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Educação ou agressão? Entenda limites sobre criação dos filhos

Casos recentes de crianças agredidas pelos próprios pais reacenderam o debate sobre os limites da educação dos filhos. Afinal, onde termina a correção e começa a violência?

Na semana em que é comemorado o Dia do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069), que define direitos e garante prioridade absoluta e proteção integral à vida, saúde, educação e lazer de menores de 18 anos, o portal A TARDE conversou com especialistas que explicam o que diz a legislação brasileira e quais práticas podem trazer consequências legais e emocionais.

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É importante estabelecer regras na relação entre responsáveis e menores, no entanto, entender onde termina a correção e começa a violência é fundamental para a segurança dos jovens.

Somente nos quatro primeiros meses de 2026, foram registradas 115.814 denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes, segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. A maioria das vítimas é do sexo feminino.

Neste sentido, também existe a Lei Menino Bernardo (Lei nº 13.010/2014), sacionada em 2014, que garante a crianças e adolescentes o direito de serem educados sem o uso de castigos físicos ou tratamentos cruéis.

“É considerada violência qualquer ação ou omissão que cause dano físico, psicológico, sexual ou moral à criança ou ao adolescente, incluindo negligência, abandono, exploração, castigos físicos, humilhações, ameaças e abuso sexual, conforme previsto no art. 5º do ECA”, explicaram Samile Souza, integrante da Comissao de Articulação e Divulgação e Graziela Cerqueira coordenadora da Comissão de Estudo de casos do Conselho Tutelar de Salvador, à reportagem.

Entenda o que é permitido pela legislação e quando os pais podem responder por agressão

Para evitar danos tanto à integridade física dos menores quanto imbróglios judiciais, as famílias são orientadas a garantir proteção, diálogo e cuidado, assegurando educação, saúde e convivência familiar.

“Por se tratarem, em sua maioria, de situações familiares, os casos também podem ser encaminhados para regularização de guarda e alimentos“, afirmam as conselheiras.

Segundo elas, as denúncias mais comuns envolvem:

  • Negligência familiar;
  • violência física;
  • violência psicológica;
  • violência sexual.

“Os pais podem responder criminalmente em casos de maus-tratos, abandono de incapaz, violência física, violência sexual, exploração, tortura, entre outros crimes que coloquem em risco a integridade da criança ou do adolescente”, pontuaram as especialistas.

O Conselho Tutelar intervém sempre que os direitos de crianças e adolescentes forem ameaçados ou violados, seja por ação ou omissão da família, do Estado ou da própria conduta da criança ou do adolescente.

Samile Souza e Graziela Cerqueira apontam, no entanto, que existem erros que os pais cometem sem saber que podem configurar violência como:

  • Bater como forma de disciplina.
  • humilhar, xingar ou ameaçar.
  • praticar alienação parental.
  • expor crianças a brigas, ao uso de drogas ou à violência doméstica.
  • ignorar necessidades básicas, como alimentação, higiene, saúde e proteção.

O diálogo, a educação baseada no respeito e a proteção integral são princípios estabelecidos pelo ECA.

Consequências psicológicas

Além de impactos físicos, crianças e adolescentes podem sofrer impactos psicológicos severos decorrentes da violência. Ao portal A TARDE, José Victor, psicólogo com atuação em infância e adolescência, pós-graduando em Neuropsicologia e Terapia Cognitiva Comportamental, explicou que é comum relatos de famílias de que os menores “apanharam, mas estão bem”.

“Quando a gente agride uma criança, a gente está punindo, a gente não está educando, a gente não está orientando. A punição vem, mas não vem a explicação sobre por que aquele comportamento não é errado e qual seria o comportamento adequado naquela situação […] Ela vai entender que pode fazer aquilo desde que os adultos não saibam“, explicou o profissional.

Segundo o psicólogo, nesses casos, a criança tende a evitar a punição, o que gera problemas, pois elas podem optar pela mentiras e omissões, por pedo de serem punidas, novamente, de forma violenta.

Desta forma, a situação começa a desencadear danos psicológicos, abrindo margem para outros problemas, colocando a criança em uma situação de vulnerabilidade, gerada pela relação baseada na falta de confiança.

É muito importante que os filhos possam confiar nos seus pais, possam ter relação de confiança para contar problemas, os desafios que estão enfrentando e para entenderem que eles podem errar de maneira segura. A gente hoje vive em uma sociedade que é muito punitiva em relação ao erro e a gente esquece que as crianças têm um excesso de aprendizagem e que erros são esperados dentro desse processo”, explicou.

Como orientar da forma correta?

Para José Victor, existe uma diferença entre ser disciplinador e ser um agressor. Ele pontua que o adulto precisa se atentar à autorregulação, entendendo que é a impaciência que acaba levando à punição, sendo que errar é natural, não apenas na infância, mas por toda a vida.

“A gente pode oferecer para regras claras, coesas e adequadas à idade. É muito importante cobrar da criança de forma que ela entenda. Explicar os motivos daquilo, sobre aquele comportamento, o que se espera dela, explicar o motivo de poder ou não poder fazer determinada coisa, reforçar o comportamento adequado […] A gente tem certa mania de não querer elogiar aquilo que é adequado, aquilo que a gente espera como normal e, de fato, o elogio não pode ser em excesso, tem que ser algo que vá sendo naturalizado”, defendeu.

José afirma que, desta forma, os responsáveis ensinam à criança que existe outra alternativa, principalmente ao dar exemplo.

“Se a criança vê os adultos ao redor dela se tratando com respeito, cuidado e educação, muito provavelmente elas vão tentar reproduzir isso e de forma espontânea”, enfatizou.

Violência pode aumentar risco de depressão infantil

O psicólogo alerta ainda que, além da questão comportamental voltada à desconfiança e à crença de que dá para resolver situações de forma violenta, as agressões podem causar danos à saúde, ligados a:

  • Ansiedade;
  • aumento do estresse;
  • depressão infantil.

“Crianças são como esponjinhas. Elas absorvem tudo porque não têm a capacidade compreensível que os adultos têm. Se elas estão observando que os adultos punem de forma violenta, é muito provável que ela entenda que ela pode fazer isso também, porque é uma lógica hierárquica e a criança entende que pode punir o outro de forma física”, disse.

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Aprenda a identificar e como denunciar casos de agressão a crianças e adolescentes

Conforme explica José Victor, de forma geral, as crianças dão sinais que estão sendo agredidas, no entanto, o fator depende da frequência, intensidade e como a violência ocorre. No entanto, é necessário se atentar às evidências:

  • Brincadeiras: se as crianças batem nas bonecas, podem estar reproduzindo comportamentos que presencia em casa ou em algum outro ambiente;
  • Desenhos: é importante analisar se os desenhos e organização dos elementos fogem do comum;
  • Sinais físicos: quando a agressão já está em nível mais intenso, o menor pode apresentar manchas na pele e olhos roxos, mangas na pele, roxos, lesões, queimaduras em comum,
  • Mudanças bruscas de comportamento: crianças submetidas a agressões tendem a apresentar isolamento, tristeza persistente, raiva, agressividade, estresse e problemas com sono, sobretudo quando o adulto agressor está por perto;
  • Xixi na cama: a exposição ao estresse prolongado e os traumas causados por violência doméstica ou abuso podem refletir na perda do controle urinário;
  • Sustos frequentes: a criança está sempre com medo e em alerta, se assustando muito fácil;
  • Problemas de autoestima: excesso de timidez pode estar relacionado a casos de violência;
  • Queda abrupta no desempenho escolar: afeta diretamente as funções cognitivas superiores, como memória, atenção e capacidade de concentração necessárias para o aprendizado;
  • Fugas de casa: não apenas quando o menor tenta escapar de casa, mas também quando se recusa a voltar.

Quando vizinhos, parentes ou professores devem denunciar?

Samile Souza e Graziela Cerqueira pontuam que o art. 4º do ECA estabelece que é dever da família, da sociedade e do poder público assegurarem, com absoluta prioridade, os direitos da criança e do adolescente.

“Assim, sempre que houver suspeita ou conhecimento de violência, negligência, abandono, abuso sexual, exploração ou qualquer outra violação de direitos, a denúncia deve ser realizada. Não é necessário ter provas, basta uma suspeita fundamentada. As escolas também devem comunicar casos de evasão escolar, elevado número de faltas e reiterado índice de reprovação”, explicaram.

Como denunciar?

  • Disque 100;
  • Conselho Tutelar;
  • Polícia Militar (190) em situação de emergência;
  • Delegacia Especializada ou Polícia Civil.

O que acontece quando uma denúncia é recebida?

A denúncia é registrada, e o suposto agressor é notificado para comparecer e prestar esclarecimentos sobre os fatos constantes na denúncia.

O Conselho Tutelar aplica as medidas de proteção cabíveis, por meio de encaminhamentos e requisição de serviços, e, quando necessário, comunica os fatos ao Ministério Público.

Relembre casos recentes

Menino de 3 anos morre após ser espancado por não dar ‘bom dia’ ao pai

Oliver Golden Grayson, de três anos, morreu no dia 9 de julho, após passar dias internado em estado gravíssimo na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre.

A criança havia sido espancada pelo próprio, Dandre Jermaine Grayson, missionário norte-americano de 33 anos, que foi preso preventivamente. Em depoimento, ele confessou o crime e afirmou que agrediu o filho porque o menino não lhe deu “bom dia”.

Segundo a Polícia Civil, o homem relatou ter desferido socos no peito e no abdômen da criança, além de bater a cabeça do menino contra o chão. Foi o próprio suspeito quem levou o filho ao hospital, onde os médicos identificaram múltiplas lesões e acionaram a Polícia Militar.

Pai é preso por chutar filha de 3 anos

No mesmo dia, um pai foi preso depois de ser flagrado chutando a própria filha de três anos em Francisco Beltrão, sudoeste do Paraná. Ele estava acompanhado por uma outra criança que, segundo as investigações, também teria sido agredida.

“Eu perdi a cabeça e acabei fazendo o que não deveria ter feito. Não era intencional. Eu jamais ia machucar a minha filha. Acabou acontecendo […] Ela tava berrando na rua. Eu tinha pedido pra ela parar de ficar berrando. Ela sempre chora ou berra direto, assim, escandalosamente”, afirmou em depoimento.

Menina é espancada pela mãe por olhar celular enquanto lavava louça

Em janeiro, uma mulher foi presa em flagrante por maus-tratos contra a própria filha, de 11 anos, na cidade de Ceilândia, no Distrito Federal. Segundo a Polícia Civil, a criança foi brutalmente agredida após interromper uma tarefa doméstica para olhar o celular.

De acordo com a denúncia, a mãe teria ordenado que a menina lavasse a louça. Durante a atividade, a criança fez uma pausa para usar o aparelho eletrônico, o que teria provocado a fúria da mulher. A suspeita passou a agredir a filha com uma sandália, causando diversos ferimentos.



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