com que o recurso não vá para os grandes centros e aqueça a comunidade, aqueça o mercado local. A comunidade interage de forma muito interessante, legal. Já tem mais de oito anos que a moeda circula e a gente não tem inadimplência alguma. Todo mês, a gente circula a moeda e, a cada 30 dias, a gente faz destroca”, esclareceu ele.
Com os mesmos valores do real – moeda nacional – a Umoja é disponibilizada em cédulas de cinco valores.
“A moeda é pareada com o real, tem o mesmo valor do real. A gente trabalha hoje com as moedas de R$ 0,50, 1 Umoja, 2 Umojas, 5 e 10 Umojas”, pontua Carlos Baby, revelando que, caso o comerciante não queira fazer a troca no final do mês, ele pode usar as moedas acumuladas em outros empreendimentos.
“Não precisa guardar as moedas para fazer a destroca, a gente faz a cada 30 dias. Eles [comerciantes parceiros] também podem comprar em outros estabelecimentos, que também recebem a moeda”, complementa o coordenador.
Além da circulação da moeda social, o banco comunitário atua com duas modalidades de crédito voltadas ao fortalecimento da economia local.
“Nós trabalhamos com duas linhas de crédito. Uma linha para produção, que é apenas para empreendedores da comunidade fortalecerem seus negócios, seus comércios. E há uma outra linha de crédito que é para consumo”, afirma Carlos Baby.
Único em Salvador
O coordenador destaca ainda que o Banco Comunitário Santa Luzia é o único de Salvador, embora a Bahia conte com outras experiências em diferentes territórios.

“Nós temos hoje 182 bancos comunitários em todo o Brasil, que fazem parte da Rede Brasileira de Bancos Comunitários. E na Bahia, nós temos nove experiências de bancos comunitários, cada uma em um território. Em Salvador, nós só temos o Banco Comunitário Santa Luzia”, reafirma.
Aceitação e valorização
A aceitação da Umoja também é percebida pelos comerciantes. Para Adson de Jesus dos Santos, que trabalha com bebidas, a moeda representa mais uma oportunidade de desenvolvimento para a comunidade.
“É muito interessante para a comunidade, porque é um desenvolvimento, mais uma coisa surgindo para que a comunidade possa desenvolver um bom trabalho. Eu trabalho com bebidas, então é mais complicado isso. Mas, mesmo assim, dá para colher, unir uma coisa com a outra”, avaliou Santos.

No comércio, a moeda social também garante acesso a produtos essenciais. Balconista de uma farmácia credenciada, Vanessa Soares afirma que a Umoja fortalece o comércio do bairro e amplia o acesso aos medicamentos.
“A moeda é uma estratégia de desenvolvimento local que faz com que a moeda circule na comunidade, fortalecendo o comércio no nosso bairro. A moeda é sempre bem-vinda, com certeza. Onde o cliente vem, ele é acolhido com a moeda, ele leva o medicamento dele e não fica em falta através dessa moeda, que foi o benefício que chegou pra ele aqui no nosso bairro”, afirma Vanessa.

Morador da Vila Rui Barbosa, na Península Itapagipana, o educador social Diógenes Reis utiliza a moeda em compras do dia a dia e considera que seu impacto vai além do consumo individual.

“Moro dentro da Península Itapagipana, no bairro de Vila Rui Barbosa. Utilizo o Umoja para fazer parte do meu consumo. Comprar insumos, fazer mercado e fortalecer a economia local”, revelou.
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Para ele, o principal resultado da iniciativa é manter a riqueza dentro da própria comunidade.
“É importante porque faz com que a economia não saia do nosso território, faz com que ela circule e fortaleça a economia local. A gente tem os impactos positivos, a comunidade toda absorve a moeda e faz com que essa inovação se fortaleça entre eles [moradores e comerciantes], e o fortaleça os médios e pequenos empreendedores”, conclui o rapaz.